King of Anything

"Who cares if you disagree?
You are not me
Who made you king of anything?
So you dare tell me who to be?
Who died and made you king of anything?"


O guarda-roupa que há em nós



Quando eu estou muito agitada, achando que tudo na minha vida ta uma bagunça, eu arrumo o meu guarda-roupa, e essa tática sempre funciona para me tranqüilizar. Bem, você com certeza conhece alguém que também faz isso. Eu já conversei com alguns amigos que partilham desse hábito.
Então hoje vou usar a metáfora do guarda –roupa para entender o meu caos.
Separar roupas por cores, em cabides e depois partir para gavetas, dobrar, enrolar,organizar caixas por tamanhos e dividir as coisas dentro das caixas, meticulosamente, passo a passo, do geral para o particular, maior para menor... me dá um sensação tão grande de paz e ordem, porque são coisas que dificilmente eu consigo fazer com a minha vida. 
Eu sinto extrema necessidade de ordem a minha volta porque eu sou um caos ambulante. Eu preciso de tudo no lugar externamente porque internamente está tudo muito bagunçado. Quando eu arrumo uma gaveta, um cabide, uma caixa, quando ponho cada coisa em seu lugar é como se estivesse organizando a minha vida. Eu fico realmente aliviada, é extremamente relaxante.  
Eu sou uma pessoa que analisa muito tudo, que às vezes foca muito no detalhe. Sou capaz de me manter fixa numa idéia por dias, com pensamento latente em cada segundo sem conseguir desviar atenção. Infelizmente a minha capacidade de focar o problema me impede de olhar as coisas a minha volta, o mundo que é maior que eu. Eu parto do particular para o mundo, isso quando consigo sair dele.
Com o guarda roupa é o contrário. Eu venho do geral para o particular, tentando arrumar primeiro o que está mais incômodo visualmente e depois vou ajeitando as coisinhas menores, aquilo que está bem guardadinho e ninguém vê, só eu. 
Já tinha uns dias que a porta do meu guarda roupa ameaçava cair. Começou com um parafuso a menos. Eu deixei, andava meio sem tempo para arrumar e afinal era só um parafuso, poderia arrumar isso a qualquer hora. Ok.
Ok uma pinóia! Eu não rosquiei aquele parafuso, mas toda vez que abria o guarda-roupa me lembrava da necessidade de fazer isso. A idéia ficava martelando mas eu não resolvia. Com o passar dos dias o parafuso começou a fazer falta e a porta foi pendendo para o lado, mas eu continuava sem tempo...
Então a parte de cima ficou totalmente solta e a porta só se mantinha presa porque restava a dobradiça inferior. Mas quatro parafusos e uma dobradiça não são suficientes para manter uma porta de pé, que abre toda hora.
É a porta mais badalada do meu guarda-roupa. É como se eu guardasse tudo do lado direito. Mesmo apoiada na porta lateral eu sabia que uma hora ela viria a baixo e foi o que aconteceu ontem. Sim, ela caiu e agora está encostada na janela do meu quarto.
A porta só chegou a esse estado porque, em primeiro lugar, tinha uma mala em cima do guarda-roupa fazendo peso sobre ela. Os parafusos foram se soltando e eu deixei, sob a desculpa da falta de tempo. Até que uma hora ela não suportou o peso e caiu.
Acho que somos todos meio assim, guarda-roupas. A gente só consegue lidar com caos lá fora se estiver tudo OK por dentro.  Por isso é necessário manter as coisas em ordem internamente. É importante deixar arrumado mesmo e principalmente aqueles detalhes que quase ninguém vê.  Se a gente ignora a bagunça e os parafusos que vão se soltando dia-a-dia, gradativamente, uma hora a porta não se segura mais.
Todos os dias eu encontro parafusos soltos pela minha casa e raramente sei de onde eles se soltaram. Eu recolho e guardo na esperança de um dia descobrir de onde vieram. Mas tenho a impressão de que qualquer dia tudo virá a baixo.
Enquanto isso vou tentando manter tudo em ordem, pelo menos a minha volta, para compensar meus parafusos a menos. Quem sabe uma hora eu consigo colocá-los no seu devido lugar e a bagunça será a menor das minhas preocupações.

Fragmentos de memória




Lembro-me de você tirando a camiseta calmamente para se deitar ao meu lado. Você já tinha notado que eu estava chateada, mas não insistiu em confirmar, depois da minha negação.
Você falou comigo em inglês e só depois se deu conta. Justificou-se dizendo que já nem percebia quando falava inglês ou português e eu fiquei pensando que você me confundia com ela.
Você estava um pouco alto e se aproximou de mim como quem nem quer saber se fez algo de errado. E fui te deixando chegar, sem querer resistir.  Eu não queria saber, eu nem sabia o que pensar. Eu deixei que você me tomasse e dormi contrariada.
Acordei pendendo para deixar a discussão para outra hora, até que me perguntou se você era meu, como quem afirma. Eu te devolvi a pergunta.
Você disse que sim, meio desconfiado, depois de ver minha cara acusadora.
Deitada sobre você, com os olhos nos seus, eu fui jogando as perguntas que te deixaram sem saída. Você tentou se esquivar, mas eu blefei. Eu acertei.
Com um autocontrole e um cinismo que eu desconhecia, fui te interpelando calmamente e você foi devolvendo sem muita chance de escapar. Por fim você já não tinha intenção de mentir.
A cada resposta sincera eu sentia mais necessidade dos detalhes. Longe de ser um comportamento autodestrutivo era a nossa chance de salvação. Nos levantamos para comer e enquanto você cozinhava eu continuei a desafiar  nossa coragem com outras perguntas. Na mesa sentamos um em cada ponta, de frente para o outro, prontos para seguir com o interrogatório. Foi quando o almoço me pareceu indigesto e eu pedi para que me levasse para casa.