Sobre o prazer que não se sente


Acredito que o “prazer da carne” possa ser o mais próximo de liberdade que se possa sentir na Terra. Refiro-me ao prazer que não vitima nem sufoca o que não significa um prazer controlado.
Liberdade essa palavra tão propagada que na minha opinião, mas  que pouquíssimos conseguem atingir.
A experiência de sentir a si mesmo. Sentir a energia do corpo num quase transe. Numa espécie de vibração que emana pelos poros, que faz a respiração tornar-se mais profunda, numa quase expulsão daquilo que aprisiona.
Entregar-se a sensação. Abandonar por alguns minutos todo e qualquer pensamento. Fechar os olhos e apenas sentir... Isso realmente não é fácil. Algumas pessoas levam uma vida para chegar a esse momento. Outras passam por ela sem isso.
Numa sociedade racional libertar a mente , abster-se da razão e se entregar as sensações soa algo primitivo. Pode ser perigoso entregar-se a paixões, ainda que momentaneamente.
Não se trata de um culto ao prazer fugaz. Trata-se de algo muito mais profundo e mais difícil de acessar. Trata-se de entrega, entrega real. Algo que demanda despir-se de defesas e pudores. Não, isso realmente não é fácil.
Abandonar crenças e tabus e enxergar o corpo como algo limpo. Esquecer por um momento, liberta-se de toda história e pregações cultuais que ainda alimentam a idéia de que estar em contato com o corpo é algo vergonhoso.
Visualizar a si mesmo e entrar em sintonia com poder da energia corporal está muito aquém da sociedade do prazer na qual vivemos. Prazer mecânico, instantâneo, quantitativo. O prazer que não se sente.
Cada dia mais pele a mostra e menos corpo. Quanto mais nus estamos ante os olhos alheios mais cobertos estamos pelo moralismo.
Acreditamos na falsa liberdade da exposição, onde a nudez do corpo ganha o caráter vulgar do explicito. O corpo para ser consumido e descartado, jamais apreciado. Que prazer é esse que não se sente?


Não há tempo para ser sentir. Pois é preciso sempre mais e mais. Relações frenéticas, cumulativas que quase nunca acrescentam.
Isso está longe de ser uma pregação moralista, é apenas uma tentativa de perceber a mim mesma e o mundo ao meu redor.


É a tentativa tão difícil de me relacionar comigo mesma sem distorcer as noções de prazer. Entender a mim para poder sentir com outro.
Um prazer real. Prazer que transcendi o entendimento. Que nega o padrão. Que abandona a razão e que permite a sensação. Não, isso não é fácil.
Mas ouso pelo despertar, pelo me encontrar, por permitir a mim e assim ser real com o outro. Pelo prazer que mais do que quero, necessito sentir.

Pela liberdade de sentir prazer!

                                          

Castanho old-fashioned



Uma vez o meu irmão me disse que segundo o último grito de moda, meu cabelo estava ultrapassado devido seu tom “nem lá nem cá”. A matéria era real, mas ele falou de brincadeira com aquele seu tom sapeca e provocativo. Com a ironia e a leveza que só ele sabe combinar. Não havia margem para chateação.
Eu me lembro de ter achado aquilo tão bobo quanto desnecessário. Não faltava mais nada mesmo. Já não bastava a eterna disputa loiras x morenas. Hora exaltação x chacota da primeira. Despeito duvidoso da segunda. Até as ruivas tinham lá seu momento, dividindo opiniões sobre suas chamativas madeixas.Mas sobre nós, as castanhas, quase não se diz nada.
Nós sempre passamos batidas. Acho que nunca nos deram atenção por sermos assim “nem uma coisa nem outra”. E agora quando resolvem falar, é para falar que estamos fora de moda. Calma lá!
Eu nunca sofri crise de identidade em relação aos meus cabelos. Acho que é o único tema na minha vida que não desperta meus dilemas. Aliás, também é a única coisa na qual eu sou meio termo.
Por outro lado, não contradiz a minha personalidade porque não deixa de ser algo indefinido. Tão eu!
Eu adoro meu longo cabelo castanho justamente porque não sou nem loira nem morena. E a “margem de erro para mais ou pra menos”, depende do referencial.
Quando em Portugal eu era morena. Aqui no norte do Brasil, eu sou "loira". O que me favorece em qualquer situação. Como diz o ditado: “Em terra de cego quem tem um olho é rei”.
Numa viagem a Londres quis trazer de presente para minha mãe uma boneca de porcelana e lembro de ter ido direto no exemplar de cabelos castanhos. Para mim era de longe a mais linda. Pode não ser padrão de beleza, mas é um tipo que muito me atrai.
Durante meu período de intercâmbio eu devo ter ensaiado umas mil vezes fazer luzes californianas. Estava em alta na Europa. Eu achava lindo e em último caso se eu não gostasse era só cortar as pontas tingidas, ou seja, sem danos consideráveis. O intercâmbio acabou e meu cabelo continua intacto.
Tenho uma amiga que sempre me pergunta por que não faço luzes. Ela diz que ia iluminar meu rosto e ficar bem natural porque eu sou branquinha. Eu dou a desculpa de que não quero estragar o cabelo com tintura, mas nunca descarto a idéia.
Não é medo de mudar, é só não ter a necessidade de mudar. Ser exatamente satisfeito com o que se é. E como eu não resisto a um ditado popular, seja old- fashioned ou the new black,  “em time que está ganhando não se mexe”.
;)


Mulheres lindas que ficam ainda mais lindas em castanho:

Alinne Moraes


Anne Hathaway

Leighton Meester



Clichê de esquina

Numa esquina, justo numa esquina. Depois de tanto tempo numa esquina eu cruzei com você. E inevitavelmente me vem àquelas palavras batidas “nas esquinas da vida” ou “caminhos cruzados”, que irremediavelmente sugerem a frase completa “Caminhos cruzados numa esquina da vida”. Frase vagabunda mas cena poética. A poesia que você tenta. O lugar comum que me arrebata.
Nessa esquina você se indignou a me dar um “oi” e corajosamente ou indiferentemente sustentou o teu olhar que há tanto tempo eu não mirava. Desconfio que isso tenha a ver com a minha abusada e altiva confiança ao sustentar também o meu olhar. Foi tão instintivo. 
E mais uma vez eu aqui a espera de seu mero “oi” signifique “eu já suporto a sua presença” que com o tempo pode vir a ser “me agrada a sua presença”. Mas que provavelmente significa “sua presença simplesmente já não significa”.

Entreaberta


Eu já me peguei varias vezes pensando no rastro que algumas pessoas deixam quando passam pela nossa vida e de como a gente só toma dimensão disso com o passar do tempo.
Hoje literalmente “eu não moro mais em mim”. Hoje, especificamente hoje que eu não consigo concatenar uma idéia, resolvi escrever sobre você.
Eu que sempre me senti assim meio perdida na vida... Às vezes me volto tanto para as minhas fantasias que eu não consigo acompanhar o ritmo da vida. Eu não sigo o fluxo. Dispersa, sempre dispersa como muito provavelmente este texto ficará. 
É como uma criança que fica esperando o tempo certo pra entrar na brincadeira de roda. Enquanto a roda circula, eu fico ali a margem ensaiando a entrada. E quando eu finalmente dou o salto em direção a ela, todos já estão cansados de brincar.
Eu fico ali me sentindo atrasada. Me culpando e  dizendo a mim mesma que da próxima vez não será assim. Eu irei ensaiar muito! Serei eu a primeira a me prontificar para a brincadeira. Daí é quando eu me dou conta que todos já cresceram.
E o que tanta divagação tem a ver com você?
Tudo!!!!!!!!!
Eu passei os últimos meses tentando estar próxima de você a minha maneira. Buscando em todas as minhas atividades encontrar algo que te lembrasse. Totalmente influenciada pelo seu universo que aos meus olhos é tão encantador. Eu ficava questionando porque nunca tinha feito determinadas coisas e dizendo a mim que de agora em diante seria diferente.
Eu quis abraçar o mundo, para sentir que abraçava você. Deixei de fazer o que precisava pra fazer o que queria. Porque eu sempre achei o que eu queria era o que eu precisava. Sempre movida pelas minhas paixões...
Todo meu escapismo encontrou abrigo em você. Porque você de uma maneira sempre muito prática tornava real aquilo que eu sempre e ainda idealizo. E por conseguinte, você me equilibrava.
Com você era só deixar acontecer que as coisas seguiam seu fluxo naturalmente. Sem tua presença, mas mergulhada no teu referencial, eu me confundi. Eu já não sabia mais o que queria e por isso não sabia como alcançar nada. Eu fiquei por aí zonza, sabe? Como as formigas que perdem o rumo quando a gente interfere no caminho delas.
Mas essas declarações estão longe de ser um lamento ou uma queixa. A cada dia que passa entendo mais o teu significado no meu caminho e acho que o que tenho feito é alimentar esse significado.
Eu tenho resistido a todo e qualquer esquecimento. E só notei isso agora que outra pessoa atravessou a minha vida.
Eu estou ali na no meio entre permitir a entrada ou fechar a porta. Logo eu que sempre me entreguei com ardor a todas as minhas paixões...
Por saber que essa é minha postura natural sei que mais cedo ou mais tarde, sem que eu me dê conta,  já estarei envolta e perdida novamente em outra paixão. O que vai me levar a não te ver com tanto realce. Porque tudo em você brilha e sempre vibrei ao teu lado.
Tu uma vez me disseste que eu ficava visivelmente mais linda quando sorria, mas que antes de me conhecer sempre me via séria. Eu te respondi que meus sorrisos não eram para todos. 
Hoje me dou conta que há muito mais verdade, nessa resposta aparentemente arrogante, do que eu imaginava. Porque ao teu lado meu riso vinha da alma. Tudo em mim sorria. Meus olhos tinham mesmo mais brilho e só estava sossegada contigo.
Tão inteira, tão intensa, tão entregue, tão de verdade... Assim era eu do teu lado.
Eu ainda não terminei de chorar meu lamento e ainda não quero que você vá embora dos meus pensamentos e outra pessoa já me atravessa assim, com tanta fúria. Eu ainda não fechei a porta pra você ... E já tem alguém arrombando a entrada...
Hoje eu me sinto em qualquer lugar, menos em mim. Hoje eu não moro em mim. Eu me sinto em qualquer realidade paralela. Uma realidade que nem consigo definir porque eu não consigo entender.
A minha saudade é única coisa que me liga a você. Eu não sei se quero parar de senti-la. Mas irremediavelmente isso vai acontecer. Porque eu não nego paixões, e tem uma querendo me alcançar.