Um triângulo, uma zabumba, um coração forrozeiro




Não sei dizer como aprendi a dançar forró. Romantizaria, foi instintivo.  Aqui se tem um genuíno caso de amor.


É quase como um sinal, uma deixa, como uma espécie de botãozinho que aciona o corpo. Basta a primeira batida do triângulo, pra ver despontar um sorriso daqueles de orelha a orelha, instantaneamente acompanhado de um balançar frenético do pé .


E é tamanha a alegria que esse som desperta ... O coração se enche...uma corrente de ar entra pelos pulmões, expande o peito, dá 
um fio na barriga e até arrepia.

E o som vai se complementando com a introdução da sanfona e da zabumba encerrando o triângulo amoroso


Daí o corpo não aguenta, fica numa querência, quer danar... e  facim vai  cedendo ao chamego do  pé de serra.


É no giro que roda a saia da moça, é no bate coxa, no arrasta chinelo, no levanta poeira, na cafungada no cangote que o suor se confunde de tanto que os corpos se ajuntam.


O galpão vai esquentando, o suor vai escorrendo, o cabelo vai colado na pele preguenta. E alguém liga?


Categoricamente: quem não tem apreço pelo forró!


É pra dar calo nos pés e não sentir mais nem os joelhos. É pra ficar com sede do sal que saboriza a pele.


Deixa molhar a roupa com essa água que lava a alma, sai pelos poros e banha o corpo...


Deixa o menino te juntar, mexe mansinho, sente a respiração, divide o rebolado, se deixa levar pela sensualidade do movimento...
Ou se quiser abre a roda, cria espaço no salão apertado, vai se movendo entre a gente.
Tem coisa mais gostosa?
Tem não!
Ê lindeza!


Outro dia fui ao teatro assistir o espetáculo “Acorda Zé, a comadre tá de pé”, uma representação de contos criados a partir de personagens do imaginário popular brasileiro.  
Como admiradora confessa que sou da minha cultura, estava completamente tomada pela peça.


Naquele dia eu já tinha ganhado a noite. Mas não bastasse o meu contentamento, para finalizar o espetáculo, os atores, trocados e devidamente caracterizados com chinelos e vestes de chita, entraram empunhados cada um de um instrumento, reproduzindo meu gênero musical favorito. E adivinha quem se precipitou?


O triângulo!


Já fazia algum tempo que não nos encontrávamos. Não contive as lágrimas, mas disfarcei.  O amigo, sentado a meu lado, me olhou e deu um sorriso como quem compreendesse minha emoção sincera e legitimasse minha reação pouco esperada.



A moça bonita do triangulo satisfez-se com a espectadora apaixonada, mas eu preferi a atenção do tocador de pandeiro que me fez lembrar um certo tocador de zabumba que assisti em Portugal. Moço alto, esguio, de dreads, denunciava minha queda pelos bichos-grilos. De Floripa, acho que era surfista também. 

Desde então nenhuma zabumba me passa despercebida. Graças ao zabumbeiro , o espaço que era só do triângulo teve que achar lugar para mais um instrumento nesse coração forrozeiro.




       Em "Beijo matador" a presença do triângulo é  facilmente percebida

                          "Eu fui dançar um baile na casa da Gabriela
                                       Nunca vi coisa tão boa
                                       Foi na base da chinela"

Hoje tirei sua foto do mural

                                                                            

"Eu morro ontem
 Nasço amanhã
 Ando onde há espaço
 Meu tempo é quando"
(Poética IVinicius de Moraes) 


Ontem consegui terminar aquele livro, cuja leitura só se prolongava. Não porque ele fosse desinteressante, muito pelo contrário. Às vezes até pensava: ”quando terei outra leitura tão instigante?”. Mas porque o momento não despertava desejo pela leitura. 
Eu não desejava a quietude e o isolamento necessários para concentração que dispenso aos livros.
Só depois de quase dois meses alterei o local onde moro no perfil de uma rede social. Não por desatenção ou esquecimento. Mas porque eu ainda me sentia lá. Porque o aqui ainda estava se “resignificando” e era com lá que me sentia confortável.

Hoje eu resolvi tirar sua foto do mural porque somente agora, depois de quase dois anos eu senti que ela deveria sair dali. Não porque eu tenha te esquecido ou te substituído, mas porque eu precisava dar espaço para novas fotos. Não, ninguém tomou o seu lugar. Mesmo sem uma imagem que me lembre diariamente o seu rosto, mais que isso, sua significância na minha vida, você está presente de uma forma muito mais nítida e persistente, na minha memória.
E isso não tem nada a ver com o fato de você ainda virar a cara pra mim e dispensar contato direto, o que denuncia que você não me é indiferente e que de alguma forma eu ainda estou presente na sua vida, mesmo que seja na sua raiva ou magoa.
Não é por isso, não é por isso mesmo. Porque desde que nos afastamos você optou por esse comportamento, e sua foto permaneceu no meu mural, aquele pouco acima da minha cama, onde eu relembro as pessoas que me são importantes.
Você não deixou de ser importante, você apenas não me quis mais na sua vida e eu parei de tentar entrar nela novamente. Eu achei que o tempo e a distância fariam você ver as coisas de outro modo. Talvez tenham feito só não da maneira que eu esperava. Então eu entendi que esse tempo tinha feito algo por mim também. Tinha me feito perceber que não tem que ser você a me deixar entrar, mas talvez eu é que tenha que parar de esperar a porta abrir. E a solução pra isso não é forçar a entrada, é simplesmente sair.
Por um respeito crescente que eu tenho alimentado por mim, eu tenho permitido que as situações levem o tempo que necessitarem para serem resolvidas (dentro de mim). Eu aprendi a me dar esse tempo, tempo esse que não é de ninguém, nem meu. Porque nem eu ou qualquer outra pessoa tem esse controle.
Não se trata do que os outros esperam de mim, de como eles esperam que eu haja e muito menos da pressão que eu fizer sobre mim mesma para mudar a situação. As coisas vão levar o tempo que tiverem que levar para serem alteradas. Isso não quer dizer que eu aceite passivamente o desencadeamento dos acontecimentos, quer dizer apenas que eu farei o que estiver ao meu alcance, mas saberei aceitar o que independe de mim.
Também só agora consegui colocar novas fotos no espaço que havia ficado vazio por um tempo. Não por falta de tempo para revelá-las, mas for falta de vontade em revisitar minha saudade.
Não era só sua imagem que estava ausente ao meu lado na cama. Eram as memórias que ainda estavam muito vivas em mim.
Desde a minha volta, não havia sequer recolocado as fotos antigas no lugar, aquelas que me haviam feito companhia enquanto estava longe.
Eu estava esperando ficar a vontade com essa vontade. Eu esperava ter vontade.
Então eu esperei. Eu esperaria o tempo que o coração pedisse. Ele levou quase dois anos para deixar você desocupar aquele espaço de 10x15 cm. E quando eu quis repor as memórias no lugar, a sua foto saiu, dando espaço para novas fotos no mural. Só daí eu pude dar passagem as nossas vidas que seguiam.

                            "Ainda assim acredito
                           Ser possível reunirmo-nos
                           Tempo tempo tempo tempo
                           Num outro nível de vínculo
                           Tempo tempo tempo tempo..."

Era uma vez dezoito cafés...


Ontem enquanto eu tentava dormir me vinham a mente umas frases bem boas para a construção de um novo post, mas o meu cansaço  me lembrava que hoje eu levantaria cedo e que não era um bom negócio sair da cama  para registrar aquelas idéias.
Resultado: passei parte da tarde de hoje me remoendo porque não lembrava uma linha, aliás, não lembrava nem do que se tratava.
Ás cinco saí para minha caminhada habitual e apesar do meu cansaço nos últimos dias, hoje até que estava bem disposta. O que não durou muito tempo...
Um 3#$%&o de um motorista de ônibus resolveu passar com seu pequeno veículo numa poça gigantesca espirrando água suja em todo mundo que estava ali. Entenda-se: EU!
Mentalmente eu o xinguei das coisas mais cabeludas, mas só mentalmente, afinal eu sou uma ladie ( e nem eram coisas tão cabeludas assim).
O fato é que para canalizar aquela puta raiva, a caminhada virou corrida. E enquanto eu corria um tanto molhada e provavelmente descabelada eis que ouço uma senhora buzinada, mas daquelas clássicas, seguida de um mais clássico ainda “opaaa!”
Bazinga! Eu lembrei sobre o que eu queria escrever. Era justamente sobre essa abordagem tão sutil dos brasileiros.
E parece que uma coisa atrai a outra. Depois da buzinada veio uma seqüência de “que saúde”, “oh lá em casa” e todo aquele repertório vencido que a gente já conhece.

De rilux ao pau de arara, eu tava agradando a todos os gostos. Um motoqueiro com toda sua discrição seguiu boa parte do trajeto olhando pra trás. E eu numa torcida danada pra que ele caísse, só pra poder dar umas boas risadas. ( Quão medíocre e humano tem de ser o ser pra se vangloriar com essas ninharias?)
Bom, mas o que isso tem a ver com a história dos cafés?
Reza a lenda entre uns brasileiros habitantes em Portugal, que para que um português atinja seus objetivos como uma rapariga, leva-se em torno de 18 cafezinhos, ou seja, 18 encontros, aparentemente desinteressados (aham, tá!).

Talvez isso explique porque é tão raro ver brasileiros com portuguesas e o inverso não seja verdadeiro.
Nossos moçoilos acostumados com as máximas do “dá ou desce”, “já é ou já era” e por ai vai, não têm muita paciência e muito menos interesse em empenhar tanto esforço por um beijo (é, porque até chegar nos finalmentes, bota café na conta). 



Bom, eu que bebo dessa mesma fonte desde sempre, pude justamente, embasada em experiências próprias, refutar essa tese.
Como diziam alguns : “nem de café eu gosto!”
A fama de lentos que muitas brasileiras atribuem aos portugueses reside na prática do galanteio que ainda resiste naquelas bandas. Mandar mensagens, ligar, insistir também fazem parte do pacote. Numa cultura aparentemente conservadora, a iniciativa ainda é do homem.
Mas para as intercambistas desinteressadas em prolongar o desfecho, investir no ritual não parece um bom negocio.
É que em Portugal ainda não entrou em desuso um ”Oi, tudo bem, qual seu nome?”. Estabelecer minimamente uma conversa antes do contato físico ainda é uma prática. Mas não se enganem meninas, a fórmula é a mesma só muda a aplicação.
Essa abordagem menos agressiva não significa de modo algum a ausência de segundas intenções (yes!) e ao mínimo sinal eles captam a vossa mensagem. Ok, nem sempre o entendimento é tão rápido e os sinais são assim tão mínimos (às vezes tem que ser do tipo “super diretas”). O fato é que os rapazes aprendem rápido o caminho das pedras ;).
E sinceramente esse papo que os “Manueis” são lentos é super furado. Alguns são até bem abusados .
A brasileira que se incomoda com aquele sonoro “gostosaaaaaaaaaa” não deve revelar sua nacionalidade, porque para muitos bigodudos os vocábulos são sinônimos.
E aquele irritante psiu do brasileiro? Os portugueses têm um tosquíssimo beijinho ¬¬.  É, eles mandam beijinhos, como se a gente fosse um bando de éguas. Sério, a associação é inevitável na minha cabeça. Enfim, tem abordagem ruim aqui e em Portugal, claro.



Mas essa desdenha que a gente insiste em manter por essas ridículas demonstrações de interesse do sexo oposto, leia-se: cantadas mal elaboradas/ pouquíssimo criativas, muitas vezes só esconde o nosso ego sorridente que se diverte quando essas bobagens não são grosseiras.

Voltando a desmistificação do legado do cafezinho é bom reforçar que nem todo tuga é lento e nem toda tuga é difícil, e muito menos, nem todo brasileiro é direto e nem toda brasileira é fácil.
E pra mim cafezinho ou caipirinha estão valendo, desde que não fique nisso por 18 vezes, coisa que no meu caso não passa de história.

No prazer da própria companhia



Eu sei que o título sugeri uma perspectiva individualista, mas longe da autora que os fala levantar a bandeira da solidão.
Tem uma crônica do Jabor que gosto muito, chamada “Relacionamentos”, que inclusive já citei uma outra vez, em que ele pergunta: Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?”. Ele está se referindo as pessoas que pulam de relação em relação, sem intervalo. Não é bem sobre isso que quero falar, mas recontextualizei a frase porque gosto muito desse pensamento.
Até os 19 anos, eu morei com a minha família, nunca tinha mudado nem de casa na mesma rua. Meus pais achavam que eu ia definhar de tristeza quando me mudasse pra Palmas, onde seria eu e eu mesma. Isso não aconteceu, pelo contrário.
Dois anos depois eu tive a oportunidade de viver a experiência oposta: morar com muita gente. Daí fui eu que questionei minha capacidade de adaptação de tão acostumada que estava a ter o meu espaço.
Bem, a convivência com outras pessoas super funcionou. Durante quase 1 ano eu dividi quarto, banheiro, cozinha, segredos, choro, raiva e tudo que tudo que a convivência partilhada possibilita. 
E nessa espécie de pingue pongue que tem sido a minha vida, aqui estou eu de novo sozinha, no espaço de um quarto-cozinha que muito bem me cabe.
Ficar sozinha nunca foi um problema.  Eu sempre gostei de ter tempo para as minhas coisas. De poder curtir meus momentos sem ficar preocupada se estou desagradando outra pessoa. Ok, até aqui nenhuma novidade, esse é o lema de quem está só.
O que eu quero dizer é que não engrosso o coro dos solitários, até porque eu não me sinto assim. Só acho que pode ser extremante prazeroso desfrutar da própria companhia.

Ontem mesmo eu fiz isso. Tinha um filme francês em cartaz que eu estava super a fim de ver, mas a sessão era as 14h00, numa segunda - feira. Ou seja, bons motivos para que o meu convite fosse recusado. Como eu estava bem interessada no filme e pouco interessada em desculpas, atrasos e questionamentos sobre a minha escolha, suprimi convites e fui sozinha.

Cheguei 15 minutos antes do inicio do filme. Com calma comprei meu bilhete e entrei na sala que como era de se supor não estava cheia, mas tinha mais gente do que eu imaginava.
Escolhi a poltrona quase na ultima fila, bem no meio, onde eu tinha a sensação de que a tela era toda minha. Muito a vontade me reclinei na cadeira e fiquei curtindo as músicas de fundo que rolavam enquanto o filme não começa.


Quando Audrey Tautou finalmente entrou em cena com aquele francês de que eu andava saudosa, a minha alma sorriu e tive a certeza de que teria uma tarde linda na companhia daqueles estranhos distribuídos espaçadamente entre as fileiras.





Ah eu adoro me fazer esses dengos...

Coisas rotineiras que podem ganhar um sabor adocicado, do tipo acender um incenso e colocar uma musica baixinha (eu vou no intimismo de  Camelo) enquanto tomo aquele banho demorado que lava a alma; Fechar todas as cortinas, sem deixar que nenhum fresta de luz penetre, ir pra baixo das cobertas e assistir minha série favorita no meio da tarde; Pipoca/brigadeiro em dia de chuva; Chocolate e maquiagem a qualquer hora que bater tristeza.
Eu me conquisto diariamente, um verdadeiro romance narcizico, hehe.

Não se engane, eu sou mesmo uma eterna apaixonada e por isso preciso desse encantamento diário, mesmo que esteja sozinha. De forma alguma acho companhia dispensável. Pelo contrário, as coisas ganham outras cores quando divididas e mesmo morando só, eu estou sempre entre os amigos que impedem a solidão uns dos outros.Mas estar sozinho não significa solidão ou individualismo e só mais uma opção de companhia, a própria.