Manifesto de uma mulher, brasileira, recém-chegada da Espanha


Turma do curso "A mulher na História da Espanha"

Há alguns dias vi na TV uma notícia sobre mulheres que eram obrigadas a se prostituírem em Salamanca, Espanha. Cidade de onde retornei há algumas semanas, depois de passar quase um mês estudando.
Além das duas horas diárias de estudo da língua espanhola, eu fazia um outro curso chamado A mulher na História da Espanha. Assim como o Brasil, a Espanha ainda é um país machista, não sei se em menor proporção, mas de uma forma diferente.
Nas aulas eu sempre ficava intrigada com uma das alunas. Ela se admirava quando a professora explicava que durante a Idade Média maridos podiam matar suas esposas por traição. Surpresa, ela perguntava se as mulheres poderiam fazer o mesmo a seus maridos adúlteros. Não por acaso, ela é suíça.
Eu me pegava pensando na maravilha que devia ser morar num país onde a diferença entre homens e mulheres é tão ínfima que relatos históricos como esse causam surpresa a uma jovem. 
Bem, eu tive que perguntar a ela se aquilo que para nós latinos não era novidade, era realmente tão novo para os seus ouvidos. Ela disse que se tratava de uma parte da História que ela não conhecia a fundo, mas, que de fato, em seu país, homens e mulheres eram praticamente páreos.
Dei um tom menos sério a nossa conversa e disse que alguns espanhóis haviam me contado que na Espanha, as mulheres é que tomavam a iniciativa e que isso é quase impraticável no Brasil porque muitos homens se sentem incomodados e não sabem como reagir diante dessa situação.
Em alguns casos até recriminam mulheres com essa atitude. E que as própria mulheres partilhavam do pensamento de que o homem é quem deve se encarregar da conquista.
Contei a ela que no dia anterior ouvi a queixa de um brasileiro que estava se sentindo um tanto quanto “castrado” porque não tinha tido a oportunidade de tomar a inciativa, já que as mulheres faziam isso antes.
Ela achou tudo muito engraçado e disse que iria ela mesma abordar esse brasileiro para descobrir qual seria sua reação.
Conversamos ainda sobre como as brasileiras tem uma certa obrigação social em assumir vários papeis. Além de trabalhar fora, devem ser mães e esposas.  De como elas se pressionam para casar antes dos 30 anos e de como a mulher que não cumpre todas essas etapas é vista com pena pela sociedade brasileira.
A minha colega de classe ficava surpresa a cada relato, mas não deixava de achar divertido. Parecia que eu lhe apresentava um cenário de filme, filme de época. Depois soube que ela não tentou nada com o brasileiro porque lhe parecia muito “aburrido” (chato) tentar mudar valores de outra cultura, mesmo de que brincadeira.
Eu tive que concordar. Achei sensato e respeitoso. Além disso, eu não passaria minhas férias na Espanha tentando convencer um brasileiro de que não há problemas em ser abordado por uma mulher.
Eu sempre digo que se não fosse brasileira gostaria de ser espanhola. Eu sinto esse “não sei o que” que vem “não sei de onde” pela Espanha. Mas eu desconfio que o fato das culturas serem tão parecidas seja a explicação.
Andando pelas ruas de Salamanca, à noite, é possível ver mulheres seminuas rebolando em mesas de bares ou homens expondo seus músculos atenienses. Uma cultura tão erotizada e preocupada com a beleza quanto a nossa.
E onde eu quero chegar com esse balaio de gato?
Justamente no que representa ser mulher e brasileira na Espanha e em outros países da Europa.
Eu sou uma pessoa tolerante em muitos aspectos relacionados à sexualidade e sou uma ávida leitora de temas sobre a discussão de gênero, muito embora não participe de nenhum movimento social e só escreve opiniões de vez em quando.
O fato é que enquanto mulher, eu adoto posturas que julgo do meu total direito enquanto pessoa, estando eu no Brasil ou na Espanha. Posturas que muitas vezes são mal vistas pela ala mais conservadora, do tipo falar com todas as letras que me interesso sexualmente por alguém, que faço sexo sim e que ainda por cima, gosto. Pode isso? Logo eu, uma mulher.
Pois é, isso acaba caindo no estereótipo da “latina libertina”. Mas diferente do que a Europa imagina as brasileiras ainda são conservadoras e machistas. E todas as bundas e peitos que se veem no carnaval não são mais do que o reforço desse machismo vivido no país.
E é esse país que tem grande responsabilidade se suas mulheres são tratadas como objeto de baixo valor e se elas se tornam escravas sexuais mundo a fora. É esse país que vende e reforça essa imagem em seus próprios cartões postais.
Não sou eu enquanto estudante brasileira, que vou para Europa em busca de aprimoramento intelectual, que devo me envergonhar ou me policiar para convencer uma outra nação tão machista quanto a minha que o Brasil não é celeiro de puta.
Não me sinto na obrigação de convencer ninguém de nada a meu respeito, principalmente quando o próprio país faz questão de reforçar o contrário. Não é enterrando a cara no buraco ou fingindo ser quem não somos que vamos mudar a imagem do Brasil lá fora.  
O país tem que oferecer as suas mulheres outras perspectivas para que elas desejem ser mais que uma “bunda rebolativa”. Para que as milhares de universitárias que atravessam o oceano anualmente ambicionem encontrar mais que um marido europeu. Para que elas desejem retornar a sua pátria porque aqui se sentem respeitadas ou para que todos esses desejos anteriormente questionados possam ser escolhas conscientes. É dando as suas mulheres condições para construção de um pensamento crítico que se dá a essas mulheres o direito de escolha.
O que eu espero enquanto mulher e enquanto brasileira é que quando eu manifeste meus desejos sexuais ou não, enfim, quando eu manifeste qualquer opinião que pareça chocante, as pessoas entendam que se trata da Gabriela indivíduo e não da latina desavergonhada. Que isso não seja um estereótipo vexaminoso para brasileira, mas que acima de tudo ser mulher e falar o que pensa não seja um estigma.
Não estou eximindo a Espanha da sua responsabilidade no caso retratado pela TV. Essa é uma vergonha partilhada pelas duas nações. É uma vergonha praticada mundo a fora. E não me refiro à prostituição, mas ao cerceamento da liberdade individual e em particular da mulher. Basta relembrar o recente e chocante caso da também universitária indiana, vítima de um estupro coletivo, num ônibus, quando voltava pra casa. A jovem não resistiu a violência e morreu.
Meu amor e admiração pela Espanha não diminuíram, assim como não diminuíram pela minha pátria. Muito pelo contrário. A minha rápida passagem por Salamanca me permitiu, como eu disse anteriormente, realizar o curso A mulher na História da Espanha e entender quão próximas são nossas culturas.
Pude perceber nas expressões de surpresa da minha colega de classe suíça, o que é viver numa sociedade que te respeita enquanto individuo independente do sexo. Vi uma sala repleta de mulheres, e para minha própria surpresa, de homens de diferentes nacionalidades interessados por um mesmo tema, a mulher. Porque independente da nacionalidade não aprendíamos só sobre a condição da mulher espanhola ao longo de séculos, mas sobre a condição da mulher ocidental.  
Pela primeira vez eu vi a discussão para além do grupo que representa. Discutir sobre a condição da mulher na sociedade não pode ser uma discussão apenas entre mulheres. A mudança do papel social da mulher, muda a sociedade como um todo, e, portanto se reflete na mudança do papel do homem.
Eu vi e comemorei mulheres, espanholas, que sim, tomam a inciativa em vários aspectos e não sentem vergonha disso.  E que falam olhando tão diretamente nos seus olhos e tão despudoramente próximas que eu nunca sabia se a conversa era só uma conversa.
O que não significa que os homens dessa sociedade sejam menos machistas. Como eu já disse só são de uma maneira diferente da nossa. Eles só parecem mais confortáveis com a nova situação. Tão confortáveis que o fato da mulher tomar a iniciativa só representa um trabalho a menos para eles.
Falar sobre quem toma a iniciativa numa abordagem é só uma maneira de ilustrar como se definem os papeis sociais. Não sei como as coisas se definirão nos próximos anos, mas espero que a questão deixe de ser “quem toma a iniciativa” para ser “não interessa de quem é iniciativa”, o direito é de ambos.
Longe de me sentir estigmatizada, dessa vez volto da Europa com a certeza de que como mulher, mas acima de tudo como indivíduo, posso caminhar “desavergonhamente”, com o perdão do trocadilho, por qualquer parte, porque a minha postura é resultado do meu direito de escolha, praticado conscientemente. Direito não só da brasileira, mas sobretudo da Gabriela. 

 

Uma versão mais "enxuta" do texto para publicação no Jornal do Tocantins (os jornais tem um limite de espaço para publicações), principal jornal impresso do estado.


Vídeo de divugação do protesto global  "Um bilhão que se ergue" que almeja combater a violência contra mulheres.


Um comentário:

Rene Passos M disse...

Nossa!... Como o papo de feministas É CHATO!!!

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