Cada um enfia as oportunidades que recebe onde acha melhor



Eu sempre me lembro dessa cara. Um tipo James Dean. Sorriso de “cafa”, jaqueta de coro, preferência por preto, fumante, porém de cabelos escuros e pele clara. Meu tipo total (exceto pelo cigarro).
De longe ele sorria pra mim e eu retribuía com um certo ar de desdenho que ele fez questão de reclamar.
Chegou perto e falou no ouvido, sorriu e me deu uma bebida. Ele era bom, mas eu também era.
Não acreditou quando ouviu a minha voz, ou melhor, o meu sotaque. Não era possível que eu fosse brasileira. Então ele me disse que sempre passava as férias em Santos, que tem família lá. Elogiou o meu sorriso e voltou a repetir que jamais acreditaria na minha brasilidade não fosse meu sotaque. Motivo?
Eu era bonita.
Lembro de ter me surpreendido muito com aquele comentário porque até então era essa a fama que as brasileira tinham mundo a fora. Não para ele, pelo visto. E continuou: “Você é muito bonita e branca“
_Obrigada pelo bonita! Não entendi o “branca”.
_O Brasil é um país de pretos. As mulheres são feias. Só não se passa por portuguesa por isso (apontou para minhas pernas) e por isso (apontou para meus seios). Ou seja, pernas grossas, seios pequenos. Uma típica brasileira, exceto por não ser preta, como ele dizia.
Eu ria e não acreditava no que estava ouvindo. Um pouco antes ele havia me contado que era filho de espanhol com brasileira e havia nascido e se criado em Portugal. Eu não conseguia imaginar mistura mais bem sucedida. Além disso o pai era diplomata e ele já havia morado em muitas partes do mundo.
Eu ficava me perguntando como nascido de origens tão distintas e viajado pelo mundo, alguém que era a própria miscelânea, fosse capaz de disparar comentários tão infelizes. Eu juro que me perguntei o que ele tinha aprendido com tantas mudanças, lugares, culturas. Que diabos ele fez com as coisas que viu, conheceu? E que me desculpem sinceramente os pais, que sempre ficam com a culpa, mas que educação eles deram para esse menino?
Como, tendo uma mãe brasileira, ele podia se portar assim diante da sua descendência? Por um momento senti até raiva da mãe dele, que devia ser um caso Carlota Joaquina. Eu jamais poderia supor essa postura de alguém com esse histórico.
Bem, ele me contou o quanto adorava Veneza. Que desejava morar lá. Não existia lugar mais perfeito. As venezianas eram incríveis. Livres e sempre dispostas para o sexo. Sem pudores.
No sei qual era a intenção dele com afirmações (sei sim), embora eu não fosse veneziana e talvez tão despudorada, eu era portadora de um descaramento muito brasileiro. E com um sorriso malicioso no rosto, soltei: “Engraçado você falar dessa falta de pudor que tanto te atrai numa mulher e até agora não ter tido a coragem de me dar um beijo”.
Eu desconfiava sobre o motivo. Os portugueses não são muito chegados a beijar em publico. Principalmente se tratando de uma brasileira que ele acabou de conhecer.
Como eu desconfiava, ele disse que me beijaria fora da discoteca (como é chamada boate em Portugal), mas eu disse que não. Se ele não me beijasse naquele momento eu não beijaria.
Ele não estava acreditado que eu estava impondo algo a ele. Ele relutou, mas finalmente entendeu que eu não estava brincando e me deu um beijo rápido. Eu ri e disse que ele era como todos os portugueses. Falava tão mal das suas conterrâneas que eram sempre cheias de fricotes e correspondia fielmente ao estereótipo.
Ele não tinha como contra- argumentar. Eu era cínica e não tinha nada a perder. Além disso, estava adorando ver ele incomodado com a minha insolência.
Bem, não bastasse ser incrivelmente lindo, ele também tinha um carrão de filme. Estou contado isso pela preocupação que ele teve ao me levar em casa. Eu morava num bairro periférico de Portugal, com vizinhos ciganos. Imagina o que poderia acontecer com meu ator de cinema... haha
No outro dia como de costume eu contei tudo para Maiara. Ela, indignada com os comentários sobre as nossas raízes negras (A Maiara pesquisa sobre escravidão no Brasil), me perguntou porque eu tinha ficado com ele. E a voz de consolo soltou: “Você não precisa disso”. 
Eu ri e disse que ela sabia muito bem o motivo. Afinal as minhas intenções naquele lugar nunca foram boas, mas eram as melhores, hahah.
Naquela época eu ainda não imagina que o caso do meu James Dean poderia virar uma análise antropologia, ou pelo menos, mais um post nesse blog.
Bem, e porque estou contando todas essas bobajadas? Porque a postura do português/brasileiro/espanhol me deixou muito intrigada e me consumiu bons minutos de pensamento. Não só pela surpresa que já mencionei acima, mas também porque me fez ver o quanto eu estava presa aos meus próprios valores.
“Boa vida e boa oportunidades” por si só não garantem a boa formação de alguém. E mais uma vez partindo do princípio da minha interpretação a respeito  dessa boa educação. Estou me referindo a valores sociais, culturais.
Ele aproveitou todas as boas chances que recebeu de outras maneiras, no sentido do que era mais interessante para ele aproveitar. Viagens, carros, roupas... Ele escolheu o que fazer com essas “boas oportunidades”. Eu teria aproveitado de uma outra maneira, ou não. O que nos leva a minha próxima reflexão.
Muito provavelmente o meio que ele foi criado é permeado pelos mesmos valores. Como enxergar as coisas de modo diferente sem outro referencial? Ficou muito claro que ele não achava que emitir esse tipo de comentário fosse um problema.
Não estou dando uma de advogada do diabo, mas o meu julgamento tão severo e irônico a respeito do comportamento do outro me fez olhar pra dentro e perceber o quão inflexível eu poderia ser também ao defender os meus valores.
Feita a reflexão, compreendo que cada um escolhe o que fazer com aquilo que recebe e o fato dele ter tido uma vida com mais privilégios que a maioria não o obriga a ser o salvador da pátria e muito menos garante grandes feitos.


Quando defeitos podem ser qualidades


"A garotinha marrenta que se recusava a cumprimentar o presidente da República João Baptista Fiqueiredo"* 

A minha mãe sempre me conta o quão teimosa eu era quando criança. Ela podia repetir mil vezes que não que eu continuava perguntando o por que não podia alguma coisa e insistindo que queria. Ela detestava me levar às compras de supermercado. Desde menina eu já dava indícios do meu vicio por chocolate. Daí já viu, se não levasse uma caixa abria o berreiro e literalmente batia o pé. Eu era bem birrenta.
Uma vez, não lembro porque, ela brigou comigo durante um almoço e na mesma hora eu não quis mais comer, eu nem tinha começado a refeição. Estava morrendo de fome, mas resisti à vontade para provar meu orgulho.
Mas a história que ela mais gosta de contar é sobre o caso do algodão doce. Tinha um senhor que sempre passava na minha rua com um cacho de algodão doce. Eu acho que como toda criança, achava aquela nuvem de açúcar uma coisa muito legal e sempre pedia a minha mãe que comprasse. Ela relutava e dizia que eu nunca comia até o fim. Aliás, eu só beliscava e não queria mais. Mas eu batia o pé dizendo que dessa vez ia ser diferente e que eu comeria tudo.
Um dia minha mãe foi categórica: ”Se você fizer como das outras vezes, eu vou te fazer comer até o fim”. Eu não dei lá grande importância à ameaça e fiz como sempre. Comi o que queria e depois deixei de lado.
Bem, ela cumpriu o que disse e me fez comer até o fim. O curioso disso tudo é que ela achou que eu nunca mais ia querer comer algodão doce na vida. Ledo engano. Eu não tenho qualquer trauma desse episódio.
Eu fui uma criança que apanhou tanto do pai como da mãe. Motivo? Birra. Sempre, invariavelmente. Eu sempre fui uma criança na linha. Não mexia em nada que não fosse meu, não mentia, não brigava, não aprontava. Aliás, acho que foi isso que faltou na minha infância, travessura.  Pelo menos ia apanhar com motivo.
Hoje como adulta, acho realmente que apanhei desnecessariamente. Acho que faltou paciência da parte dos meus pais. Eu sou a primeira filha, talvez isso explique. Eu imagino que deva ser realmente irritante uma criança berrando no seu ouvindo e dizendo o quanto quer uma coisa que ela pode nem querer.
A minha mãe disse que as lágrimas mal secavam do meu rosto, depois de uma surra e voltava perguntando por que e afirmando que ainda queria, seja lá o que fosse.
As surras não me tornaram uma pessoa ruim, mas também não mudaram tanto esse aspecto. Eu continuo sendo movida a porquês e desejando coisas insistentemente, para o bem e para o mal.
Mas em algum momento da minha adolescência, eu achei que a minha insistência soava como atrevimento, petulância. Eu era sempre tão convicta. Acho que isso incomodava professores e colegas de classe.
Em parte foi bom, porque entendi que existiam zilhões de opiniões além da minha e que também eram válidas. Mas por outro lado achei que incomodar pessoas fosse um problema sério e que eu não deveria me posicionar tanto.
Eu abri mão das minhas muitas certezas para deixar que outras perspectivas me penetrassem. Eu aprendi a respeitar diferenças com isso, mas assumi comportamentos que nem sempre serviam para mim.
Como tudo na vida há pontos positivos e negativos em nossos comportamentos. A minha teimosia já me fez dar muito murro em ponta de faca. Mas foi ao mesmo tempo o que me levou de onde estava para onde eu desejava chegar. Expressar opiniões com convicção realmente pode soar arrogante e pode desagradar, mas também se trata de saber o que a gente é e deseja. É respeitar quem somos. Não estou falando de impor opiniões, mas de não calá-las para agradar a outrem. 
Eu fiz aulas de dança por alguns meses e fiquei impressionada em como é possível ler alguém através da postura corporal, dos movimentos.
Lembro do professor falar que tem muito aluno que chega à sala acanhado, de cabeça baixa, ombro pra dento.  Que tem medo de se mostrar. Ele associou isso, em parte, a nossa cultura do coitado.
Segundo ele, brasileiro tem essa coisa de ter que ser sempre humilde, servil. Gente confiante soa como arrogante. Eu nunca me esqueci disso. Achei que tinha muito sentido naquelas palavras.
Eu acredito na teoria que diz que os adultos são reflexos da infância que tiveram. Eu tenho muito daquela menina que mesmo chorando, continua insistindo. Mimo ou determinação? Depende de como se encara. Para o bem e para o mal.

* Procurando uma imagem para esse post, encontrei essa foto de fato verídico. Vale a pena conferir a matéria --->(http://www.hiroshibogea.com.br/?p=8564)!

A arte que é para todos

Meg Wachter

Numa das aulas de espanhol trabalhamos um capítulo do livro onde o tema era arte. Dentre as várias imagens, nos deparamos com uma obra do escultor espanhol Eduardo Chillida, chamada Plano oscuro.

Plano oscuro, Eduardo Chillida

A professora pediu a cada aluno que dissesse o que a obra representava para si. Cada um deu sua interpretação e eu respondi que para mim não dizia nada além de ferro retorcido.
Ela respeitou minha opinião e deu a sua, argumentando que aquele tipo de arte não era para leigos como nós. Eu tive que contra argumentar dizendo que arte é pra todo mundo. 
Honestamente não me sinto uma ignorante por não compreender o que o artista quis dizer. Nem acho que é preciso ser um expert no assunto para se sentir tocado por uma obra. E ao mesmo tempo pode-se entender do assunto e ainda assim ficar indiferente ela.
A arte tem diversas funções e a característica na qual mais me reconheço é na de causar emoção. Adoro essa sensação de me sentir tocada por uma obra. Isso já me aconteceu em alguns espetáculos ditos populares.
Uma vez assistindo a peça Acorda Zé que a comadre ta de pé não contive as lágrimas ao ver o elenco empunhado com “instrumentos forrozeiros”. Quando ouvi o triângulo e zabumbo foi rio abaixo.

Acorda Zé que a comadre tá de pé, Grupo Moitará (RJ)

Me arrepiei ao ver o grupo Tholl em acrobacias que desafiam o corpo humano, no espetáculo Exotique e senti uma frio na barriga quando assisti pela primeira vez uma orquestra. Nem pisquei ao ver o primeiro espetáculo de balé. Nada menos que Bolshoi.
Nos últimos dois meses frequentei os mais diferentes programas culturais. E todos os espetáculos, sem exceção, foram abertos ao publico. Assisti tudo gratuitamente.
Quem me conhece mais de perto sabe que arte e cultura são minhas grandes paixões. São as coisas que me movem e despertam em mim um encantamento sem tamanho. 
De onde vem isso eu não sei, porque nunca fui estimulada em casa. Cresci numa cidade pequena que não oferecia opções de lazer e cultura e minha família também não partilhava desses interesses.
Meu primeiro contato com essa paixão chamada arte foi aos quinze anos, através da literatura. Foi lendo Senhora, de José de Alencar, uma das obras obrigatórias do vestibular. Desde então nunca mais parei de ler e tenho minha mini biblioteca particular.
Através dos clássicos da literatura brasileira fui despertando para outras vertentes da cultura. Com eles cheguei ao cinema, pois gostava de ver as obras lidas retratadas na telona. Por tabela tornei-me amante do cinema nacional.
Assim como na literatura eu gostava de sentir a proximidade com aquilo que estava sendo retratado. Gostava de ver minha cultura representada, por mais diversa que ela fosse e que em muitos casos as obras não falassem da minha região. Mas não deixava de ser a minha identidade. Era o todo que via. Era o pertencimento a nação que sentia.
Ao me mudar para Palmas comecei a freqüentar o teatro e durante minha temporada na Europa pude visitar alguns museus. Meu gosto pela arquitetura também foi despertado lá.
Ao adentrar tantos espaços com exposições de telas, a minha necessidade de entender aquilo foi aumentando a ponto de querer estudar mais sobre. E recentemente me inscrevi num curso de História da arte.
A arte sobre mim inebria, emociona, absorve toda a minha atenção. Eu vivi anos sem esse estimulo e só recentemente meu repertório tem sido ampliado porque tenho buscado cada dia mais. Mas mesmo quando eu caminhava pelos museus e não entendia nada do que alguns artistas queriam dizer, eu me sentia tocada por aquilo.
Acho que procurar entender a intenção do artista e as características da obra é importante sim, isso aumenta nosso repertório e nossa compreensão a respeito daquilo, mas isso não deve ser uma barreira para quem não tem acesso a essa informação. A meu ver o sentindo da obra também é construído com o espectador.
Outro dia assisti a uma performance com uma amiga e ela saiu do evento puta da vida porque não conseguiu descobrir o que artista queria dizer. Engatamos uma discussão prolongada sobre a função da arte.
Para ela algo que não pode ser compreendido é inútil. Eu argumentei dizendo que só a inquietação que aquilo tinha causado nela já era algo. Talvez aquela fosse a intenção. Talvez não. Talvez nem ela nem eu tivéssemos entendido nada mesmo.
Entretanto, eu diferente dela, me senti “ok” por não ter compreendido e não ter sido tocada de alguma forma. Aquele tipo de manifestação não me dizia nada e para mim aquilo era uma questão de gosto. Eu não aprecio aquele tipo de arte e não me sinto obrigada a entender.
A minha amiga disse que ia mandar um e-mail para a artista e perguntar do que se tratava tudo aquilo. Achei bacana porque aquela incompreensão despertou algo nela, moveu seu interesse. Foram formas diferentes de reagir.
Por outro lado quando assistimos a OCA (Orquestra de Câmara do Amazonas), antes de iniciar a apresentação o regente explicou o que era uma Orquestra de Câmara* e apresentou cada instrumento.
Antes de dar inicio a cada clássico, também explicou de quem eram as músicas e como foram pensadas para serem executadas. Uma proposta completamente diferente de apresentar arte. Até porque se trata de um projeto do Ministério da Cultura em parceria com BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) que quer viabilizar o conhecimento de música clássica pelo país.
Mas o fato de não conseguimos alcançar o sentido da obra imediatamente não nos torna inaptos a ela. Isso não significa que é para uns e não para outros. E nem o fato de não termos alguém que nos explique do que se trata invalida a obra ou a torna menos acessível. Isso não a torna inútil.
Essa é outra das funções da arte: inquietar, provocar. Às vezes pode parecer mesmo incompreensível porque quer nos fazer pensar, refletir a respeito.
Não ignoro que durante muito tempo Arte era para poucos mesmo e em alguns casos ainda é, no que diz respeito ao acesso. Ainda pode ser muito caro pagar por ela. Arte denota status, poder.
Mas com a revolução industrial e  a produção em série ela se tornou cada vez mais reprodutível e acessível, o que para muitos rebaixa e até descaracteriza a verdadeira arte que deve ser única.
Eu não encaro dessa forma. Sem essa popularização e massificação eu nunca teria acesso a ela e sem isso não veria meu interesse despertado e nem procuraria conhecer mais e desenvolver meu pensamento crítico.
Essa forma de explorar a arte não me tornou menos encantada com a experiência da contemplação, quando assim eu tive a oportunidade de ver obras originais de perto. E muito me roubou o interesse pelo ao vivo. Hoje eu sou uma amante do teatro. Mas sem a reprodução em série na internet, livros e revista sabe lá quanto tempo eu demoraria para ter esse interesse. Imagina, eu, no interior do Pará.
Prova de que a falta de conhecimento não anula o interesse e muito menos a compreensão foi a diversidade de publico que eu vi pelos espetáculos que freqüentei nesses últimos dois meses.
O argumento de que o publico era grande porque os espetáculos eram gratuitos não diz tudo. Se as pessoas não apreciam o que está sendo mostrado, elas deixam o local, não ficam até o fim. O que vi foram platéias aplaudindo de pé e pedindo bis.
Já ouvi algumas pessoas dizendo que essa reação se dá porque a população local não está acostumada com esses eventos, já que aqui não acontece com freqüência. Acho essa idéia reducionista e preconceituosa.
Vejo a procura em massa de forma muito positiva.  Entendo como o reflexo de um publico carente e sedento por essas manifestações, que mesmo sem estar familiarizado vai atrás porque quer conhecer. Acho essa curiosidade e esse interesse louváveis.
Gostaria de deixar claro que não se trata de uma apologia a ignorância, e ignorância no sentido de não conhecer. O quero dizer é que não participo do grupo que entende arte como algo que deve ser inacessível.
O fato de não ter repertório sobre um assunto não nos impende de ser tocado de alguma maneira por aquilo. Mas entendo sim que ausência desse mesmo repertório pode limitar nossa compreensão e às vezes até gerar aversão.
Em nosso pais arte, cultura e educação nunca foram prioridades. Ouso dizer que por muitos não são considerados nem necessidade. Não temos escolas que nos preparem, nos sensibilizem, nos familiarize com o assunto. Nosso país trata disso com menosprezo.
Também não quero me apoiar nessa justificativa para o não consumo de arte. As pessoas também tem o direito de não gostar.
O que acho é que a elas tem que ser dada a oportunidade de escolher entre consumir ou não e que a não oferta jamais pode caracterizar a falta de interesse. A arte tem que estar ao alcance de todos para que a gente decida o que fazer com ela.  Desde procurar um curso para entende melhor a ficar “ok” por não se interessar.

Abaixo alguns dos espetáculos que assisti gratuitamente e recomendo:

Sua Incelença, Ricardo III - Teatro Clowns de Shakespeare.  Natal, Rio Grande do Norte.
Teatro de rua, ao ar livre. Assisti no gramado do Espaço Cultural de Palmas.

OCA (Orquestra de Câmara do Amazonas) – Projeto Música na estrada. Manaus, Amazonas.

Exotique - Grupo Tholl. Pelotas, Rio Grande do Sul.
Assisti durante a Flit. (Feira Literária Internacional do Tocantins.)

Cantata Gonzaguiana - Orquestra Sinfônica de Teresina e João Claudio Moreno. Teresina, Piauí.
Flit

Grande Suíte do Balé “Dom Quixote” - Balé Bolshoi Brasil. Joinville, Santa Catarina.
Flit.Também ao ar livre, assisti na Praça dos Girassóis.


Algumas peças que assisti esse ano pelo Projeto Palco Giratório do SESC*.

O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas - Trupe Ensaia Aqui e Acolá. Pernambuco.


 Dia Desmanchado -Teatro Torto. Rio Grande do Sul.

 Instantâneos - Cia dos Bondrés. Rio de Janeiro.


*Orquestra de Câmara “...é um conjunto bem menor (se comparado a sinfônica) e costuma ter, na maioria dos casos, entre oito e 18 músicos [...] a palavra "câmara" é sinônimo de "sala, quarto ou aposento pequeno". Ou seja, é um tipo de música erudita para pequenos espaços, executada por poucos músicos. Outra diferença importante é que, ao contrário das sinfônicas e das filarmônicas, as orquestras de câmara não costumam ter todos os tipos de instrumento, como os de corda, de sopro e de percussão. Na verdade, o mais comum é que elas tenham apenas um tipo deles - se for uma apresentação de corda, por exemplo, devem aparecer só violinos, violas, contrabaixos e violoncelos.”
No caso da apresentação que assistimos se tratava de instrumentos de corda.


*O projeto consisti no intercâmbio de peças teatrais. Os espetáculos que participam do projeto rodam o pais se apresentando e ao fim de cada apresentação o elenco bate um papo com a platéia. A entrada custa apenas 10 reais e tem meia para estudante.
 
Nessa entrevista o idealizador do museu de arte contemporânea, Inhotim, em Belo Horizonte (MG), fala de como tornou o projeto acessível a todos os públicos.

Férias culturais: “A Amazônia é legal!”


Tia Gabi e o parceiro Iraci bombando na contação de lendas =D


Esse foi o tema da programação de férias que a instituição onde eu trabalho ofereceu para garotada depois do encerramento das aulas.
A programação contou com várias atividades nas áreas de música, teatro, dança, cinema e literatura, na qual eu atuo. Além de desenvolver atividades de reciclagem.
Durante uma semana recebemos crianças com idade entre 6 e 12 anos. Elas foram dividas em grupos de cores, onde cada um correspondia a uma faixa etária. Amarelo: 6 anos,Laranja: 7 anos, Verde: 8 anos e Azul: 9, 10, 11 e 12.
A idéia é que ao longo da semana todos os grupos passassem por todas as atividades.
Bem, dentro da literatura, o grupo de mediadores ficou responsável por duas atividades, o jogo da boiúna (cobra) e a contação de lendas.
O jogo da boiúna foi criado e desenvolvido pelos próprios mediadores (que orgulho!). Criamos desde as regras, perguntas, estrutura até peças. Apesar de ter ajudado na criação do jogo, eu fiquei no grupo da contação.
Comigo havia ainda outros dois mediadores e o primeiro grupo que recebemos foi o Laranja. Por serem menores, ficaram muito atraídos pela sala que estava decorada com imagens de personagens das lendas amazônicas. Havia ainda um tapete grande e fofinho cheio de almofadas. O nome da sala era confortável.
Sem tanta certeza sobre a minha habilidade em entreter crianças eu optei por usar fantoches na contação. Não poderia ter tido idéia melhor J.
Eu escolhi o único boneco negro que havia e dei a ele o nome de Iraci. Meu personagem tinha um espírito medroso e sempre que contávamos lendas assustadoras o coitado pedia as crianças que ficassem perto dele.
A garotada adorou. Uns tentavam assustá-lo ainda mais, muitos achavam graça e outros se solidarizavam com o pobre, rsrs.
Entre as turmas Amarelo e Laranja ele foi a sensação. As crianças menores recebem tudo com mais encantamento. Elas queriam pegar, conversar com ele.
Era como se ele realmente fosse outra pessoa contando histórias, mesmo que as crianças percebessem que era eu quem fazia sua voz.
Houve um momento em que o grupo Amarelo pediu em coro: “Fantoche, fantoche, fantoche!”. Achei tão bonitinho e fiquei toda orgulhosa. Eu me tornei uma tia popular graças a minha cara- de- pau e ao Iraci.
Essa experiência com crianças foi bem diferente da que eu venho tendo com a mediação.  Não só pelo ambiente, pela classe social, mas principalmente pela idade.
Apesar do cansaço, eu fiquei muito empolgada. Ficava esperando pelas turmas Laranja e Amarelo. Queria ouvir as histórias, pôr no colo, abraçar. Com eles era uma delícia. E meu colo foi mesmo bem disputado. Ganhei muitos beijos, elogios e passadas de mão no cabelo. Coisa mais fofa. Eu criei uma relação de afeto com algumas crianças. Gravei até o nome.
Uma das meninas com quem eu mais me apeguei chegou à sala chorando. Não queria ficar. O pai a ameaçou e disse que se ela não participasse das atividades eles iriam ter uma conversa séria quando chegassem em casa.
Eu me aproximei e convidei-a para entrar, mas a menina estava relutante. Então o pai pediu licença e puxou ela num canto para dizer mais coisas. Antes de sair me pediu que avisasse caso ela não fizesse nada. Eu disse ok.
Quando ele foi embora, disse a pequena que ela não precisava participar das brincadeiras se não quisesse e que eu não iria contar nada ao pai dela.
Me encaminhei a roda com os outros e quando ela viu que todos participavam, correu e sentou ao meu lado. Não chorou mais e se envolveu em  tudo.
O motivo do choro era a visita de uma colega que mora em Brasília. Era a primeira vez que ela vinha a Palmas e a minha pequena não podia estar com ela.
Achei aquela preocupação tão bonita, tão sincera. Ela só tinha 6 anos e estava preocupada com a amiga que ia ficar sozinha enquanto ela se divertia.
Não sei por que o pai agiu daquela maneira. Talvez fosse um dia ruim, talvez a menina tivesse feito muita birra, vai saber. O fato é que pressionar uma criança não costuma ser a melhor maneira de convencê-la.
Quando ele veio buscá-la eu fiz questão de informá-lo que ela havia participado de tudo. E na verdade nem precisava porque ela nem queria mais ir embora. Ele foi simpático e agradeceu.
Como ela, havia muitos outros cheios de histórias deliciosas para contar aqui no blog. Foi uma semana que ampliou o meu repertório com crianças e que deu a sensação de levar muito jeito com elas.
Crianças são universos muito ricos e merecem que a gente olhe para eles com todo o respeito e atenção. Estou feliz e satisfeita com mais essa experiência. J


Aproveitando ainda a dobradinha crianças/livros que eu tenho trabalhado nos posts anteriores gostaria de deixar mais uma sugestão de livro. Trata-se do Arte para crianças, que eu adquiri durante a FLIT (Feira Literária Internacional do Tocantins).
Estava à procura de livros sobre e arte e me deparei com esse. Ele é tão bonito que não resisti, a capa parece uma moldura. Mas acredito que estar próxima do universo infantil nos últimos meses influenciou a compra J
Muito colorido e cheio de imagens, ele explica tim-tim por tim-tim cada movimento artísticos, alguns artistas e técnicas.


Enquanto isso no país das maravilhas...


“Cortem a cabeça!!!!”


Na nossa ultima mediação (minha e da minha colega) tentamos realizar algo diferente.  Pensamos que talvez, se a gente fizesse uma atividade mais próxima dessa “geração audiovisual” poderíamos obter alguma atenção da criançada.
Então escolhemos dois filmes, que segundo nossa avaliação falava de temas próximos as crianças sem perder a qualidade no conteúdo. Mais do que entreter e sem a intenção de educar, os filmes tocavam em assuntos delicados, a partir do olhar da criança, porém, não eram necessariamente infantis.
Cada medição dura uma hora (o tempo de uma aula). Fazemos duas medições por dia, duas vezes na semana (quinta e sexta). Ou seja, uma mediação no quarto e outra no quinto ano em cada dia.
Para exibir o filme, reservamos duas aulas em cada sala e mediamos apenas um dia com cada turma. Na quinta estivemos com o quinto ano e escolhemos o filme “O ano que meus pais saíram de férias”.
É um filme nacional e conta a história de um menino que é deixado pelos pais na entrada do prédio onde mora o avô, sob a desculpa de que os pais sairão de férias.
Na verdade eles estão fugindo do regime militar e optam por não pôr a vida do filho em risco. Mas ao chegar à porta do apartamento o menino descobre que o avô faleceu. Sem contato com os pais, o menino passa a ser cuidado pelos vizinhos.
O filme se passa num ano em que o Brasil ganhou a copa do mundo. O pequeno protagonista é apaixonado por futebol e assim como a maioria da população na época, inebriado pelo calor da paixão nacional, e devido a idade, não tem dimensão dos problemas políticos e sócias que o país está passando.

Por se tratar de uma turma onde há grande quantidade de meninos inquietos e apaixonados por jogos, nós acreditávamos que a temática futebol seria capaz  de atraí-los.
Só não foi um completo engano porque de fato eles atentavam para as cenas de futebol, mas era só. Em outros momentos do filme eles se mantiveram inquietos.  E ainda reclamaram porque íamos fazê-los perder a aula de educação física.
É importante contar que nós preparamos esse momento com a maior dedicação. Levamos um tapete bem fofinho e enchemos de almofadas. Fizemos pipoca e compramos “refri”, mas nem a nossa sala de cinema foi capaz de conquistá-los L.
Bom, nós ainda tínhamos uma esperança, o quarto ano. Os alunos participam mais da mediação e com o passar do tempo estavam mais envolvidos.
Para eles escolhemos “A menina no país das maravilhas”. O filme aborda uma temática mais densa, mas levamos em consideração o fato de que crianças, sim, tem o direito de lidar com assuntos delicados e nem por isso o filme deixava de ser lúdico.
Trata-se de uma menina que é escolhida para representar Alice numa peça da escola. Porem, ela sofre de um transtorno, onde confunde realidade e ficção. Ela passa a ver os personagens da peça e sua obstinação para ser perfeita faz com ela se auto-flagele.
O filme mostra a dificuldade dos pais em identificarem e reconhecerem o transtorno. A mãe nega o problema e quando finalmente admite, não sabe como ajudar. Mostra também o desespero da própria criança que não sabe como parar.  Mas para mim o personagem mais admirável, é a professora, que diante do problema de Pheobe (a menina), não enxerga problema. Vê a apenas a criança talentosa e criativa que existe além dele.
A professora desde o começo deixa que as crianças coordenem a peça e ensina a elas que apesar de crianças, elas podem fazer coisas sozinhas. Que são indivíduos capazes.
Há também a inserção, com muita naturalidade, de um personagem gay. Trata-se de um menino, amigo de Phoebe que se reconhece, e acima de tudo se respeita com tal, sem a necessidade esconder quem é.
Apesar de tocar em temas delicados (para muitos ainda tabus) o filme mantém o lúdico, presente não só na imaginação da menina, mas nos cenários, nos figurinos da peça e na própria casa de Phoebe, que respira a história, já que a mãe está escrevendo uma tese a respeito.



Achamos que seria muito legal mostrá-lo para crianças menores, mas nossa surpresa foi ainda maior com o quarto ano.
Eles se mantiveram concentrados no começo do filme, mas do meio para o fim, já estavam correndo e pulando nas cadeiras.  Pausamos o filme na tentativa de conversar com eles e reverter a situação, mas no fim optamos por terminar a exibição já que ninguém parecia interessado.
Me senti a própria rainha vermelha. Fiquei com raiva e frustrada por justamente no quarto ano eles terem se “rebelado”. Como eles podiam, com aquele filme tão lindo, tão legal?  Tinha “refri”, pipoca... O que mais eles queriam?
Correr, brincar, não ficar parados. Também ansiavam pela educação física...
Nós ficamos bem chateadas, éramos nós as crianças desapontadas. Eis que surge mais uma vez o desafio da mediação.
Afinal não se trata do que nós queremos e do que nós julgamos bom para eles, mesmo que nossas intenções sejam as melhores, mesmo que planejemos tudo, com tanto cuidado. É o outro que se impõe a nossa vontade e coube a nós respeitá-la. Assim o fizemos. Nosso país das maravilhas se desmanchou e ficamos ali de cabeças cortadas.


Um dos poucos momentos em que o quarto ano se manteve atento ao filme *_*

Livros sugeridos:

COLE, Babette. Dr. Dog.

HETZEL, Graziela Bozano. O lobo.

LOPEZ, Mercé. O menino que comia lagartos.

GOMES, Lenice. A casa das dez furunfunfelhas.

O silêncio que pode virar barulho, se assim desejar




Como eu disse no post anterior, às vezes a gente fica tão concentrado em não deixar que o tumulto tome conta da sala que não conseguimos notar aqueles que não estão no “olho do furacão”.
Por acaso, justamente num dia onde as crianças estavam agitadas (como de costume), mas muito participativas, após realizar várias leituras seguidas, quando fui devolver um livro ao tapete, ergui os olho e percebi um pequenino que lia silenciosamente numa carteira encostada à janela.
Aquilo me chamou a atenção porque nada parecia abalar a sua concentração. Ele estava interessado, mais que isso, envolto por aquela leitura.
Até aquele dia eu ainda não tinha me dado conta da sua presença. Claro, vale lembrar que são muitas crianças e eu estava no meu quinto encontro com elas. Mas pelo menos os rostos eu já conseguia identificar, contudo não me lembrava do dele.
Eu continuei as leituras com outras crianças, mas vez por outra dava aquele “rabo de olho” naquela criatura compenetrada.
Notei que ele lia um livro atrás do outro, num movimento imperceptível a maioria que estava na sala. Não fazia barulho nem quando afastava a carteira e diferente dos outros, não jogava os livros no tapete. Ele soltava levemente. Eu comentei com a minha colega, que não por acaso, também não tinha notado o menino.
No outro dia, as duas olhavam admiradas o ávido leitor. Então depois de algumas leituras realizadas com outras crianças eu me aproximei discretamente e perguntei se ele não gostaria que eu lesse algo para ele ou se ele gostaria de ler pra mim. Ele disse que não, porque já havia lido quase tudo.
Nós costumamos levar 50 títulos a cada medição. Ao todo a turma tem 26 alunos. Recentemente a escola recebeu novos livros, o que aumentou a diversidade. Ou seja, quase não repetimos os títulos. Mas ainda assim não me pareceu estranho que ele já tivesse lido quase tudo.
Não era desculpa para não ler, afinal a gente já tinha comprovado o quanto ele gostava e embora, muito na dele, ele não me pareceu necessariamente um caso de timidez, era só a relação dele com a leitura. Uma relação mais individual que não tinha a necessidade de ser divida naquele momento.
O pensamento que tive foi: “esse silêncio um dia pode virar barulho”. Aquele “carinha” ali, fazendo o dele, sem a necessidade de ser notado, sem a necessidade da nossa intervenção.
Ele não lia para mostrar pra mim ou para minha colega o quanto ele era bom, ou interessado e participativo. E mesmo diante do nosso convite ele não sentiu a necessidade de demonstrar nada. Ele apenas fazia, a sua maneira, silencioso e solitário porque daquilo, me pareceu, ele gostava.
Pode ser que ele siga assim, sem querer notabilidade, sem mesmo querer fazer nada com o que muitos chamariam de “potencial”.  Mas pode ser que ele queira fazer coisas legais.
O importante é que a mediação cumpriu seu papel. Ele sabe que existe a possibilidade de ser notado por essa ação, mas ele também sabe que não tem a obrigação de realizar nada a partir dela. Pode ser ele e o livro, numa relação muito intima, sem compromisso com mais ninguém.



Livros sugeridos:

MACHADO, Maria Clara. O menino que espiava para dentro.

COLE, Babette. Mamãe nunca me contou.

PINTO, Ziraldo Alves. Flicts.

BRENMAN, Ilan. Telefone sem fio.



P.S. : Esses dois últimos títulos estão na “lista top 10” nas turmas onde mediamos J

Passando a bola



O que eu acho mais sutil e delicado na mediação é a construção da confiança. E confiança não é coisa fácil, mas é algo seguro. Confiança também não se constrói do dia pra noite, você tem que provar porque merece.
No quinto ano, nós temos um caso típico de “brigão”. A qualquer sinal de ameaça, ele está pronto em punhos para se defender. Vai constantemente a diretoria e brigar no recreio é de praxe. Fica correndo e mexendo com os outros alunos dentro da sala e está sempre sujo.
Na ultima mediação descobri que ele foi suspenso. Ele mesmo me contou, com um sorriso entre o orgulho e a desconfiança. Mas é ele o motivo de nosso maior orgulho (meu e da minha colega).
Quando percebi que ele era um dos que liderava a bagunça, entendi que não levaríamos a mediação a diante sem aquela força aliada. Ao terminar de ler para uma menina, pedi que as outras que estavam à espera aguardassem um pouco mais e fui conversar com ele.
No momento em que ele me viu indo na sua direção foi se afastando, tipo bicho acuado. Quanto mais eu chegava perto, mais ele se encolhia e se afastava. 
Então eu sentei numa cadeira e desatei a falar: “Espera, só quero conversar com você. Olha, já te disse que não é obrigado a fazer a leitura se não quiser. Se não gosta de ler não tem problema. Você também não é obrigado a ficar na sala. Se tem toda essa liberdade, porque ficar incomodando quem quer participar? Pra mim não é interessante ficar te mandando sentar, gritar com você ou te mandar para direção. O meu interesse é que você venha ler comigo”.
De acordo com o que eu ia falando, em tom baixo, no meio de toda aquela gritaria, o rapazinho foi se desarmando. Os ombros tensos e encolhidos foram ficando mais soltos e abertos, e mesmo com um sorriso irônico de quem pensava: “Ah ta, até parece que ela ta interessada no mais danado da sala” (erra exatamente isso que eu lia no rosto dele), ele ouviu tudo o que eu tinha para dizer.
Mas justamente quando eu pronuncie a frase “venha ler comigo”, fui interrompida por outro arteiro que chegou apontando, rindo e gritando que o outro não sabia ler.
Bem, como você deve imaginar, um afamado “brigão” não ouve isso e fica quieto. Ele foi defender sua “honra” e iniciou-se mais uma briga. Eu intervi e disse que não interessava se ele não sabia ler, ele podia aprender e de qualquer forma nós estávamos ali para ler para quem quisesse.
Ao fim da mediação eu reafirmei minhas palavras e falei que contaria com a ajuda dele na próxima mediação.
Bem, na outra semana, o menino que só ficava na porta, como alguém que almeja a liberdade fora das paredes, mas sabe que será penalizados se o fizer (não por nós, mas pela direção), estava calmamente sentado num canto da sala.
E ao primeiro chamado da minha colega ele não se recusou. Naquele dia ele ouviu varias histórias e não brigou com ninguém.
A sensação que tive foi de pertencer a um time de futebol. A minha parceira fez o gol, mas fui eu quem passou a bola. Portanto o título é nosso.
Aproveitando a metáfora, lembrei que a gente apelidou o menino de Neymar. Ele usa o mesmo topete amarelo-queimado. Eu acho uma dó porque ele tem o rosto lindo, mas o menino fica todo vaidoso quando a gente estabelece a comparação.
Bem, o nosso time ainda precisa de treino. Como eu disse no começo do post, o nosso Neymar levou cartão vermelho. Mas o jogador tem treinado bastante.
Ele continua agitado, mas suas ações estão mais discretas. Nos ouve quando pedimos que pare de bagunçar e sempre participa  da mediação quando convidamos.
Esse time de 26 jogadores do quinto ano e duas treinadoras (a coisa muitas vezes se inverte, rsrs) tem trabalhado arduamente. No jogo da mediação a grande vitória é realmente participar.

Livros sugeridos:

JEFFERS, Oliver. Como pegar uma estrela.

WOOD, Audrey. A casa sonolenta.


PRESCOTT, Simon. Numa noite muito, muito escura.


GOMES, Alexandre de Castro. Condomínio dos monstros.