A arte que é para todos

Meg Wachter

Numa das aulas de espanhol trabalhamos um capítulo do livro onde o tema era arte. Dentre as várias imagens, nos deparamos com uma obra do escultor espanhol Eduardo Chillida, chamada Plano oscuro.

Plano oscuro, Eduardo Chillida

A professora pediu a cada aluno que dissesse o que a obra representava para si. Cada um deu sua interpretação e eu respondi que para mim não dizia nada além de ferro retorcido.
Ela respeitou minha opinião e deu a sua, argumentando que aquele tipo de arte não era para leigos como nós. Eu tive que contra argumentar dizendo que arte é pra todo mundo. 
Honestamente não me sinto uma ignorante por não compreender o que o artista quis dizer. Nem acho que é preciso ser um expert no assunto para se sentir tocado por uma obra. E ao mesmo tempo pode-se entender do assunto e ainda assim ficar indiferente ela.
A arte tem diversas funções e a característica na qual mais me reconheço é na de causar emoção. Adoro essa sensação de me sentir tocada por uma obra. Isso já me aconteceu em alguns espetáculos ditos populares.
Uma vez assistindo a peça Acorda Zé que a comadre ta de pé não contive as lágrimas ao ver o elenco empunhado com “instrumentos forrozeiros”. Quando ouvi o triângulo e zabumbo foi rio abaixo.

Acorda Zé que a comadre tá de pé, Grupo Moitará (RJ)

Me arrepiei ao ver o grupo Tholl em acrobacias que desafiam o corpo humano, no espetáculo Exotique e senti uma frio na barriga quando assisti pela primeira vez uma orquestra. Nem pisquei ao ver o primeiro espetáculo de balé. Nada menos que Bolshoi.
Nos últimos dois meses frequentei os mais diferentes programas culturais. E todos os espetáculos, sem exceção, foram abertos ao publico. Assisti tudo gratuitamente.
Quem me conhece mais de perto sabe que arte e cultura são minhas grandes paixões. São as coisas que me movem e despertam em mim um encantamento sem tamanho. 
De onde vem isso eu não sei, porque nunca fui estimulada em casa. Cresci numa cidade pequena que não oferecia opções de lazer e cultura e minha família também não partilhava desses interesses.
Meu primeiro contato com essa paixão chamada arte foi aos quinze anos, através da literatura. Foi lendo Senhora, de José de Alencar, uma das obras obrigatórias do vestibular. Desde então nunca mais parei de ler e tenho minha mini biblioteca particular.
Através dos clássicos da literatura brasileira fui despertando para outras vertentes da cultura. Com eles cheguei ao cinema, pois gostava de ver as obras lidas retratadas na telona. Por tabela tornei-me amante do cinema nacional.
Assim como na literatura eu gostava de sentir a proximidade com aquilo que estava sendo retratado. Gostava de ver minha cultura representada, por mais diversa que ela fosse e que em muitos casos as obras não falassem da minha região. Mas não deixava de ser a minha identidade. Era o todo que via. Era o pertencimento a nação que sentia.
Ao me mudar para Palmas comecei a freqüentar o teatro e durante minha temporada na Europa pude visitar alguns museus. Meu gosto pela arquitetura também foi despertado lá.
Ao adentrar tantos espaços com exposições de telas, a minha necessidade de entender aquilo foi aumentando a ponto de querer estudar mais sobre. E recentemente me inscrevi num curso de História da arte.
A arte sobre mim inebria, emociona, absorve toda a minha atenção. Eu vivi anos sem esse estimulo e só recentemente meu repertório tem sido ampliado porque tenho buscado cada dia mais. Mas mesmo quando eu caminhava pelos museus e não entendia nada do que alguns artistas queriam dizer, eu me sentia tocada por aquilo.
Acho que procurar entender a intenção do artista e as características da obra é importante sim, isso aumenta nosso repertório e nossa compreensão a respeito daquilo, mas isso não deve ser uma barreira para quem não tem acesso a essa informação. A meu ver o sentindo da obra também é construído com o espectador.
Outro dia assisti a uma performance com uma amiga e ela saiu do evento puta da vida porque não conseguiu descobrir o que artista queria dizer. Engatamos uma discussão prolongada sobre a função da arte.
Para ela algo que não pode ser compreendido é inútil. Eu argumentei dizendo que só a inquietação que aquilo tinha causado nela já era algo. Talvez aquela fosse a intenção. Talvez não. Talvez nem ela nem eu tivéssemos entendido nada mesmo.
Entretanto, eu diferente dela, me senti “ok” por não ter compreendido e não ter sido tocada de alguma forma. Aquele tipo de manifestação não me dizia nada e para mim aquilo era uma questão de gosto. Eu não aprecio aquele tipo de arte e não me sinto obrigada a entender.
A minha amiga disse que ia mandar um e-mail para a artista e perguntar do que se tratava tudo aquilo. Achei bacana porque aquela incompreensão despertou algo nela, moveu seu interesse. Foram formas diferentes de reagir.
Por outro lado quando assistimos a OCA (Orquestra de Câmara do Amazonas), antes de iniciar a apresentação o regente explicou o que era uma Orquestra de Câmara* e apresentou cada instrumento.
Antes de dar inicio a cada clássico, também explicou de quem eram as músicas e como foram pensadas para serem executadas. Uma proposta completamente diferente de apresentar arte. Até porque se trata de um projeto do Ministério da Cultura em parceria com BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que quer viabilizar o conhecimento de música clássica pelo país.
Mas o fato de não conseguimos alcançar o sentido da obra imediatamente não nos torna inaptos a ela. Isso não significa que é para uns e não para outros. E nem o fato de não termos alguém que nos explique do que se trata invalida a obra ou a torna menos acessível. Isso não a torna inútil.
Essa é outra das funções da arte: inquietar, provocar. Às vezes pode parecer mesmo incompreensível porque quer nos fazer pensar, refletir a respeito.
Não ignoro que durante muito tempo Arte era para poucos mesmo e em alguns casos ainda é, no que diz respeito ao acesso. Ainda pode ser muito caro pagar por ela. Arte denota status, poder.
Mas com a revolução industrial e  a produção em série ela se tornou cada vez mais reprodutível e acessível, o que para muitos rebaixa e até descaracteriza a verdadeira arte que deve ser única.
Eu não encaro dessa forma. Sem essa popularização e massificação eu nunca teria acesso a ela e sem isso não veria meu interesse despertado e nem procuraria conhecer mais e desenvolver meu pensamento crítico.
Essa forma de explorar a arte não me tornou menos encantada com a experiência da contemplação, quando assim eu tive a oportunidade de ver obras originais de perto. E muito me roubou o interesse pelo ao vivo. Hoje eu sou uma amante do teatro. Mas sem a reprodução em série na internet, livros e revista sabe lá quanto tempo eu demoraria para ter esse interesse. Imagina, eu, no interior do Pará.
Prova de que a falta de conhecimento não anula o interesse e muito menos a compreensão foi a diversidade de publico que eu vi pelos espetáculos que freqüentei nesses últimos dois meses.
O argumento de que o publico era grande porque os espetáculos eram gratuitos não diz tudo. Se as pessoas não apreciam o que está sendo mostrado, elas deixam o local, não ficam até o fim. O que vi foram platéias aplaudindo de pé e pedindo bis.
Já ouvi algumas pessoas dizendo que essa reação se dá porque a população local não está acostumada com esses eventos, já que aqui não acontece com freqüência. Acho essa idéia reducionista e preconceituosa.
Vejo a procura em massa de forma muito positiva.  Entendo como o reflexo de um publico carente e sedento por essas manifestações, que mesmo sem estar familiarizado vai atrás porque quer conhecer. Acho essa curiosidade e esse interesse louváveis.
Gostaria de deixar claro que não se trata de uma apologia a ignorância, e ignorância no sentido de não conhecer. O quero dizer é que não participo do grupo que entende arte como algo que deve ser inacessível.
O fato de não ter repertório sobre um assunto não nos impende de ser tocado de alguma maneira por aquilo. Mas entendo sim que ausência desse mesmo repertório pode limitar nossa compreensão e às vezes até gerar aversão.
Em nosso pais arte, cultura e educação nunca foram prioridades. Ouso dizer que por muitos não são considerados nem necessidade. Não temos escolas que nos preparem, nos sensibilizem, nos familiarize com o assunto. Nosso país trata disso com menosprezo.
Também não quero me apoiar nessa justificativa para o não consumo de arte. As pessoas também tem o direito de não gostar.
O que acho é que a elas tem que ser dada a oportunidade de escolher entre consumir ou não e que a não oferta jamais pode caracterizar a falta de interesse. A arte tem que estar ao alcance de todos para que a gente decida o que fazer com ela.  Desde procurar um curso para entende melhor a ficar “ok” por não se interessar.

Abaixo alguns dos espetáculos que assisti gratuitamente e recomendo:

Sua Incelença, Ricardo III - Teatro Clowns de Shakespeare.  Natal, Rio Grande do Norte.
Teatro de rua, ao ar livre. Assisti no gramado do Espaço Cultural de Palmas.

OCA (Orquestra de Câmara do Amazonas) – Projeto Música na estrada. Manaus, Amazonas.

Exotique - Grupo Tholl. Pelotas, Rio Grande do Sul.
Assisti durante a Flit. (Feira Literária Internacional do Tocantins.)

Cantata Gonzaguiana - Orquestra Sinfônica de Teresina e João Claudio Moreno. Teresina, Piauí.
Flit

Grande Suíte do Balé “Dom Quixote” - Balé Bolshoi Brasil. Joinville, Santa Catarina.
Flit.Também ao ar livre, assisti na Praça dos Girassóis.


Algumas peças que assisti esse ano pelo Projeto Palco Giratório do SESC*.

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas - Trupe Ensaia Aqui e Acolá. Pernambuco.


 Dia Desmanchado -Teatro Torto. Rio Grande do Sul.

 Instantâneos - Cia dos Bondrés. Rio de Janeiro.


*Orquestra de Câmara “...é um conjunto bem menor (se comparado a sinfônica) e costuma ter, na maioria dos casos, entre oito e 18 músicos [...] a palavra "câmara" é sinônimo de "sala, quarto ou aposento pequeno". Ou seja, é um tipo de música erudita para pequenos espaços, executada por poucos músicos. Outra diferença importante é que, ao contrário das sinfônicas e das filarmônicas, as orquestras de câmara não costumam ter todos os tipos de instrumento, como os de corda, de sopro e de percussão. Na verdade, o mais comum é que elas tenham apenas um tipo deles - se for uma apresentação de corda, por exemplo, devem aparecer só violinos, violas, contrabaixos e violoncelos.”
No caso da apresentação que assistimos se tratava de instrumentos de corda.


*O projeto consisti no intercâmbio de peças teatrais. Os espetáculos que participam do projeto rodam o pais se apresentando e ao fim de cada apresentação o elenco bate um papo com a platéia. A entrada custa apenas 10 reais e tem meia para estudante.
 
Nessa entrevista o idealizador do museu de arte contemporânea, Inhotim, em Belo Horizonte (MG), fala de como tornou o projeto acessível a todos os públicos.

Férias culturais: “A Amazônia é legal!”


Tia Gabi e o parceiro Iraci bombando na contação de lendas =D


Esse foi o tema da programação de férias que a instituição onde eu trabalho ofereceu para garotada depois do encerramento das aulas.
A programação contou com várias atividades nas áreas de música, teatro, dança, cinema e literatura, na qual eu atuo. Além de desenvolver atividades de reciclagem.
Durante uma semana recebemos crianças com idade entre 6 e 12 anos. Elas foram dividas em grupos de cores, onde cada um correspondia a uma faixa etária. Amarelo: 6 anos,Laranja: 7 anos, Verde: 8 anos e Azul: 9, 10, 11 e 12.
A idéia é que ao longo da semana todos os grupos passassem por todas as atividades.
Bem, dentro da literatura, o grupo de mediadores ficou responsável por duas atividades, o jogo da boiúna (cobra) e a contação de lendas.
O jogo da boiúna foi criado e desenvolvido pelos próprios mediadores (que orgulho!). Criamos desde as regras, perguntas, estrutura até peças. Apesar de ter ajudado na criação do jogo, eu fiquei no grupo da contação.
Comigo havia ainda outros dois mediadores e o primeiro grupo que recebemos foi o Laranja. Por serem menores, ficaram muito atraídos pela sala que estava decorada com imagens de personagens das lendas amazônicas. Havia ainda um tapete grande e fofinho cheio de almofadas. O nome da sala era confortável.
Sem tanta certeza sobre a minha habilidade em entreter crianças eu optei por usar fantoches na contação. Não poderia ter tido idéia melhor J.
Eu escolhi o único boneco negro que havia e dei a ele o nome de Iraci. Meu personagem tinha um espírito medroso e sempre que contávamos lendas assustadoras o coitado pedia as crianças que ficassem perto dele.
A garotada adorou. Uns tentavam assustá-lo ainda mais, muitos achavam graça e outros se solidarizavam com o pobre, rsrs.
Entre as turmas Amarelo e Laranja ele foi a sensação. As crianças menores recebem tudo com mais encantamento. Elas queriam pegar, conversar com ele.
Era como se ele realmente fosse outra pessoa contando histórias, mesmo que as crianças percebessem que era eu quem fazia sua voz.
Houve um momento em que o grupo Amarelo pediu em coro: “Fantoche, fantoche, fantoche!”. Achei tão bonitinho e fiquei toda orgulhosa. Eu me tornei uma tia popular graças a minha cara- de- pau e ao Iraci.
Essa experiência com crianças foi bem diferente da que eu venho tendo com a mediação.  Não só pelo ambiente, pela classe social, mas principalmente pela idade.
Apesar do cansaço, eu fiquei muito empolgada. Ficava esperando pelas turmas Laranja e Amarelo. Queria ouvir as histórias, pôr no colo, abraçar. Com eles era uma delícia. E meu colo foi mesmo bem disputado. Ganhei muitos beijos, elogios e passadas de mão no cabelo. Coisa mais fofa. Eu criei uma relação de afeto com algumas crianças. Gravei até o nome.
Uma das meninas com quem eu mais me apeguei chegou à sala chorando. Não queria ficar. O pai a ameaçou e disse que se ela não participasse das atividades eles iriam ter uma conversa séria quando chegassem em casa.
Eu me aproximei e convidei-a para entrar, mas a menina estava relutante. Então o pai pediu licença e puxou ela num canto para dizer mais coisas. Antes de sair me pediu que avisasse caso ela não fizesse nada. Eu disse ok.
Quando ele foi embora, disse a pequena que ela não precisava participar das brincadeiras se não quisesse e que eu não iria contar nada ao pai dela.
Me encaminhei a roda com os outros e quando ela viu que todos participavam, correu e sentou ao meu lado. Não chorou mais e se envolveu em  tudo.
O motivo do choro era a visita de uma colega que mora em Brasília. Era a primeira vez que ela vinha a Palmas e a minha pequena não podia estar com ela.
Achei aquela preocupação tão bonita, tão sincera. Ela só tinha 6 anos e estava preocupada com a amiga que ia ficar sozinha enquanto ela se divertia.
Não sei por que o pai agiu daquela maneira. Talvez fosse um dia ruim, talvez a menina tivesse feito muita birra, vai saber. O fato é que pressionar uma criança não costuma ser a melhor maneira de convencê-la.
Quando ele veio buscá-la eu fiz questão de informá-lo que ela havia participado de tudo. E na verdade nem precisava porque ela nem queria mais ir embora. Ele foi simpático e agradeceu.
Como ela, havia muitos outros cheios de histórias deliciosas para contar aqui no blog. Foi uma semana que ampliou o meu repertório com crianças e que deu a sensação de levar muito jeito com elas.
Crianças são universos muito ricos e merecem que a gente olhe para eles com todo o respeito e atenção. Estou feliz e satisfeita com mais essa experiência. J


Aproveitando ainda a dobradinha crianças/livros que eu tenho trabalhado nos posts anteriores gostaria de deixar mais uma sugestão de livro. Trata-se do Arte para crianças, que eu adquiri durante a FLIT (Feira Literária Internacional do Tocantins).
Estava à procura de livros sobre e arte e me deparei com esse. Ele é tão bonito que não resisti, a capa parece uma moldura. Mas acredito que estar próxima do universo infantil nos últimos meses influenciou a compra J
Muito colorido e cheio de imagens, ele explica tim-tim por tim-tim cada movimento artísticos, alguns artistas e técnicas.


Enquanto isso no país das maravilhas...


“Cortem a cabeça!!!!”


Na nossa ultima mediação (minha e da minha colega) tentamos realizar algo diferente.  Pensamos que talvez, se a gente fizesse uma atividade mais próxima dessa “geração audiovisual” poderíamos obter alguma atenção da criançada.
Então escolhemos dois filmes, que segundo nossa avaliação falava de temas próximos as crianças sem perder a qualidade no conteúdo. Mais do que entreter e sem a intenção de educar, os filmes tocavam em assuntos delicados, a partir do olhar da criança, porém, não eram necessariamente infantis.
Cada medição dura uma hora (o tempo de uma aula). Fazemos duas medições por dia, duas vezes na semana (quinta e sexta). Ou seja, uma mediação no quarto e outra no quinto ano em cada dia.
Para exibir o filme, reservamos duas aulas em cada sala e mediamos apenas um dia com cada turma. Na quinta estivemos com o quinto ano e escolhemos o filme “O ano que meus pais saíram de férias”.
É um filme nacional e conta a história de um menino que é deixado pelos pais na entrada do prédio onde mora o avô, sob a desculpa de que os pais sairão de férias.
Na verdade eles estão fugindo do regime militar e optam por não pôr a vida do filho em risco. Mas ao chegar à porta do apartamento o menino descobre que o avô faleceu. Sem contato com os pais, o menino passa a ser cuidado pelos vizinhos.
O filme se passa num ano em que o Brasil ganhou a copa do mundo. O pequeno protagonista é apaixonado por futebol e assim como a maioria da população na época, inebriado pelo calor da paixão nacional, e devido a idade, não tem dimensão dos problemas políticos e sócias que o país está passando.

Por se tratar de uma turma onde há grande quantidade de meninos inquietos e apaixonados por jogos, nós acreditávamos que a temática futebol seria capaz  de atraí-los.
Só não foi um completo engano porque de fato eles atentavam para as cenas de futebol, mas era só. Em outros momentos do filme eles se mantiveram inquietos.  E ainda reclamaram porque íamos fazê-los perder a aula de educação física.
É importante contar que nós preparamos esse momento com a maior dedicação. Levamos um tapete bem fofinho e enchemos de almofadas. Fizemos pipoca e compramos “refri”, mas nem a nossa sala de cinema foi capaz de conquistá-los L.
Bom, nós ainda tínhamos uma esperança, o quarto ano. Os alunos participam mais da mediação e com o passar do tempo estavam mais envolvidos.
Para eles escolhemos “A menina no país das maravilhas”. O filme aborda uma temática mais densa, mas levamos em consideração o fato de que crianças, sim, tem o direito de lidar com assuntos delicados e nem por isso o filme deixava de ser lúdico.
Trata-se de uma menina que é escolhida para representar Alice numa peça da escola. Porem, ela sofre de um transtorno, onde confunde realidade e ficção. Ela passa a ver os personagens da peça e sua obstinação para ser perfeita faz com ela se auto-flagele.
O filme mostra a dificuldade dos pais em identificarem e reconhecerem o transtorno. A mãe nega o problema e quando finalmente admite, não sabe como ajudar. Mostra também o desespero da própria criança que não sabe como parar.  Mas para mim o personagem mais admirável, é a professora, que diante do problema de Pheobe (a menina), não enxerga problema. Vê a apenas a criança talentosa e criativa que existe além dele.
A professora desde o começo deixa que as crianças coordenem a peça e ensina a elas que apesar de crianças, elas podem fazer coisas sozinhas. Que são indivíduos capazes.
Há também a inserção, com muita naturalidade, de um personagem gay. Trata-se de um menino, amigo de Phoebe que se reconhece, e acima de tudo se respeita com tal, sem a necessidade esconder quem é.
Apesar de tocar em temas delicados (para muitos ainda tabus) o filme mantém o lúdico, presente não só na imaginação da menina, mas nos cenários, nos figurinos da peça e na própria casa de Phoebe, que respira a história, já que a mãe está escrevendo uma tese a respeito.



Achamos que seria muito legal mostrá-lo para crianças menores, mas nossa surpresa foi ainda maior com o quarto ano.
Eles se mantiveram concentrados no começo do filme, mas do meio para o fim, já estavam correndo e pulando nas cadeiras.  Pausamos o filme na tentativa de conversar com eles e reverter a situação, mas no fim optamos por terminar a exibição já que ninguém parecia interessado.
Me senti a própria rainha vermelha. Fiquei com raiva e frustrada por justamente no quarto ano eles terem se “rebelado”. Como eles podiam, com aquele filme tão lindo, tão legal?  Tinha “refri”, pipoca... O que mais eles queriam?
Correr, brincar, não ficar parados. Também ansiavam pela educação física...
Nós ficamos bem chateadas, éramos nós as crianças desapontadas. Eis que surge mais uma vez o desafio da mediação.
Afinal não se trata do que nós queremos e do que nós julgamos bom para eles, mesmo que nossas intenções sejam as melhores, mesmo que planejemos tudo, com tanto cuidado. É o outro que se impõe a nossa vontade e coube a nós respeitá-la. Assim o fizemos. Nosso país das maravilhas se desmanchou e ficamos ali de cabeças cortadas.


Um dos poucos momentos em que o quarto ano se manteve atento ao filme *_*

Livros sugeridos:

COLE, Babette. Dr. Dog.

HETZEL, Graziela Bozano. O lobo.

LOPEZ, Mercé. O menino que comia lagartos.

GOMES, Lenice. A casa das dez furunfunfelhas.

O silêncio que pode virar barulho, se assim desejar




Como eu disse no post anterior, às vezes a gente fica tão concentrado em não deixar que o tumulto tome conta da sala que não conseguimos notar aqueles que não estão no “olho do furacão”.
Por acaso, justamente num dia onde as crianças estavam agitadas (como de costume), mas muito participativas, após realizar várias leituras seguidas, quando fui devolver um livro ao tapete, ergui os olho e percebi um pequenino que lia silenciosamente numa carteira encostada à janela.
Aquilo me chamou a atenção porque nada parecia abalar a sua concentração. Ele estava interessado, mais que isso, envolto por aquela leitura.
Até aquele dia eu ainda não tinha me dado conta da sua presença. Claro, vale lembrar que são muitas crianças e eu estava no meu quinto encontro com elas. Mas pelo menos os rostos eu já conseguia identificar, contudo não me lembrava do dele.
Eu continuei as leituras com outras crianças, mas vez por outra dava aquele “rabo de olho” naquela criatura compenetrada.
Notei que ele lia um livro atrás do outro, num movimento imperceptível a maioria que estava na sala. Não fazia barulho nem quando afastava a carteira e diferente dos outros, não jogava os livros no tapete. Ele soltava levemente. Eu comentei com a minha colega, que não por acaso, também não tinha notado o menino.
No outro dia, as duas olhavam admiradas o ávido leitor. Então depois de algumas leituras realizadas com outras crianças eu me aproximei discretamente e perguntei se ele não gostaria que eu lesse algo para ele ou se ele gostaria de ler pra mim. Ele disse que não, porque já havia lido quase tudo.
Nós costumamos levar 50 títulos a cada medição. Ao todo a turma tem 26 alunos. Recentemente a escola recebeu novos livros, o que aumentou a diversidade. Ou seja, quase não repetimos os títulos. Mas ainda assim não me pareceu estranho que ele já tivesse lido quase tudo.
Não era desculpa para não ler, afinal a gente já tinha comprovado o quanto ele gostava e embora, muito na dele, ele não me pareceu necessariamente um caso de timidez, era só a relação dele com a leitura. Uma relação mais individual que não tinha a necessidade de ser divida naquele momento.
O pensamento que tive foi: “esse silêncio um dia pode virar barulho”. Aquele “carinha” ali, fazendo o dele, sem a necessidade de ser notado, sem a necessidade da nossa intervenção.
Ele não lia para mostrar pra mim ou para minha colega o quanto ele era bom, ou interessado e participativo. E mesmo diante do nosso convite ele não sentiu a necessidade de demonstrar nada. Ele apenas fazia, a sua maneira, silencioso e solitário porque daquilo, me pareceu, ele gostava.
Pode ser que ele siga assim, sem querer notabilidade, sem mesmo querer fazer nada com o que muitos chamariam de “potencial”.  Mas pode ser que ele queira fazer coisas legais.
O importante é que a mediação cumpriu seu papel. Ele sabe que existe a possibilidade de ser notado por essa ação, mas ele também sabe que não tem a obrigação de realizar nada a partir dela. Pode ser ele e o livro, numa relação muito intima, sem compromisso com mais ninguém.



Livros sugeridos:

MACHADO, Maria Clara. O menino que espiava para dentro.

COLE, Babette. Mamãe nunca me contou.

PINTO, Ziraldo Alves. Flicts.

BRENMAN, Ilan. Telefone sem fio.



P.S. : Esses dois últimos títulos estão na “lista top 10” nas turmas onde mediamos J

Passando a bola



O que eu acho mais sutil e delicado na mediação é a construção da confiança. E confiança não é coisa fácil, mas é algo seguro. Confiança também não se constrói do dia pra noite, você tem que provar porque merece.
No quinto ano, nós temos um caso típico de “brigão”. A qualquer sinal de ameaça, ele está pronto em punhos para se defender. Vai constantemente a diretoria e brigar no recreio é de praxe. Fica correndo e mexendo com os outros alunos dentro da sala e está sempre sujo.
Na ultima mediação descobri que ele foi suspenso. Ele mesmo me contou, com um sorriso entre o orgulho e a desconfiança. Mas é ele o motivo de nosso maior orgulho (meu e da minha colega).
Quando percebi que ele era um dos que liderava a bagunça, entendi que não levaríamos a mediação a diante sem aquela força aliada. Ao terminar de ler para uma menina, pedi que as outras que estavam à espera aguardassem um pouco mais e fui conversar com ele.
No momento em que ele me viu indo na sua direção foi se afastando, tipo bicho acuado. Quanto mais eu chegava perto, mais ele se encolhia e se afastava. 
Então eu sentei numa cadeira e desatei a falar: “Espera, só quero conversar com você. Olha, já te disse que não é obrigado a fazer a leitura se não quiser. Se não gosta de ler não tem problema. Você também não é obrigado a ficar na sala. Se tem toda essa liberdade, porque ficar incomodando quem quer participar? Pra mim não é interessante ficar te mandando sentar, gritar com você ou te mandar para direção. O meu interesse é que você venha ler comigo”.
De acordo com o que eu ia falando, em tom baixo, no meio de toda aquela gritaria, o rapazinho foi se desarmando. Os ombros tensos e encolhidos foram ficando mais soltos e abertos, e mesmo com um sorriso irônico de quem pensava: “Ah ta, até parece que ela ta interessada no mais danado da sala” (erra exatamente isso que eu lia no rosto dele), ele ouviu tudo o que eu tinha para dizer.
Mas justamente quando eu pronuncie a frase “venha ler comigo”, fui interrompida por outro arteiro que chegou apontando, rindo e gritando que o outro não sabia ler.
Bem, como você deve imaginar, um afamado “brigão” não ouve isso e fica quieto. Ele foi defender sua “honra” e iniciou-se mais uma briga. Eu intervi e disse que não interessava se ele não sabia ler, ele podia aprender e de qualquer forma nós estávamos ali para ler para quem quisesse.
Ao fim da mediação eu reafirmei minhas palavras e falei que contaria com a ajuda dele na próxima mediação.
Bem, na outra semana, o menino que só ficava na porta, como alguém que almeja a liberdade fora das paredes, mas sabe que será penalizados se o fizer (não por nós, mas pela direção), estava calmamente sentado num canto da sala.
E ao primeiro chamado da minha colega ele não se recusou. Naquele dia ele ouviu varias histórias e não brigou com ninguém.
A sensação que tive foi de pertencer a um time de futebol. A minha parceira fez o gol, mas fui eu quem passou a bola. Portanto o título é nosso.
Aproveitando a metáfora, lembrei que a gente apelidou o menino de Neymar. Ele usa o mesmo topete amarelo-queimado. Eu acho uma dó porque ele tem o rosto lindo, mas o menino fica todo vaidoso quando a gente estabelece a comparação.
Bem, o nosso time ainda precisa de treino. Como eu disse no começo do post, o nosso Neymar levou cartão vermelho. Mas o jogador tem treinado bastante.
Ele continua agitado, mas suas ações estão mais discretas. Nos ouve quando pedimos que pare de bagunçar e sempre participa  da mediação quando convidamos.
Esse time de 26 jogadores do quinto ano e duas treinadoras (a coisa muitas vezes se inverte, rsrs) tem trabalhado arduamente. No jogo da mediação a grande vitória é realmente participar.

Livros sugeridos:

JEFFERS, Oliver. Como pegar uma estrela.

WOOD, Audrey. A casa sonolenta.


PRESCOTT, Simon. Numa noite muito, muito escura.


GOMES, Alexandre de Castro. Condomínio dos monstros.


Mediação, aprendizado para a vida



É bem isso mesmo. A gente se prepara, estuda, lê, ouvi as experiências alheias, acha que ta em ponto de bala. Chega lá e encontra um buraco mais embaixo, rsrs.
Cada encontro é uma nova tentativa. Crianças são imprevisíveis. Quando você acha que a coisa ta adquirindo um ritmo, elas vêm com outro.  É porque crianças, graças a Deus, mesmo que a gente queira, não são automaticamente formatadas. 
Nossa, eu espero que esses relatos não deixem uma impressão (errada) negativa. A minha vontade aqui é mostrar que a proposta do Mediadores é incrível, mas que nem sempre é fácil de por em prática. Que é desafiador a cada encontro e que sim, para mim e para minha colega o caminho parece estar mais suado, pelo que ouço das outras duplas que parecem já terem encontrado uma forma mais tranqüila de conduzir as coisas.
Não acho que seja falta de sintonia. Eu e minha parceria funcionamos bem. Somos interessadas, temos um bom dialogo e sempre estamos abertas a ouvir a proposta uma da outra e pôr em prática juntas.
Sabe, que me perdoem as outras duplas, não estou dizendo que elas estão mentindo, mas essa história de que ta tudo muito lindo, parece aquele depoimentos de revista “feminina”, onde as mulheres relatam orgasmos múltiplos.  Pode até ser que eles existam, mas eu conheço ninguém que teve.
O que eu to dizendo é que cada mediação é única, não tem como prever. E que às vezes a gente tem que recomeçar, explicar tudo de novo.
Também não é um martírio sem fim. Tem coisas que vão sendo naturalizadas e as crianças entendem o funcionamento com o tempo. Mas que é ralação é.
Que nem a vida, todo dia um recomeço. Mesmo que você tenha anotado na sua agenda as atividades daquele dia. Mesmo que todo dia você se dirija ao mesmo trabalho, a mesma escola. Tenha mais ou menos os mesmo horários.
Não da para saber o que vai acontecer. Você não sabe o que seu chefe vai te pedir, como você vai se sair na prova. Não há garantias, mas você não deixa de fazer por isso.
Se parar para pensar a gente mata um leão todo dia e é por isso (na maioria das vezes) que a gente não pensa sobre a respeito. Mas a gente não quer parar de viver e perder um monte de aprendizado porque é difícil. Na mediação é assim também.

Livros sugeridos:

CHILD, Lauren. Eu nunca vou comer um tomate.

COLE, Babette.Fedelho: Manual do proprietário.

PIRILLO,Marília.Bagunça e Arrumação

BLEY, Anette. E o que vem depois de mil?

Será que sou uma boa mãe?



Sabe aquele sentimento que toda mãe diz que sente sobre saber se está ou não fazendo a coisa certa? A gente sente também. Mas, diferente das mães, não são nossos valores que vão contar na hora de lidar com as crianças.
Claro que eu sei que é impossível deixar os valores de lado. É como o mito da neutralidade/ imparcialidade no jornalismo. A gente sabe que são inalcançáveis, mas a gente tenta se aproximar ao máximo.
Na mediação não é o que eu acho apropriado para que as crianças leiam que vale. É o que elas querem ler, o que desperta o interesse de cada um. Por isso é importante a variedade de temas, gêneros.
Livros para adultos também entram em sala. A minha colega costuma separar alguns clássicos da literatura brasileira. Nas turmas que atendemos nunca percebemos crianças lendo esses livros, mas outro dia, na biblioteca, D1 leu algumas páginas para uma menina.
Os sentimentos de impotência e frustração também aparecem. Tem momentos que não sabemos bem o que fazer para acalmar aquelas crianças cheias de energia. A gente até fica em dúvida se tem que acalmar, porque criança saudável (nem todas, claro) dá trabalho.
Nas “nossas turmas”, elas são muito ativas, querem correr, brincar. Nem sempre estão interessadas em dedicar um tempinho (paradas) a leitura. Muitos lêem um ou dois livros e se dão por satisfeitos. A gente entende que essa criança participou sim da mediação. Adulto também é assim. Nem sempre ta com vontade de ler. Ou lê aos poucos.
O problema é que quando elas parecem enfadadas começam a dispersar as outras crianças que muitas vezes estão interessadas na leitura. Mas diante de um convite para chutar, correr, enfim, engrossar o coro da bagunça, sentem-se aptas para abandonar o livro.
Daí a gente se olha e fica claro na nossa cara a interrogação: O que fazer agora?
As crianças não estão habituadas a tanta liberdade. Na escola, da direção a portaria, todo mundo tem direito de gritar com elas. E quando duas moças, desconhecidas chegam à sala dizendo que elas não precisam fazer nenhuma atividade avaliativa e nem são obrigadas a realizarem a atividade, acho que a criança entende que é hora do recreio.
Sabe, às vezes da uma vontade louca de gritar, de ameaçar mandar pra direção, de por pra fora da sala, mas a gente não pode fazer como os professores.
A idéia é atrair essas crianças, ganhar a confiança delas, principalmente das que parecem mais distantes do projeto. Mas confesso que às vezes é muito difícil para duas pessoas acompanharem 28 crianças em sala, sem os “recursos” de um professor.
Por isso o projeto é tão rico e complexo. É realmente desafiador e mexe mesmo com a gente. Questiona nossos valores, nos põe em contato com sentimentos dos quais tentamos sempre fugir.
Põe em cheque o poder de comunicação de uma jornalista, por exemplo. Como estar mais próxima desse “publico”? Como perceber o que eles querem sem ser permissiva? Como falar de igual pra igual sem que eles vejam isso como uma perda de autoridade minha? Sim, por que qualquer profissional da escola está sempre acima deles.
Eu também não imaginei que fosse me sentir tão comprometida e envolvida com as necessidades das crianças. Me da a maior vontade de ouvir um monte de histórias delas. Me da vontade de sentar com cada uma e sabe o que ela quer, mas o tempo é curto.
Tem momentos que nós ficamos tão ocupadas tentando conter a bagunças dos mais arteiros que não conseguimos nos concentrar nos mais interessados. Eles querem essa atenção. Eles acreditam que devem ter por direito, afinal, eles estão fazendo tudo “certinho”.
E o “pior” é que eles são muito legais. A gente ouviu relatos de problemas graves que ocorreram nos outros anos. No nosso caso, as crianças “só” têm muita energia.
Elas são engraçadas, espontâneas e cheias de histórias pra contar. Ok, um ou outro é brigão, mas nada fora da “normalidade”, eu diria.
É mesmo parecido com maternidade algumas vezes. Você ensina, explica, a criança vai lá e faz tudo diferente. Você fica com raiva, tem vontade de chorar, brigar, mas não desiste porque você acredita que aquilo é legal e é importante para ela.
Daí ela vem com a carinha mais lavada do mundo, às vezes suja, molhada, mente na sua face, te adula, te beija, super sínica, sonsa, dissimulada.  Mas você percebe que mesmo que não seja o paraíso que você tinha planejado pra você e pra ela, vale a pena continuar, porque juntas vocês encontrarão um outro caminho que ainda não tinha sido pensado. 



Livros Sugeridos:

Bem já que estabeleci esse laço familiar entre mim e as crianças, a sugestão de livros para hoje fica por conta da autora francesa Babette Cole, que apresenta uma escrita muito divertida e direta no trato de assuntos delicados e em alguns casos considerados tabu.
Não é exatamente o caso desses livros. Eu escolhi esses títulos porque formam uma espécie de série e são bem engraçados. Mas nos próximos posts vocês encontrarão outros títulos da autora, de cunho mais “polêmico” ;)

COLE, Babette. Minha avó é um problema.

COLE, Babette. Meu avó é um problema.

COLE, Babette. Minha mãe é um problema.

COLE, Babette. Meu pai é um problema
.
COLE, Babette. Meu tio é um problema

Mediação, ame-a ou deixe-a!



Bem, como eu disse no post anterior, o trabalho de mediação é realizado em duplas. Eu e minha parceira fomos as últimas a ir para a escola. Já havíamos escutado os relatos mais turbulentos, por assim dizer, dos outros mediadores, mas não deixamos que isso nos influenciasse.
A dupla A, que atende pela manhã havia nos contado que para conhecer os alunos tinha preparado uma dinâmica de apresentação onde cada um dizia seu nome e fazia um gesto referente a si. O restante da turma tinha que repetir o nome e o gesto da pessoa em questão. Exemplo: “Eu sou Gabriela e faço assim (gesto)” e “Ela é Gabriela e faz assim (gesto)”. 
Segundo A1, as crianças representaram os gestos mais impublicáveis, haha. Ela ficou assustada e saiu à procura de novas dinâmicas.
Já a dupla B nos contou que a professora do horário que elas assumiriam, desejou elegantemente “Boa sorte com os demônios”. B1 imperativamente retrucou: “Ta amarrado em nome de Jesus!”. A dupla tem orado pelas crianças.
A dupla C atende na biblioteca móvel, um caminhão carregado de livros que estaciona nas periferias de Palmas. As crianças são convidadas pelos mediadores a virem ler. Podem levar o livro para casa e devolver após 15 dias, quando o caminhão retorna, basta que um responsável assine a autorização.
Segundo C1, uma das crianças interessadas em participar da mediação com a dupla não pode porque a mãe também, elegantemente disse “que o traste tinha que ir pra casa tomar banho e por isso não podia ler”
A dupla D atende no mesmo colégio que eu e a minha parceira, mas em horários alternados. D1 participou do projeto ano passado e já conhecia o funcionamento na sala de aula. Não me lembro de ouvir relato de queixa por parte dela.
Bem, é chegada a nossa vez. Eu e minha parceira nos apresentamos e tentamos explicar quem éramos e o que faríamos. Éramos mediadoras e não professoras. Eles podiam nos chamar pelo nome.
Aquele seria um momento dedicado a leitura e quem não quisesse não seria obrigado a participar. Eles poderiam fazer outras atividades desde que não atrapalhassem a mediação.
Ops! Será que foi aí que a gente errou? Será que a gente deu essa notícia muito cedo? Eu só sei que quando as crianças ouviram isso não nos deixaram mais falar.
Tentamos realizar a mesma dinâmica que a dupla A tinha aplicado, mas foi um fiasco. Eles se dispersaram e começaram a correr pela sala.
Quando colocamos os livros no chão, de acordo com a proposta, só se via livro voando pela sala. Era livro atirado no ar, na cabeça do colega, no chão. Criança correndo, gritando, chutando, brigando, subindo nas mesas, um caos. Minha colega espantada, sussurrou: “eles vão se matar”.
Eu pensei: “Bem, fomos orientadas sobre a possibilidade disso acontecer, não está nada fora do previsto. Acho que isso pode ser normal para o primeiro encontro”. Tendo em vista que eu não sou a pessoa mais calma do mundo, pensar assim ajudou a não me desesperar no primeiro dia. 
Mas na segunda mediação a coisa não foi muito diferente. Essa situação se repetiu nas duas turmas. Nós estávamos tentando seguir a risca as orientações que recebemos durante a formação. Nada de gritar, de impor, de ameaçar, de chantagear, tudo aquilo que era freqüente por parte de quem trabalha nas escolas.
A abordagem dos mediadores deveria ser diferente. Mas como fazê-los entender que ser diferente não dava margem para que eles agissem como quizessem e que aquele horário era para leitura e não aula vaga?
Estávamos um pouco mais preocupadas, mas nos mantivemos firme no pensamento de que com o tempo as coisas iriam melhorar.
Numa reunião, contamos nossas experiências e ouvimos que deveríamos agir com mais firmeza. Deixar bem claro o que se passaria ali. Então lá fomos nós tentar o próximo passo, o combinado.
As crianças mantiveram-se agitadas e a principio acharam que o combinado se tratava de exercer qualquer vontade delas. Saíram coisas do tipo: “Deixar a gente jogar bola dentro da sala”, rsrs
Mas uma das regras que eu achei mais engraçadas foi “Não fazer intriga”. Uma sugestão claramente direcionada a uma menina “informante”. A carapuça parece que serviu, porque ela saiu da sala chorando e dizendo que ia contar a direção quando percebeu que nem eu, nem a minha colega alimentaríamos seu drama pessoal. 
Acho que na direção ninguém deu muita bola também, porque ela voltou com as lágrimas secas e uma carinha desconfiada.
Bom, depois do tumulto e das sugestões mais criativas, nós conseguimos fechar o combinado com as duas turmas.  E saímos de lá com a certeza de que a cada mediação a relação se tornaria mais fácil.

Livros sugeridos:


Para quem se interessou por essas leituras que mesmo sob a classificação infantil, diverte adultos, deixo alguns títulos que já utilizei na escola onde medio. Ao longo dos posts vou sugerindo outros.

BRENMAN, Ilan. Até as princesas soltam pum.

COLE, Babette.Cabelinhos nuns lugares engraçados.

FLEMING, Candace. João esperto leva o presente certo.

LEITE, Márcia. Feminina de menina, masculino de menino

Projeto Mediadores de leitura



O projeto Mediadores de leitura já está na sua quarta edição em Palmas. Atualmente o projeto está sendo desenvolvido em escolas publicas com alunos entre o terceiro e quinto anos, antigos segunda, terceira e quarta séries.
Mas além das escolas, o trabalho de mediação pode ser desenvolvido em diferentes espaços, como ONGs, creches, hospitais, feiras e abranger qualquer faixa etária, inclusive existem trabalhos com bebês ainda na barriga.

Mas afinal o que é mediação de leitura?

A prática, que freqüentemente pode ser confundia com contação de história, consiste em ler para alguém, “pura e simplesmente”, sem utilização de recursos, como bonecos, fantasias ou até mesmo alteração na voz.
Sim, pois a partir do momento em que inserimos tais recursos na história estamos interferindo nela.
O texto por si só já apresenta elementos para que cada um construa sua narrativa. A idéia da mediação é deixar que cada um crie seu próprio universo imaginário.
Já na contação de história esses recursos são permitidos, acompanhados de certa teatralização.
A idéia central da medição é essa, mas a prática não acaba por aí. Envolve ações e situações muito mais ricas e delicadas que explicarei mais adiante.

Como conheci a mediação?

Recebi um e-mail que convidava graduandos nos cursos de Letras, Pedagogia e Comunicação interessados em aplicar o projeto.
Eu não sabia bem do que se tratava, mas resolvi enviar meu currículo. Entre mais de 100 currículos, foram selecionados 30 para participar da formação. Dentre os 30 selecionados apenas 10 iriam efetivar o projeto.

A formação

Durante três dias os candidatos a mediadores estiveram juntos, sob a preparação de um jovem veterano em mediação. Nosso preparador media desde os 14 anos e já viajou por algumas partes do mundo divulgando e conhecendo outras iniciativas.
Ele não só ampliou nossa compreensão a respeito da prática, como nos contou algumas de suas experiências.
Falou sobre a delicadeza de trabalhar na ala dos queimados de um hospital e de como enfrentar o olhar sobre alguém desfigurado; Contou sobre a aprendizagem com crianças de uma escola bilíngue que lhes corrigia às vezes durante a leitura em francês; De uma vez que se expôs ao perigo ao mediar numa favela sem saber que um dos companheiros de mediação era uma figura temida na comunidade. 
Nos “bastidores”, durante um almoço, meu lado jornalístico falou mais alto e aproveitei para perguntar umas “cositas”. Gentilmente, ele foi me envolvendo no seu vasto repertório e me contou algumas das práticas que conheceu mundo a fora.
Uma das que mais gostei foi sobre meninas que penduravam livros entre as vielas de uma favela para que toda comunidade tivesse acesso livremente.  Durante a formação nos contou também sobre meninas, que por vontade própria, se vestiam de fada e se dirigiam a praça para ler para crianças.
                                          
Propostas

Bem, até aqui acho que é impossível ficar indiferente a prática, mas como eu disse a mediação é muito rica e envolve outras nuances que tentarei explicar agora.
A característica que mais me encanta na prática da mediação é o fato da leitura não ser algo imposto.  A mediação consiste em por as crianças em contato com livros sem o fim de formar leitores. Se o gosto pela leitura vai surgir ou não, aí é outra história.
A idéia é fazer com as crianças percebam que a leitura pode ser algo tão prazeroso e lúdico quanto brincar ou praticar algum esporte.  Por isso é recomendável criar um ambiente atrativo e confortável.
Uma sala colorida e com brinquedos, por exemplo, em vez de tomar a atenção da criança, pode mostrar a ela que a leitura está associada a ambientes agradáveis e a outras práticas divertidas.
A criança também não deve ser forçada a terminar uma leitura. Em alguns casos ela pode se cansar ou se entediar como qualquer adulto, por qualquer motivo que seja. Isso não quer dizer que ela não esteja gostando da leitura.
É importante que ela entenda que pode parar e retomar quando sentir vontade.

Escolha de livros

Como eu disse acima, trata-se de um projeto cultural, portanto a única exigência quanto aos livros é que eles sejam literários. No didáticos! No paradidáticos!
Uma exigência que tenta mudar nossa relação com leitura que na maioria das vezes, principalmente nas escolas, está associada à educação.
Quanto aos temas, devem ser os mais variados possíveis. Podem e devem tratar de situações delicadas como sexualidade, dor, perda... A criança tem o direito de ter acesso a essas temáticas e a escolha deve ser dela.
Livros ditos para adultos, mais grossos e sem figuras também podem estar presentes. Em muitos casos a criança vai se enfadar com a leitura de obras mais extensas, mas vai perceber que a leitura delas é possível.
É aí que o mediador intervém e explica que não conseguimos dar conta de leituras mais longas de uma só vez, mas que podemos lê-las por partes.
Um dos critérios que o nosso preparador usou para explicar a escolha de um livro foi qualidade. E o que seria essa qualidade segundo ele?
Livros inteligentes que alcancem a complexidade e compreensão das crianças, sem subestimar seu entendimento e sua capacidade de lidar com as mais variadas situações.

Títulos apresentados durante a formação:

.
COLE, Babette. Mamãe botou um ovo

Nos explica de onde vem os bebês J


SCIESZKA, Jon. A verdadeira histórias dos três porquinhos


Apresenta a versão do Lobo a respeito da história.


LERAY, Marjolaine.Una caperucita roja.

Uma chapeuzinho um tanto astuta, para não dizer psicopata, haha

Ambiente

Como diz o ditado “toda hora é hora, todo lugar é lugar”. A mediação pode ocorrer em qualquer ambiente. Praças, parques, pátios, salas de aula, bibliotecas, inclusive feiras.
Devemos apenas atentar se a condição do lugar é favorável para a prática. Por exemplo, ambientes abertos podem tirar a atenção das crianças. É importante que expliquemos a elas que estamos ali para desenvolver a mediação.
Além disso, temos que ver se não há sol, barulho, se as salas e bibliotecas não estão empoeiradas ou cheias de quinquilharias... O ambiente deve ser sempre agradável.

Acesso ao livro
Outra coisa suuuuuuuper bacana na mediação é forma como os livros são dispostos. Durante uma mediação, obrigatoriamente, há que se ter pelo menos um livro para cada pessoa. Esses livros são colocados no chão para que a criança tenha acesso direto.
 Acho isso genial! Acaba com aquela bobagem de achar que livro é um objeto intocável, e de ter ficar cheia de dedos com algo sagrado. Fica parecendo brinquedo que a gente não brinca para não estragar. Livro é para ser usado e o uso causa desgaste.
Através dessa postura com o livro, a mediação acaba “invadindo” a dinâmica das bibliotecas que em muitas escolas permanecem repletas de livros nas estantes. Livros que ficam apenas lá, sob a desculpa de que os alunos estragariam o material. Muitas bibliotecas ficam fechadas para que a segurança do livro seja garantida.
Sem falar na burocracia para conseguir pegar um emprestado. Não devia ser de se estranhar que os alunos não incursionem visitas as bibliotecas.
Outro olhar sobre a biblioteca que a mediação nos propõe é entender que num mundo cada vez mais comunicativo espaços com absoluto silêncio são questionáveis.  A biblioteca “sem dar um pio” está saindo de moda. Yes!.

Combinado

Trata-se de um acordo que realizamos com os alunos logo no contato inicial. São regras que devem ser propostas pelas próprias crianças e discutidas entre nós mediadores e elas.
Diz respeito sobre o que eles acham necessário para que a mediação funcione. Coisas que podem e não podem acontecer. Mas isso não significa que aceitamos tudo que é proposto. Nós ponderamos o que é ou não viável.
Coisas do tipo: “não pode rasgar o livro”, “não pode usar o livro para bater no colega”, “respeitar o momento de leitura do outro”... (Acredite, essas coisas acontecem).
Depois de tudo acordado, cada vez que uma criança “infringe uma regra”, não a punimos, mas lembramos do que foi combinado. As próprias crianças se encarregam disso porque se trata de algo que foi conversado e proposto por elas mesmas.

Trabalho em equipe

Cada turma conta com dois mediadores, duas vezes por semana, em dias intercalados preferencialmente. Os mediadores podem ler para crianças ou ouvir a leitura delas. As crianças também podem ler umas para as outras ou ler sozinhas.
Nos dias em que não estiverem nas escolas os mediadores desenvolvem atividades de planejamento, fazem relatórios sobre a mediação e trocam experiência.

Etapas do projeto

O projeto está dividido em três etapas. A primeira é a formação de mediadores, a segunda a aplicação da mediação nas escolas e a terceira o concurso de Causos e poesias.
As crianças que mais se destacarem na mediação participarão de uma apresentação na sua própria escola, onde integrantes do corpo docente e da organização que promove o projeto vão eleger um aluno para participar do concurso.

Porque eu acredito na mediação?

Eu acredito porque a mediação em primeiro lugar respeita o espaço do outro. Enquanto mediadores devemos tentar atrair as crianças de todas as maneiras, principalmente aquelas que se mostram mais afastadas, mas nunca devemos impor. 
Além disso, não se trata de mais um prática educativa, trata-se de olhar de outra forma para a leitura. É pelo gosto de ler.
Não vem imbuído daquele discurso, muitas vezes chato, de que a leitura é o caminho. A leitura é sim um dos caminhos, mas não é o único.
Não necessariamente crianças que tiveram contato com livro cedo se tornarão amantes da leitura e muito menos aquelas que nunca tiveram contato estarão fadadas a não gostar.
A idéia é que todas tenham acesso para que esse não seja o motivo de estarem à margem da prática, mas que também tenham o direito de gostar ou desgostar disso. Que tenham o direito de escolher sobre o que querem ler. Que tenham o direito de não ler. De achar que jogar bola ou vídeo game é mais legal.  De achar livros enfadonhos ou de se maravilhar com eles, mas que isso possa ser resultado de uma escolha e não de uma privação.

Desfecho em aberto

Bem, depois de conhecermos alguns aspectos da mediação, nós, aspirantes a medidores, ainda passamos por uma prova escrita e uma entrevista em grupo até chegarmos ao time atual.
Eu, orgulhosamente faço parte dele, e tentarei em outros posts explicar a complexidade, a sutileza, a delicadeza, a sensibilidade, a diversidade, enfim, a riqueza que envolve essa prática, que para além de ações, inclui infinitas e detalhadas situações com pessoas reais, não apenas uma massa de alunos. Indivíduos que são “infinitos particulares”, como diria Marisa Monte.  Ao contar histórias literárias para crianças na escola, eu poderei contar algumas histórias reais no meu blog. Até a próxima mediação!