Também não quero ser uma cabeça que rola


“Como dizia Goya: ‘A razão cria monstros’. Cuidado com quem somente raciocina. Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E quando a razão se separa do coração comece a tremer... 
Eu não acredito nisso.Eu acredito nessa fusão contraditória, difícil, mas necessária entre o que se sente e o que se pensa. E se aparece um que só sente mas não pensa, digo: ‘esse é um sentimental’. Mas se for um que só pensa, mas não sente digo: ‘Ai que medo! Esse é um intelectual’.
Que coisa espantosa! Uma cabeça que rola. Eu não quero ser uma cabeça...

Me interessa (a sabedoria) que combina o cérebro com as tripas. Essa que combina tudo que somos. Tudo, sem esquecer de nada. Nem a barriga, nem o sexo, nada, nada. Nem a cabeça que pensa que é útil também. Mas com cuidado! Porque a cabeça que pensa sozinha é perigoso. “

(Eduardo Galeano)




                                        Extraído do vídeo abaixo:




Pelo piegas e o clichê que há em mim

“Era tanta saudade
É, pra matar
Eu fiquei até doente
Eu fiquei até doente, menina
Se eu ficar na saudade
É, deixa estar
Saudade mata a gente
Saudade mata a gente, menina



A gente se perdeu da gente...
Eu te sinto mais distante a cada dia e não há nada que eu possa fazer, não está ao meu alcance mudar.
Eu fiz tudo que podia para te mostrar o que eu sentia, o quanto eu te queria, mas um sentimento não é correspondido por convencimento. A gente sente ou não. Independia do que eu fizesse para te mostrar que eu te merecia, que você podia confiar que eu seria uma boa escolha. A gente não ama por merecimento.
E essa saudade infinita que não passa nunca mais...
Eu realmente quero te esquecer, não para sempre. Só por um tempo, só até eu conseguir lembrar de você sem dor. Só até suas lembranças não me causarem mais ansiedade e não me deixarem mais angustiada.
Eu queria poder ter tido mais, poder ter te dito além do que eu sempre dizia, além de tudo que eu ainda digo. Eu sempre te digo tudo...
E desde você nada tem sido igual, nada a sua altura e isso não é justo. Você não deixou margem no meu coração para mais ninguém.
Eu não consigo deixar de achar que você é ideal para mim. Provavelmente não é o que eu preciso, mas é o que eu gostaria. 
As pessoas aparecem e eu as recuso. Eu não consigo ser nada pra ninguém. Eu não sinto vontade de ser nada para ninguém agora. Eu não quero ser além da pessoa que eu era pra você e só quero ser para você.

“Mas restou a saudade
É, pra ficar
Ah!, eu encarei de frente
Ah!, eu encarei de frente, menina
Se eu ficar na saudade
E deixar
Saudade engole a gente
Saudade engole a gente, menina

Figura imaginária



Ontem eu te vi. Você está tão bonito. Mais bonito. O tempo só tem lhe deixado mais bonito e provavelmente vai lhe deixar mais interessante.
Eu sempre tive a impressão de que o tempo seria generoso contigo. E eu sentia um ciúme antecipado pelas outras que viriam a desfrutar dos teus encantos. Daí me vem aquele ressentimento por não poder ter ficado mais.
Mesmo que nós fossemos tão diferentes, mesmo você insistindo em ser contrário ao meu desejo, mesmo com todos os meus esforços angustiantes pra me adaptar ao teu jeito, ao teu ritmo. Em algum lugar nós nos encontrávamos.
Você nunca foi calma. Esse teu jeito despreocupado e pouquíssimo comprometido com qualquer coisa que não fosse interesse seu. A forma fácil de conciliar, de negociar com a vida. Sem pressa... Tudo sempre tão simples... Isso era desesperador pra mim. Seu jeito me desestabilizava.
Eu tinha a tola ilusão de que quando finalmente a gente acabasse eu iria voltar a ter paz. Que paz? A que eu nunca tive? Sim, essa mesma. Eu tive essa tola ilusão.
E diante de todo o meu esforço para tentar esquecer não só você, mas tudo que envolve o seu universo, desaforado, mais uma vez me aparece tão lindo, tão você, do jeito que “eu deixei”.

“O inferno são os outros”


Domingo de manhã é dia de “zapear” os jornais on-line. Como tenho gosto pelas colunas e perfis fui checar o que me esperava no fim de semana.


No blog “7X7”, da revista Época, me chamou a atenção o questionamento que Gisela Campos propôs sob o título de “Onde estão os homens?”

Ela apresentava a velha queixa sobre como está difícil arrumar um namorado hoje em dia e a constatação de que para mulheres acima dos 35 anos é melhor desistir da empreitada.

Afirmou também que é comum encontrar mulheres lindas, sozinhas e desesperadas nas festas. Inclusive citava o exemplo de uma amiga que havia se separado do marido e sob o conselho de outra amiga “solteirona” reatou porque o alvo em questão está em falta. Hoje ela vive “feliz para sempre” com seu marido.

Ao fim do post ela lançou, dentre outros questionamentos sobre a possível causa para tanta solteirice na ala feminina, uma ultima questão: “Será que a nossa independência nos trouxe um outro lado de falta de tolerância que nos isola e dificulta as nossas relações amorosas?”

Eu, no auge da experiência dos meus 22 anos, também solteira, fiquei intrigada com a suspeita. E me peguei pensando sobre o querem as mulheres e qual olhar delas sobre elas mesmas.

Por acaso no dia anterior eu havia assistido a micro-série “Lost in Austen” baseada no clássico inglês “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen.

Na trama, Amanda Price, uma moça do século XXI, encontra na leitura diária da obra o acalanto para sua vida tediosa e para o relacionamento pouco satisfatório que mantém com um namorado nada romântico e muito distante do homem idealizado, Mr. Darcy, protagonista do romance de Austen.



A moça então tem a oportunidade de viver seu próprio romance ao trocar de lugar com Elizabeth Bennet, a heroína. Na releitura da história, as moças decidiam manter a troca, como se cada uma se adaptasse melhor ao período que haviam escolhido. Como num conto contemporâneo, Amanda encontrara enfim seu príncipe encantado.




Sou apaixonada pela escrita de Jane Austen, justamente porque vejo em seus romances mulheres que questionavam a ordem social. Inclusive meu interesse por sua obra vem justamente da leitura de “Orgulho e Preconceito”, muito antes do livro ter ganhado ares de Best-seller e versão nas telonas.

Diferente das irmãs e da mãe que tentam a todo custo garantir um futuro seguro e com privilégios através do matrimonio, a personagem Elizabeth, é questionadora, crítica e não está preocupada com as “alegrias vantajosas” que o casamento pode oferecer (como a própria autora que morreu solteira). E isso há 200 anos (em 2011, “Orgulho e Preconceito” comemorou seu bicentenário).


A Edição 39 – 2011 da revista Literatura "traz Jane Austen na capa". Um pouco da vida e obra dessa escritora tão representativa para literatura universal, embora pouco difundida no Brasil.


Eu li e assisti romances durante toda a adolescência e tive uma criação tradicional. Meus pais são casados até hoje. Não vim fazer coro contra o casamento. Porque acredito nele (não tem que ser necessariamente igual a dos meus pais e provavelmente não será). E longe do que o texto possa aparentar não gostaria de viver sozinha.

O que me preocupou ao ler o post e ao ver a série foi me dar conta de que as mulheres ainda idealizam as relações como um conto de fadas. Elas ainda procuram pelo homem ideal que vai livrá-las de todas as insatisfações do mundo através do casamento. E quando elas não encontram esse tão propagado “final feliz” enraizado na nossa cultura e inculcado em nossas cabecinhas desde a infância, elas se sentem frustradas, incompetentes, “intolerantes”.

Com o perdão da palavra: puta que pariu! Não me parece estranho que numa sociedade onde as mulheres assumem cada vez mais funções e cumpram as chamadas jornadas triplas, que podem ser quádruplas, quíntuplas e por vai e que incluem atividades como ser mãe, profissional e “gostosa”, as mulheres não se tornem exigentes.

Puts, elas são cada vez mais cobradas por todos os lados e ainda devem se sentir culpadas e achar que o problema está nelas.

A intenção não é crucificar homens e muito menos vitimar mulheres, mas tentar mostrar que o buraco é mais embaixo.

Mulheres, nós provavelmente não conseguiremos ser tudo o que esperam de nós (o que nós também esperamos de nós) e a culpa não será nossa. Essas super mulheres que as revistas insistem em vender, só existem nas revistas.

Não, nós não encontraremos o príncipe encantado, porque ele é invenção social que só existem na nossa cabeça e que os homens não estão interessados em encarnar.

E a culpa não é nossa porque nós não somos auto-suficientes, ou porque não somos as super gostosas do pânico na TV ou porque já não somos tão jovens. Isso não quer dizer que eu ignore que nossa sociedade supervaloriza os jovens e que “envelhecer” soa como ameaça e “velho” como ofensa.

“O inferno são os outros”. A imagem de paraíso libertino que o Brasil insiste em vender para o mundo, nada mais que a representação de uma sociedade ainda conservadora e machista que alfabetiza seus homens e mulheres na "cartilha da bunda”. E a mulher ideal na cabeça deles e que nós nos sujeitamos a ser, é a independente fora de casa e a servil dentro.

“Acho que o grande problema das mulheres brasileiras é que elas são extremamente machistas. Não deixam os filhos lavarem a louça e querem ser chamadas de docinho em casa. E se identificam com as mulheres frutas, comestíveis. Fora de casa, são independentes. Quando chegam em casa, querem ser tratadas como princesas. Esse é um grande paradoxo. Elas casam para entrar em um conto de fadas.”
(Mary del Priore, historiadora, em entrevista a TPM)

Entrevista na integra

Como disse sempre fui consumidora ávida da sessão de romances e depois de assistir “Amizade Colorida” finalmente tive o “click”.

A idéia vendida de mulher independente é aquela onde ela dorme com o cara e não faz cobranças no dia seguinte, ainda que tenha expectativas. A mulher “descolada” é aquela que na infância é alimentada por historias de heróis e princesas e na vida adulta se fantasia de “panicat” para atrais os olhares do sexo oposto, numa tentativa desesperada de se sentir apreciada.Ou seja, a mulher ideal ainda é aquela feita para servir.

Em "Amizade Colorida", a mulher independente se despede sem expectativas depois da transa.
No facebook, a figura  da "funny girlfriend" , é partilhada  por muitos usuários. A gostosa que sabe jogar vídeo game.






É aquela que vai acumular um amontoado de funções e depois vai se sentir culpada por não saber o que fazer com as suas frustrações. E que vai chegar aos 35 anos ou muito antes disso, se perguntando o que ela está fazendo de errado, já que ela seguiu a risca a cartilha.

“Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas...”

(Estamos com fome de amor, Arnaldo Jabor)


Não contaram as mesmas histórias para homens e mulheres e agora elas estão desencontradas e enquanto as questões de gênero forem tratadas como “assuntos de mulher”, ou seja, enquanto os homens não participarem do debate e reconhecerem que eles também têm participação na forma com essas mulheres se enxergam, nós continuaremos a nos culpar por sermos cada dia mais “intolerantes".


                                       Ponto para a pequena!!!