Moro nas memórias de um lugar que não vivi


“Se faltar a paz Minas Gerais”
(Três Dias, Marcelo Camelo)


Sabe aquele sentimento de “não sei que”, que vem não sei de onde, que eu já confessei ter pela Espanha?
Pois então, a nível nacional eu tenho isso pelo estado de Minas Gerais. Acho que se pudesse escolher um estado para renascer, seria esse. Assim como se me propusessem uma segunda nacionalidade seria a espanhola. Mas nesse caso, seria segunda mesmo, porque eu adoro ser brasileira.
Só que no caso de Minas eu tenho minhas desconfianças de onde pode ter surgido essa paixão. Vale ressaltar que eu nunca botei meus pezinhos em nenhum cantinho desse lugar. Mas eu fui construindo minha Minas Gerais, ao longo dos meus 23 anos, a partir de todas as referências que recebi de pessoas queridas.
Em primeiríssimo lugar, vem a minha mãe que nasceu numa “cidadezinhazinha”, tão “zinha” que eu nem lembro o nome. Só sei que fica perto de Corinto (que acho que tão bem não é muito grande). Eu sempre amei as comidas da minha mãe e quem me conhece sabe o prazer que tenho em sentar a mesa.
Feijão tropeiro, canjica, queijo, doce de leite... tudo que envolve milho, queijo e doce é adorado pelo meu paladar.  E minha primeira construção a respeito desse estado, foi gastronômica. Minas me parece isso, um lugar de comida caseira, gostosa. Me lembra doce de compota, sei lá porquê.
Quando eu era criança ficava imaginando tabuleiros cheios de doces, doces e frutas em compotas. E muitos amendoins. Ah como eu gosto de amendoins... paçoca, pé-de- moleque. Eu não sei se todas essas receitas são mineiras, mas eu associava.
Depois, já maior, tive a oportunidade de fazer amizade com uma família mineira queridíssima até hoje. Conheci a Vanessa durante o cursinho pré- vestibular e passei a frequentar a casa dela.  Daí a Vanessa me veio com suas histórias de reuniões em família, família grande, toda reunida no interior. Me contou das festas e dos carnavais com homens bonitos. Aí acabou, mexeu com meus pontos fracos.


Muitas das nossas conversas ocorriam na casa dela, onde a sua mãe recebia a gente (a mim e outras amiga) sempre cheia de alegria e de conversa. Daí eu lembrava de novo da minha mãe, e de como ela gosta de contar história. Bem do jeitinho mineiro que eu imaginava. Daquele jeito, “entra, senta um pouco, vamos tomar um café...”
Ah e tem o café, café passado no coador, bem pertencente ao meu imaginário. Café que a minha mãe prepara assim até hoje e que eu reproduzo todos os dias porque adoro.
Depois que mudei para Palmas para fazer a faculdade conheci outros tantos mineiros, vindo principalmente de Paracatu, em função da “proximidade”.
No intercâmbio a lista só cresceu. Lilian, Tamara (na foto ao lado,da esquerda para direita) e Thalita, as mineirinhas de BH. Como esquecer do “minha Nossa Senhora” da Tamara e da alegria contagiante da Lilian (minhas vizinhas de quarto na residência St Tecla)? E da parceria com a Thalita em busca do chico espanhol?
Ainda teve o Thiago, contanto sobre as baladas bombantes em BH. Pensei nos barzinhos, nas rodas de vilão...
Durante o Andanças, festival de danças que ocorre anualmente em Carvalhais, Portugal, conheci o Wagner. E dançamos, o que, o que? Forró, muito forró, e um pouco de samba de gafieira e chorinho.  E quem me conhece sabe o quanto eu adoro arrastar um chinelo...
Então eu conheci e adicionei mais informações ao meu estado. Estado de gente boa, gente alegre, gente receptiva. De música e de dança que eu considero de qualidade.
E o que falar das cidades históricas? Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes...Então entra em cena o meu fascínio por História e Cultura.
Sabe, eu tenho vontade de morar em muitos lugares e/ou de conhecer outras partes do mundo. Algum lugar na Suíça e na Bélgica, para comer chocolate; um pedaço do México; Buenos Aires...
Eu gosto da idéia de rodar pelo mundo, mas gosto muito de ter para onde voltar. De poder ir e vir. De ser andante, mas ter onde me fixar em algum momento. E quando penso nesse ponto de partida e de chegada, Minas Gerais me parece o lugar. Também pudera né, depois de tantos pontos positivos.
Claro que estou lidando com pura idealização. Fiz minha construção a partir das experiências dos outros e da minha relação com esses outros. Assim como muitos desses lugares que gostaria de conhecer. Me encantei com um ou alguns elementos da cultura e construir meus lugares.
Foi assim com a Espanha. Me fascinei primeiro com língua e depois fui conhecendo o país pelas páginas do livro da aula de espanhol. Tive a chance de conhecer algumas cidades e não me decepcionei com nenhuma e nem com as pessoas. Algo me diz que com Minas pode acontecer o mesmo.
Outro dia conversando com a Sheila, que viveu muitos anos lá, ela me contou como estado parece um mini Brasil, no sentido de que ele muda completamente de região para região.  Imagina como isso é fascinante.  Quantas construções de sentido ainda serão possíveis?
Sim, pode ser tudo diferente, provavelmente vai ser, porque eu vou lidar com o real e vou fazer novas construções, vou adquirir outros sentidos. Mas to querendo pagar pra ver.
Construí meu lar nas memórias de um lugar que não vivi. Mas um dia eu chego lá para fixar casa, na esperança de tornar Minas o meu porto. 



Desconecte-se para se conectar




Eu e a tecnologia nunca fomos grandes chegadas. Acredito que meu pouco interesse fez com ela me odiasse. Vivemos uma relação um tanto conflitante, mas temos sobrevivido apesar dos pesares.
É comum, por exemplo, a impressora engolir o papel de forma tão esdrúxula que só desmontando-a para retirar a folha. É comum também o notebook desligar quando bem entende. É , meus aparelhos têm vida própria.
Meu penúltimo celular ficava com a tela branca toda vez que eu precisava digitar uma mensagem. Eu tinha que fazer altas manobras pra conseguir responde-las.
Por outro lado, por não ser aficionada, não me desespero com últimos modelos no mercado. Eu estabeleço uma relação mais duradoura com meus aparelhos. Claro, até onde a indústria do descartável permite sua validade.
Meu penúltimo celular só se tornou penúltimo porque depois de dois anos, algumas quedas e sinais constantes de um possível falecimento nos últimos meses, ele resolveu finalmente desencarnar. Um belo dia ela não ligou mais.
A Maiara (amiga) até me perguntou se eu não tinha um outro velhinho pra poder ir usando enquanto um novo não chegava. Mas como eu tenho essa relação de usabilidade até as últimas consequências, você pode imaginar em que estado se encontram os celulares anteriores.
A minha relação com a tecnologia está mais ligada a funcionalidade. Meu celular mesmo funciona basicamente como relógio e despertador. Esporadicamente utilizo para ligações e mensagens. Quase nunca uso a infinita quantidade de recursos que essas maquinazinhas disponibilizam. Quando tenho que escolher um novo modelo sempre consulto meu irmão. Digo o que preciso e deixo a cargo dele a parte do design.
Eu reconheço a importância da tecnologia na atualidade e sei que não seria possível realizar tantas atividades sem sua presença. Além do precioso tempo que suprimimos em busca de mais tempo (que nunca temos), ela possibilita a apreciada comodidade.
Sim, sim, eu usufruo de todos os benefícios da vida moderna mesmo sendo um pouco arcaica em alguns aspectos. 
E bem diferente do que pode parecer, eu não desprezo a tecnologia, mas pelas declarações anteriores já deu para perceber que sou meio desligada. Eu não sou muito visual e algumas coisas a minha volta passam meio despercebidas.
Por isso também eu tento usar esses recursos tecnológicos apenas quando necessários.
Raramente levo notebook para a aula e nunca uso fones. Eu sou meio “anti-fone”, embora entenda as pessoas que defendem o uso deles em coletivos para aqueles mais sem noção que acham que todos devem apreciar sua escolha musical. Entendo também aquelas que no trânsito não querem ouvir barulho de buzina.
Enfim, entendo os que se recolhem do caos do mundo durante alguns momentos do seu dia. Mas para mim o problema de estar sempre conectado é justamente esse, a gente se retira do mundo. A gente se desliga. Imagina o efeito disso sobre uma pessoa como eu que já não é atenta.
Nunca uso fones durante minhas caminhadas na praça ou no ônibus, justamente porque quero perceber o que está acontecendo a minha volta. Quero ouvir o barulho dos carros, das pessoas. Na aula quero estar atenta ao que o professor diz.
Quero ouvir o mundo a minha volta. Algumas pessoas nem olham mais para você durante uma conversa porque estão concentradas em responder mensagens via celular, computador... ou envoltos na vida que acontece on-line. Porque sim, a vida também acontece nas redes e não podemos ignorar esse fenômeno e nem condená-lo. Eu, como estudante de jornalismo, reconheço essa nova maneira de se comunicar.
O que não podemos esquecer é da vida que acontece fora, o contato direito, face- a- face. De olhar para pessoa enquanto estamos conversando e tentar manter atenção sem ficar a cada segundo checando o celular.
O mundo mudou e a nossa forma de se relacionar com ele também. Como disse, não ignoro o fenômeno e nem sou contra. Não estou com isso querendo pregar nenhum movimento anti-tecnologia. Só não sou muito a favor desse excesso.
Eu volto aquela idéia de que o mundo me parece auto-regulável e que lá na frente vamos encontrar uma forma mais equilibrada de nos relacionarmos com a tecnologia.

Outro dia eu vi uma entrevista da Alessandra Negrini (atriz) no programa Estrelas e ela falava da nossa relação com o tempo e de como estamos sempre ocupados pela necessidade (assim acreditamos) de fazer muitas coisas. E como nossa relação com o tempo está relacionada a tecnologia, a informação cabe aqui.
Ela mencionou a existência de um movimento chamado “Nadismo”. A idéia é não fazer nada mesmo. Ela acredita que isso vai ser um grande artigo de luxo no futuro. As pessoas vão se refugiar em lugares que se aproximem de uma vida mais simples.
Poderíamos interpretar como uma releitura do Arcadismo? Porque na hora me lembrei de "locus amoenus" (lugar agradável), "fugere urbem” (fugir da cidade) Inutilia truncat (cortar o inútil).  Enfim, um retorno a vida bucólica.


E a idéia não me parece absurda e muito menos distante. Essa semana mesmo vi no Bom dia Brasil uma notícia que mostrava que em função da crise muitos portugueses estão voltando para o campo.


Durante a minha temporada em Portugal, foi justamente a sensação de vida mais simples e sem pressa que tive.
Claro que no Brasil estamos passando por outro processo. Estamos em franco crescimento, os aparelhos tecnológicos estão mais acessíveis e por isso estamos consumindo mais.  Mas enquanto não chegamos ao que eu considero equilíbrio, vou tentando ajustar minha convivência com a presença da tecnologia sem torná-la onipresente. 

A beleza que se tem


Mundo velho
E decadente mundo
Ainda não aprendeu
A admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro
Puro do engano
Da imperfeição...

(Salão de Beleza,  Zeca Baleiro)



Outro dia eu vi duas matérias antitéticas na internet que me chamaram a atenção por motivos diferentes, claro, mas que tinham um tema em comum, a beleza.

A que eu vi primeiramente era sobre algumas famosas que estavam divulgando fotos sem maquiagem. Uma delas era a espalhafatosa Lady Gaga. Muito provavelmente a intenção era chamar a atenção pela contradição. Uma figura que conhecemos desde sempre montada, aparece de “cara limpa”.  Juro que revirei a minha memória e os sites que costumo acessar tentando encontrar essa matéria, mas não achei.

Frida?

O que essa matéria tinha de diferente para mim em relação a de tantos outros sites que divulgaram a mesma foto é que ela atentava para um possível novo padrão estético.
É claro que pode se tratar de uma estratégia de autopromoção que desencadearia só mais um modismo, (na matéria apareciam outras famosas sem maquiagem que também se auto fotografaram e publicaram na rede) mas bem que eu gostaria que essa moda pegasse.
As famosas através dessas fotos sugerem ser pessoas normais. Mas a partir dessa matéria eu interpretei as fotos como um novo modo se portar em relação ao que é belo. A mim agradou muito a idéia do natural, sem maquiagem ou com pouca maquiagem.
Gosto muito de maquiagem. Durante o dia costumo usar corretivo, pó, rímel incolor e um batom, que pra mim é indispensável. Quando vou sair carrego mais. Mas entendo maquiagem, assim como outros recursos de acessória a beleza, como algo complementar.
Gosto da idéia do recurso que só realça nossas características, que favorece aquilo que já temos de belo. Não sou muito adepta do invasivo.
Sou a favor de mudarmos coisas que nos causam incomodo e que muitas vezes interferem até na forma como a gente se relaciona e se posiciona na vida. Mas nada que nos descaracterize.
A outra matéria que também bombou na net e que é justamente o oposto a idéia de naturalidade. É sobre a jovem aspirante a Barbie.( http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=24334&fb_source=message) Não consigo achar isso bonito. É tamanha a semelhança que a menina parece de plástico.
aspirante a Barbie girl

A cara de paisagem me deu aflição e me lembrou aqueles bonecos de cera, do Madame Tussaud . Aliás, essa beleza muito perfeitinha nunca me chamou muito atenção, eu acho sem graça, sem vida.
Mas o que me parece mais preocupante é esse encantamento por algo que não é real. O artificialismo como referência de beleza.
Poxa, eu sou filha da Elza que nunca fez dieta, nunca se preocupou com celulite e estria e só pintou o cabelo ao 50 anos. E que segundo meu irmão, ela está reconsiderando a hipótese de deixá-lo branco. A minha mãe sempre foi muito bem resolvida em relação à imagem dela. O que não quer dizer que ela não tenha vaidade.
A minha vaidade não é tão minimalista, mas eu aprendi com a minha mãe a achar bonito o que é nosso. Aprendi a ver beleza na idade que se tem. Vejo minha mãe envelhecendo sem neura e acho super legal as mulheres que assumem a beleza que os anos trazem. Que envelhecem assumindo a idade que tem.
Tenho resistência com perfis como Gretchen e Suzana Vieira. Acho legal se cuidar e querer estar bem independente da idade. Mas forçar um rejuvenescimento vai ser sempre algo for-ço-so.
Bem, talvez quando eu chegar na idade delas eu não pense a mesma coisa. Reconheço a pressão que a nossa sociedade coloca em relação a beleza feminina. Somos uma sociedade que valoriza a juventude e um país que vende mulheres nuas. Todos crescemos com as bundas nas tardes de domingo. O que seriam nossos carnavais sem a Globeleza?  Mas gosto de pensar que o mundo se autoregula. Sempre que pendemos muito para um lado, em seguida tentamos equilibrar.
Vivemos o momento do artificial, e uma hora vamos cansar de tentar ser o que não somos. Acredito que tão logo nos veremos valorizando aquilo que já vem pronto: nós, tal e qual nascemos, ou pelo menos sem incessantes interferências. 


Sobre naturalidade ainda, deixo aqui a declaração da fotografa Gabriela Mo que fez as fotos de Ana Carolina Prado, capa de Abril da revista Trip.


Ana Carolina Prado


" Como mulher, quero ver mulheres de verdade, e não inatingíveis. Quero ver pessoas parecidas comigo e com as minhas amigas – até porque somos bem atraentes também... E, em alguns casos (na maioria, na minha opinião), acho até que somos mais bonitas do que essas que se transformam completamente, se tornando algo que não são."

"Emotions pass like summer stormes"



Esse vídeo é totalmente real pra mim, me identifico com inúmeros momentos. Principalmente com a parte de falar só.
Ontem mesmo quando voltava da minha caminhada estava fabulando a minha vida. Pensava em voz alta e gesticulava, quando me dei conta que um rapaz na porta de uma loja me olhava. Foi inevitável lembrar desse vídeo. Contive meus atos no momento e dei boas risadas quando cheguei em casa.
Para você que também faz parte do bloco do "Eu sozinho", não se sinta um alien, como diria minha querida amiga Maira Muniz. Existem muitos de nós mundo a fora.

Her morning elegance

"And she fights for her life
as she goes in a store
with a thought she has caught
by a thread
she pays for the bread
and she goes…
Nobody knows"



h

Sobre dor

“Tire seu sorrido do meu caminho que eu quero passar com a minha dor”

(A flor e o espinho




“..por isso eu não consigo ser objetiva...
Eu busco coisas que preencham o meu vazio. Eu não sei se você consegue entender isso.
Eu sou uma pessoa angustiada. A minha busca na vida é interna, por isso a minha dificuldade em lidar com cosas externas, praticidades do dia -a -dia.
Por isso eu me perco nas minhas escolhas e me sinto mal por não conseguir fazer como as outras pessoas. Isso me dá medo e me faz sentir culpada por não saber lidar com as coisas...”

“Eu não sei. Na segunda eu acordei assim. Foi um dia horrível. Eu me senti totalmente ausente e apática. Não consegui me envolver com a aula. Senti dor de cabeça e muita vontade de vomitar .
Eu me sinto totalmente desorientada em alguns momentos. Sinto-me uma pessoa perdida na vida.
Sabe, eu só me esqueço disso algumas vezes, mas o sentimento é latente.  Eu não sei como lidar com essa angustia por isso me envolvi com essas outras atividades, na busca por saciar o meu vazio. Mas me sinto culpada por não conseguir me focar nas coisas que eu preciso.
Sinto-me sempre atrasada na vida, como se esse passasse a vida toda tentando compensar alguma coisa, compensar as coisas que eu não fiz antes. Não consigo me manter no presente e por isso o futuro me assusta.
Eu tenho sentimento que são fatais: culpa, comparação e necessidade de compensação e aprovação. As minhas escolhas são movidas pela tentativa de superar isso, mas eu destorço as coisas muitas vezes.
Eu converso com você porque acho que a mãe e o pai não entenderiam o que eu sinto. Acho que nem você entende, mas pelo menos é receptivo.”


Outro dia eu contava a Anna sobre a minha capacidade de esquecer onde deixo as coisas. Como eu sempre perdia meu celular no quarto e pedia a Maiara que me ligasse para encontrá-lo. Mas como ele estava sempre no silencioso era impossível achar pelo barulho.  Como eu também era capaz de perder a chave da porta no quarto , até que um dia eu a perdi de verdade. Contei a ela ainda sobre como eu não tenho qualquer senso de direção e de como só acertei o endereço da Maiara na quarta vez que a visitei.
Então ela naturalmente me perguntou: Gabi não há um curso para isso?
Respondi: Só se houver um curso que ajude as pessoas a se encontrarem na vida.
É assim que me sinto muitas vezes. Uma pessoa perdida na vida que não sabe exatamente por que faz determinadas escolhas. E isso me causa uma tristeza profunda. Um desespero. 
Eu não sei se a maioria das pessoas sabe o que é conviver com a angustia. Espero que não, porque é algo sufocante. Muitas vezes é como me sinto. Como se estivesse tentando respirar em meio a fumaça ou como se tentasse incessante emergir. É isso, a sensação de afogamento da qual eu nunca provei em realidade.
Às vezes me falta o ar de verdade e meu corpo reage instantaneamente. Quando o choro não vem (é sempre a melhor opção, pois me sinto aliviada, como se as lágrimas lavassem mesmo a alma) sinto-me mesmo enjoada, como quem precisasse vomitar toda essa podridão emocional.  Ou então o peito dói oprimido por um coração carregado. A cabeça pesa, pois nunca descansa.
Sério, ela nunca para, nunca fica em silêncio. Às vezes mentalmente grito para mim mesma que ela se cale porque preciso dormir ou porque simplesmente não quero mais pensar. Pois minha mente já esta desgastada de tanto insistir no mesmo pensamento. Como repetidas marteladas na cabeça. Um pensamento cíclico.
Você é capaz de imaginar isso? Muitas vezes acho que beiro mesmo a loucura.
Lembro-me de mesmo quando criança sofrer com incessantes pensamentos sem que meus pais pudessem entender e, portanto me ajudar. Era desesperador.  Eu me sentia terrivelmente mal por ser uma criança problemática.
Isso me fez pensar sobre a minha incapacidade de lidar com a dor que também pode ser a sua. Às vezes ela é realmente tão grande, tão real dentro da gente que pode mesmo ser enlouquecedora.
Depois que voltei ao Brasil, eu e outros companheiros de intercambio ficamos chocados com a noticia da morte de uma brasileira que havia continuado em Portugal. As reais causas eu nunca soube, mas especulava-se um surto psicótico.  Eu lembro de ter ficado muito tocada por isso porque me fez pensar imediatamente sobre as dores nossas de cada dia. As dores que nos recusamos a sentir, a tratar, a cuidar. Os fantasmas que não enfrentamos e que passam a vida toda nos assombrando.
O caso dessa moça surpreendeu a todos porque ela estava quase sempre muito eufórica. Rindo e bebendo em quase todas as festas onde a encontrávamos.  Talvez estivesse aí mesmo o sinal do seu desespero.
 A gente não percebia esse riso nervoso, essa alegria desmedia que ao mesmo tempo que tentava esconder a dor, a denunciava.
Fiquei pensando no tamanho dessa dor que a deixou incapaz de sorrir para vida, de sorrir de verdade, de querer sorrir.
Não sei se quem desconhece essa sensação é capaz de ter dimensão disso.
Esse texto não tem qualquer pretensão de analisar ou julgar qualquer comportamento. Ele é realmente só a necessidade de expor a aflição. De externar aqui o que amarga por dentro e de tentar de alguma forma tratar isso.
A dor pertence a cada um dia nós, mas alguns, como eu, encontram mais dificuldade de lidar com ela. Por isso é tão necessário tocá-la. Entenda bem, tocá-la e não alimentada-la. É preciso mesmo meter o dedo na ferida.
Eu tenho lá, sérias dúvidas se é possível deixar de sentir assim, mas tenho certeza que é vital tentar atenuar a sensação.

Despertar


Durante muito tempo da minha vida eu acreditei que Felicidade era um objeto palpável que a gente atingia depois de cumprir algumas metas. Ok, talvez tenha um pouco disso. Porque Felicidade é algo muito abstrato e individual. Mas eu buscava uma coisa pronta que eu encontraria num lugar e num momento pré-definido pela minha cartilha de vida.
A vida em linha reta, com dia e hora marcados para cada coisa. Esse foi meu modus operandi durante muito tempo.
O que mudou?
Muito!
Eu sempre falo da minha vivência em intercâmbio e acredito que ainda falarei muitas vezes porque a experiência foi realmente transformadora para mim, numa dimensão que eu ainda não consigo compreender.
Aos poucos, lenta e intensivamente, eu vou tentando assimilar tudo que aconteceu.  Tem horas que eu me sinto até meio zonza. Eu perco a noção “do que era real dentro daquela realidade” e quanto daquele sonho eu posso trazer para minha vida aqui.
O fato é que desde que voltei eu tenho passado por alguns momentos de crise (ah jura Gabriela?!). É, acho que se não me chamasse Gabriela, meu nome seria Crise. 
Mas porque a crise dessa vez?
Porque eu entrei em contato com um universo completamente diferente do meu, no qual eu me identifiquei e fiquei absorta. Eu me entreguei de forma inconseqüente e necessária. Era como materializar todas as minhas ânsias.
Eu imagino que isso aconteça com muitas pessoas que vivem essa experiência. Mas para mim foi significativo não só pelo estilo permissivo de levar a vida.
Quando me refiro ao universo não me restrinjo ao lugar, mas estendo as ligações estabelecidas com pessoas e as experiências vividas com elas. Um mergulhar nesses diferentes mundos que cada pessoa é.
O estilo de vida europeu permite aos indivíduos coisas vitais para o ser humano. Mas diante da quantidade de problemas que enfrentamos em nosso país, essas necessidades são vistas como supérfluo.
Não me refiro a coisas materiais necessariamente, embora o fato dos europeus não terem que se preocupar tanto em como conseguir isso influencie na possibilidade de buscar outras coisas. (Talvez a crise econômica mude isso) Mas me deixe ser mais clara.
Os europeus atingiram um nível de vida confortável. Aquilo que se convencionou chamar “qualidade de vida”, que a meu ver é o que deveria ser a própria vida (como disse um colega, a gente não vive, sobrevive).
Eles têm acesso a coisas matérias sem muitos custos. Portanto podem se permitir outros prazeres como viagens, investimento em formação, cultura etc. Claro que eles têm séculos de tradição nesse aspecto. Mas a questão aqui é que eles se permitem o prazer sem culpa. Um direito do ser humano, mas que para muitos ainda é algo impensável diante das necessidades básicas que batem a porta.

“A gente não quer só comida

 A gente quer comida
 Diversão e arte

 A gente não quer só comida
 A gente quer saída
 Para qualquer parte...
  
 A gente não quer só comida

 A gente quer bebida
 Diversão, balé

 A gente não quer só comida
 A gente quer a vida
 Como a vida quer...”

(Comida, Titãs)


Estar em contato com pessoas que têm necessidades e ritmos diferentes me fez olhar para a forma como eu levava a minha vida. Um automático inconsciente.
Eu estava sempre fazendo as coisas para um futuro, um futuro que nunca chegava e que nunca ia chegar. Eu não percebia, eu não ouvia e eu não via porque eu simplesmente não parava. Porque eu não tinha tempo para viver. Eu não tinha tempo para coisas prazerosas porque eu tinha obrigações a cumprir. Eu não estava conectada as pessoas, ao mundo a minha volta. Eu estava passando apressadamente pela vida. Com quem olha da janela de um trem bala. 
Voltar para minha vida no Brasil e perceber que as pessoas seguem nesse ritmo sem se dar conta, me assustou e me fez pensar incessantemente em como fugir disso vivendo nesse meio e tendo que responder a essa realidade. Foi aí que entendi a minha resistência, porque mesmo dizendo que eu queria me readaptar a minha realidade aqui, eu já não concebia essa forma de conduzir a vida.
Eu não queria mais dormir. Eu não queria ser mais um zumbi. Eu queria me manter bem acordada e desperta diante da vida. Mais que ter consciência, eu queria perceber, contemplar a vida.
Eu queria tocar, falar, ENXERGAR as pessoas e o entorno delas. Eu queria esse novo olhar sobre mim também. Eu me debatia com as minhas necessidades e a realidade que se apresentava a minha frente.
Eu passei a buscar coisas e lugares que pudessem suprir e compensar a ausência dessa percepção ao longo da minha vida. E fato de nunca ter me dado conta disso me fez sentir um grande mal estar. Mas eu não tinha como me dar conta disso sem ter vivido outra experiência.
Eu me confundi e me perdi nesses pontos. Eu descobri que tenho muitas necessidades estéticas e sérios problemas com praticidade, rsrs.
Sabe, era como se a vida tivesse se descortinado ante meus olhos e eu não queria mais fechá-los e nem podia deixar que as cortinas sem fechassem. Eu não queria adormecer, eu não queria esquecer essa receita. Mas eu precisava me desligar um pouco de lá para viver aqui.
Como fazer isso? Como encontrar esse ritmo numa realidade tão distante?
Eu ainda não sei ao certo de que forma, mas eu tenho buscado coisas que eu acredito e que dão sentido a minha vida. O lúdico tem sido entendido como algo vital. Enlouquecer de brincadeira para não enlouquecer de verdade. Enlouquecer conscientemente é fundamental para minha sanidade mental e emocional.

Recentemente eu assisti a uma entrevista com Viviane Mosé, (psicóloga e psicanalista, mestra e doutora em filosofia, poeta brasileira) no programa Conexão Roberto D’ávila. Ela tocou em alguns pontos que acho cabíveis nessa reflexão.

"Eu acho que nós nos tornamos seres que tem uma cabeça obesa e um corpo raquítico. Nós somos uma grande cabeça ambulante...
A gente pouco sente, por causa desse modelo que não gosta de sentir (...) que nos fez acreditar que o pensamento era mais importante"

Como por exemplo, o fato de nós vivermos numa sociedade extremamente racional, que não trabalha suas emoções.
Não sabemos o que fazer com os nossos sentimentos e na tentativa de racionalizar situações que precisamos sentir, nos perdemos. Isso desemboca numa sociedade medicada.
Que coisa triste! Precisamos dessas muletas para dar conta da nossa vida incessantemente atarefada. Precisamos nos dopar para não sentir. Olha que barbaridade!
Nós não queremos lidar com as nossas emoções. Recusamo-nos às sensações. A nossa sociedade repudia a dor em função da felicidade constante. Essa felicidade que não é real. Essa felicidade que eu buscava como quem segue um manual. Como um objetivo concreto.
Eu não sou de ler livros de auto-ajuda, mas acredito que eu tivesse uma cartilha própria muito parecida.Nós acreditamos que se seguirmos “os dez passos” recomendados pelos manuais, atingiremos esse ideal. Como se fosse algo assim tão mecânico e concreto.
Eu não sei direito o que é Felicidade, mas não acredito que seja essa alegria constante e banal que se prega e propaga em todo outdoor. Eu não vou encontrá-la seguindo manuais, ela é muito mais abstrata. Não é uma coisa pronta e fixa. Mas vestígios dela eu percebi em coisas que eu não tinha tempo para olhar e nem sentir.
Eu não quero mais dormir na vida. Eu não quero mais me anestesiar. Eu não quero correr e nem negar a sensação. 
Eu quero e preciso do lúdico para ser lúcida. Eu preciso enlouquecer por opção para não enlouquecer de verdade.
Isso é fácil?
Não!
Mas dessa vez eu tentarei me manter acordada.


"Haverá um dia em que você não há haverá de ser feliz
Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser"


Medo de depois

“Triste é saber que ninguém pode viver de ilusão 
Que nunca vai ser nunca vai dar 
O sonhador tem que acordar”
 (Triste, Elis Regina)

Eu caminho rápido, muito rápido, quase como quem corre e penso: “correr aqui para tentar não correr na vida”. Passo pelas pessoas, pela arvores da praça, pela cidade...
Sinto-me como ela, mergulhada no caos dos carros e das buzinas que eu já nem ouço porque estou voltada demais para as minhas dores.
Estou tomada pelos pensamentos e não vejo, não ouço, nem sinto. Olho fixamente para frente sem dar muita atenção aos homens que mexem comigo na rua. Sigo no automático.
O choro parece querer vir, mas não vem. Algumas lágrimas se insinuam, mas eu as contenho. Não é um choro real, ainda não. É um choro fingido que eu tento promover, mas é tão superficial que não me satisfaria.
Eu preciso do choro incontido, das lágrimas que se apresentam sem a minha permissão, que se manifestam para além do meu controle, mas ela não vem...
Eu respiro, respiro muito e as pernas tentam compensar a ausência das lágrimas num movimento ainda mais rápido. Eu preciso correr, eu preciso correr do mundo, de mim. Eu preciso esquecer, eu preciso lembrar, eu preciso parar de pensar.
Chego em casa.Coloco uma música instrumental e abandono meu corpo no chão. Respiro. Apago as luzes e aumento o volume. Vou ao banho, ao encontro da água gelada na esperança que ela lave minha alma e leve meus pensamentos.
Termino a maquiagem e em frente ao espelho eu tento ver dentro de mim. Olho fixamente para o reflexo dos meus olhos tentando me perder lá dentro para me encontrar aqui fora.
Sorvo a vodka sem contenção e me dou conta que meus risos vão se tornando estridentes. Eu não ouço mais a música. Eu nem sinto mais meu corpo. Então eu danço. Então eu beijo. Eu rio. Mas meu riso não é nervoso. É o que há de mais real. É qualquer sensação que eu não consegui expressar ao longo do dia. Mas é sincero.
Enquanto eu sigo para cama me lembro daquele texto da aula de antropologia que dizia que temos que enlouquecer às vezes para não enlouquecer de verdade.  Eu concordo e durmo instantaneamente.Acordo e revivo meu banho gelado. Tome um copo de café e enquanto escuto Elis escrevo esse texto na esperança de salvar as lágrimas que ainda não consegui chorar.

“Por que você que é tão bonita, tem esse ar distante assim?

Diz por que o seu olhar hesita, hesita"



"Você tem medo de depois..."