Cada um enfia as oportunidades que recebe onde acha melhor



Eu sempre me lembro dessa cara. Um tipo James Dean. Sorriso de “cafa”, jaqueta de coro, preferência por preto, fumante, porém de cabelos escuros e pele clara. Meu tipo total (exceto pelo cigarro).
De longe ele sorria pra mim e eu retribuía com um certo ar de desdenho que ele fez questão de reclamar.
Chegou perto e falou no ouvido, sorriu e me deu uma bebida. Ele era bom, mas eu também era.
Não acreditou quando ouviu a minha voz, ou melhor, o meu sotaque. Não era possível que eu fosse brasileira. Então ele me disse que sempre passava as férias em Santos, que tem família lá. Elogiou o meu sorriso e voltou a repetir que jamais acreditaria na minha brasilidade não fosse meu sotaque. Motivo?
Eu era bonita.
Lembro de ter me surpreendido muito com aquele comentário porque até então era essa a fama que as brasileira tinham mundo a fora. Não para ele, pelo visto. E continuou: “Você é muito bonita e branca“
_Obrigada pelo bonita! Não entendi o “branca”.
_O Brasil é um país de pretos. As mulheres são feias. Só não se passa por portuguesa por isso (apontou para minhas pernas) e por isso (apontou para meus seios). Ou seja, pernas grossas, seios pequenos. Uma típica brasileira, exceto por não ser preta, como ele dizia.
Eu ria e não acreditava no que estava ouvindo. Um pouco antes ele havia me contado que era filho de espanhol com brasileira e havia nascido e se criado em Portugal. Eu não conseguia imaginar mistura mais bem sucedida. Além disso o pai era diplomata e ele já havia morado em muitas partes do mundo.
Eu ficava me perguntando como nascido de origens tão distintas e viajado pelo mundo, alguém que era a própria miscelânea, fosse capaz de disparar comentários tão infelizes. Eu juro que me perguntei o que ele tinha aprendido com tantas mudanças, lugares, culturas. Que diabos ele fez com as coisas que viu, conheceu? E que me desculpem sinceramente os pais, que sempre ficam com a culpa, mas que educação eles deram para esse menino?
Como, tendo uma mãe brasileira, ele podia se portar assim diante da sua descendência? Por um momento senti até raiva da mãe dele, que devia ser um caso Carlota Joaquina. Eu jamais poderia supor essa postura de alguém com esse histórico.
Bem, ele me contou o quanto adorava Veneza. Que desejava morar lá. Não existia lugar mais perfeito. As venezianas eram incríveis. Livres e sempre dispostas para o sexo. Sem pudores.
No sei qual era a intenção dele com afirmações (sei sim), embora eu não fosse veneziana e talvez tão despudorada, eu era portadora de um descaramento muito brasileiro. E com um sorriso malicioso no rosto, soltei: “Engraçado você falar dessa falta de pudor que tanto te atrai numa mulher e até agora não ter tido a coragem de me dar um beijo”.
Eu desconfiava sobre o motivo. Os portugueses não são muito chegados a beijar em publico. Principalmente se tratando de uma brasileira que ele acabou de conhecer.
Como eu desconfiava, ele disse que me beijaria fora da discoteca (como é chamada boate em Portugal), mas eu disse que não. Se ele não me beijasse naquele momento eu não beijaria.
Ele não estava acreditado que eu estava impondo algo a ele. Ele relutou, mas finalmente entendeu que eu não estava brincando e me deu um beijo rápido. Eu ri e disse que ele era como todos os portugueses. Falava tão mal das suas conterrâneas que eram sempre cheias de fricotes e correspondia fielmente ao estereótipo.
Ele não tinha como contra- argumentar. Eu era cínica e não tinha nada a perder. Além disso, estava adorando ver ele incomodado com a minha insolência.
Bem, não bastasse ser incrivelmente lindo, ele também tinha um carrão de filme. Estou contado isso pela preocupação que ele teve ao me levar em casa. Eu morava num bairro periférico de Portugal, com vizinhos ciganos. Imagina o que poderia acontecer com meu ator de cinema... haha
No outro dia como de costume eu contei tudo para Maiara. Ela, indignada com os comentários sobre as nossas raízes negras (A Maiara pesquisa sobre escravidão no Brasil), me perguntou porque eu tinha ficado com ele. E a voz de consolo soltou: “Você não precisa disso”. 
Eu ri e disse que ela sabia muito bem o motivo. Afinal as minhas intenções naquele lugar nunca foram boas, mas eram as melhores, hahah.
Naquela época eu ainda não imagina que o caso do meu James Dean poderia virar uma análise antropologia, ou pelo menos, mais um post nesse blog.
Bem, e porque estou contando todas essas bobajadas? Porque a postura do português/brasileiro/espanhol me deixou muito intrigada e me consumiu bons minutos de pensamento. Não só pela surpresa que já mencionei acima, mas também porque me fez ver o quanto eu estava presa aos meus próprios valores.
“Boa vida e boa oportunidades” por si só não garantem a boa formação de alguém. E mais uma vez partindo do princípio da minha interpretação a respeito  dessa boa educação. Estou me referindo a valores sociais, culturais.
Ele aproveitou todas as boas chances que recebeu de outras maneiras, no sentido do que era mais interessante para ele aproveitar. Viagens, carros, roupas... Ele escolheu o que fazer com essas “boas oportunidades”. Eu teria aproveitado de uma outra maneira, ou não. O que nos leva a minha próxima reflexão.
Muito provavelmente o meio que ele foi criado é permeado pelos mesmos valores. Como enxergar as coisas de modo diferente sem outro referencial? Ficou muito claro que ele não achava que emitir esse tipo de comentário fosse um problema.
Não estou dando uma de advogada do diabo, mas o meu julgamento tão severo e irônico a respeito do comportamento do outro me fez olhar pra dentro e perceber o quão inflexível eu poderia ser também ao defender os meus valores.
Feita a reflexão, compreendo que cada um escolhe o que fazer com aquilo que recebe e o fato dele ter tido uma vida com mais privilégios que a maioria não o obriga a ser o salvador da pátria e muito menos garante grandes feitos.


Quando defeitos podem ser qualidades


"A garotinha marrenta que se recusava a cumprimentar o presidente da República João Baptista Fiqueiredo"* 

A minha mãe sempre me conta o quão teimosa eu era quando criança. Ela podia repetir mil vezes que não que eu continuava perguntando o por que não podia alguma coisa e insistindo que queria. Ela detestava me levar às compras de supermercado. Desde menina eu já dava indícios do meu vicio por chocolate. Daí já viu, se não levasse uma caixa abria o berreiro e literalmente batia o pé. Eu era bem birrenta.
Uma vez, não lembro porque, ela brigou comigo durante um almoço e na mesma hora eu não quis mais comer, eu nem tinha começado a refeição. Estava morrendo de fome, mas resisti à vontade para provar meu orgulho.
Mas a história que ela mais gosta de contar é sobre o caso do algodão doce. Tinha um senhor que sempre passava na minha rua com um cacho de algodão doce. Eu acho que como toda criança, achava aquela nuvem de açúcar uma coisa muito legal e sempre pedia a minha mãe que comprasse. Ela relutava e dizia que eu nunca comia até o fim. Aliás, eu só beliscava e não queria mais. Mas eu batia o pé dizendo que dessa vez ia ser diferente e que eu comeria tudo.
Um dia minha mãe foi categórica: ”Se você fizer como das outras vezes, eu vou te fazer comer até o fim”. Eu não dei lá grande importância à ameaça e fiz como sempre. Comi o que queria e depois deixei de lado.
Bem, ela cumpriu o que disse e me fez comer até o fim. O curioso disso tudo é que ela achou que eu nunca mais ia querer comer algodão doce na vida. Ledo engano. Eu não tenho qualquer trauma desse episódio.
Eu fui uma criança que apanhou tanto do pai como da mãe. Motivo? Birra. Sempre, invariavelmente. Eu sempre fui uma criança na linha. Não mexia em nada que não fosse meu, não mentia, não brigava, não aprontava. Aliás, acho que foi isso que faltou na minha infância, travessura.  Pelo menos ia apanhar com motivo.
Hoje como adulta, acho realmente que apanhei desnecessariamente. Acho que faltou paciência da parte dos meus pais. Eu sou a primeira filha, talvez isso explique. Eu imagino que deva ser realmente irritante uma criança berrando no seu ouvindo e dizendo o quanto quer uma coisa que ela pode nem querer.
A minha mãe disse que as lágrimas mal secavam do meu rosto, depois de uma surra e voltava perguntando por que e afirmando que ainda queria, seja lá o que fosse.
As surras não me tornaram uma pessoa ruim, mas também não mudaram tanto esse aspecto. Eu continuo sendo movida a porquês e desejando coisas insistentemente, para o bem e para o mal.
Mas em algum momento da minha adolescência, eu achei que a minha insistência soava como atrevimento, petulância. Eu era sempre tão convicta. Acho que isso incomodava professores e colegas de classe.
Em parte foi bom, porque entendi que existiam zilhões de opiniões além da minha e que também eram válidas. Mas por outro lado achei que incomodar pessoas fosse um problema sério e que eu não deveria me posicionar tanto.
Eu abri mão das minhas muitas certezas para deixar que outras perspectivas me penetrassem. Eu aprendi a respeitar diferenças com isso, mas assumi comportamentos que nem sempre serviam para mim.
Como tudo na vida há pontos positivos e negativos em nossos comportamentos. A minha teimosia já me fez dar muito murro em ponta de faca. Mas foi ao mesmo tempo o que me levou de onde estava para onde eu desejava chegar. Expressar opiniões com convicção realmente pode soar arrogante e pode desagradar, mas também se trata de saber o que a gente é e deseja. É respeitar quem somos. Não estou falando de impor opiniões, mas de não calá-las para agradar a outrem. 
Eu fiz aulas de dança por alguns meses e fiquei impressionada em como é possível ler alguém através da postura corporal, dos movimentos.
Lembro do professor falar que tem muito aluno que chega à sala acanhado, de cabeça baixa, ombro pra dento.  Que tem medo de se mostrar. Ele associou isso, em parte, a nossa cultura do coitado.
Segundo ele, brasileiro tem essa coisa de ter que ser sempre humilde, servil. Gente confiante soa como arrogante. Eu nunca me esqueci disso. Achei que tinha muito sentido naquelas palavras.
Eu acredito na teoria que diz que os adultos são reflexos da infância que tiveram. Eu tenho muito daquela menina que mesmo chorando, continua insistindo. Mimo ou determinação? Depende de como se encara. Para o bem e para o mal.

* Procurando uma imagem para esse post, encontrei essa foto de fato verídico. Vale a pena conferir a matéria --->(http://www.hiroshibogea.com.br/?p=8564)!