“É uma canção de mágoa...”


Foi o que você disse.



E num pedido de desculpa, entoando a canção, a letra não poderia ter feito mais sentido. Como escolhida a dedo, muito provavelmente tenha sido intencional, cada palavra ecoava  em mim como aquela mágoa que você percebia na música.
Voz e violão, num falso sotaque brasileiro me atravessavam como teu modo de olhar dissimuladamente arrependido. Talvez não dissimulado, mas desconfiado.
Era mesmo uma música de mágoa que fazia com que eu sentisse ainda mais viva a minha. Mas diferente da raiva que essa escolha poderia provocar, intencionalmente ou não, você acertou.
Tenho aqui uns pensamentos maldosos que me fazem crer que foste astuto ao meter o dedo na ferida, quase como se soubesse desse meu gosto pela dor escancarada. E irreversivelmente eu aceitei tua intenção de desculpa já sem resistência.
Acho que minha percepção ainda não tinha dado vez a essa letra. Nunca tinha atentado para o sentido daquelas palavras. Até aquele momento elas não tinham feito sentido pra mim.
Mas hoje quando escuto as teclas do piano  ou as cordas do violão introduzindo a música, sou remetida aquela cena, a sua feição e a minha sensação. Aquele gosto azedo de tristeza, de algo que havia azedado em nós e que o nó na garganta não deixava engolir e inevitavelmente me recordo da tua constatação óbvia, a qual eu não tinha percebido. Desde então essa tem sido mesmo uma canção de mágoa.