Para não dizer que não falei de saudade



Ontem eu sonhei com Veneza. Veneza no verão. E acordei pensando em como a beleza desse lugar deveria ser ainda mais surreal nessa estação.
A minha passagem por esse lugar foi num dia chuvoso de inverno com direito a “enchente”. Nem eu nem os meus três colegas de viagem estávamos preparados. Sem galochas ou guarda-chuvas ficamos ensopados e com frio, mas nem isso foi suficiente para quebrar o encanto desse lugar.
Foi um sonho no meio tarde, depois que eu adormeci no sofá enquanto assistia mais uma série qualquer no note. Mas as noites não são diferentes. Basta dormir para sonhar e depois acordar com aquela sensação estranha de realidade.
Por essas reações eu realmente não esperava. Nem passava pela minha cabeça que a falta fosse ser tamanha a ponto do meu subconsciente se manifestar diariamente.
Eu estava pronta para lidar com o que eu tinha imaginado, com a falta que eu tinha suposto. Por que afinal de contas era natural (e esperado) sentir falta da rotina que tinha em Braga, das viagens, das amizades, do Xuxu, enfim de tudo que eu vivi durante quase um ano como intercambista. E para essa falta eu já estava preparada. Na minha cabecinha eu sentiria falta de tudo isso durante os primeiros dias, talvez nos primeiros 2 meses, mas o que nem não imaginava era sentir tamanha saudade. Por que saudade sim, saudade é algo maior que te sufoca, que te consome, que anda com você pra onde você for. É, parece clichê. Deve ser mesmo, mas eu não tenho problema algum com lugar comum.
E saudade pra mim é tudo isso, chega a ser físico. Doe, doe fisicamente. Me dá dor de cabeça, me causa ansiedade e deixa meus ombros tensos e minhas pernas tremulas naquele balançar constante. Me causa até enjôo e claro, muita vontade de chorar.
Sorte minha que consigo chorar e aliviar um pouco dessa tensão. Quer ver sofrimento quando o sentimento fica ali preso no peito, sufocando, prendendo a respiração. Ah não, isso não é pra mim, não mesmo. Olha eu aqui depois de chorar algumas vezes escrevendo esse texto com carga altamente dramática pra ver se tiro um pouco dessa angustia de dentro de mim. Eu e a minha necessidade de expulsar os sentimentos...
Eu tenho uma relação recorrente com saudade. Já senti muita saudade algumas vezes e ainda não ficou mais fácil. Acho que nunca fica. Só a forma como lidamos é que muda.
Pessoas que eu queria muito que ficassem já foram e eu já tive que ir mesmo querendo muito ficar. E o sentimento não é diferente. Essa história de que pra quem fica é sempre mais difícil, não me convence mais. Eu já fui e eu já fiquei e a saudade tem sempre a mesma proporção, é tamanho extra G. Dói pra caramba nos dois casos.
Me mata  essa coisa de não poder ter vivido, de ficar naquela “poxa, se a gente tivesse mais tempo”, “ficarão as boas lembranças”. Ta ok, nem tudo é como a gente quer e encarar dessa forma é mesmo infantil. Mas pra mim é realmente um esforço tremendo lidar com essa situação. Aceitar que eu não pude esgotar minhas possibilidades, que eu tive que sair no melhor da festa. Porra, que saco! E deve se um saco mesmo pra todo mundo que passa por isso. Mas a gente tem que ser grande né, e pra não ficar nesse ciclo a vida inteira, sempre reclamando do que não pode ser é que eu escreve e desafabo um pouco desse inconformismo que precisa de argumento diários pra entende que a situação é essa e que não dá pra fazer muita coisa. Então o pouco que dá eu vou fazendo. Entenda-se: chorar quando der vontade e escrever quantas vezes forem necessárias sobre essa saudade.

    Me escreva uma carta sem remetente
    Só o necessário e se está contente
   Tente lembrar quais eram os planos
   Se nada mudou com o passar dos anos
 

  Não se admire se um dia
  Um beija-flor invadir
  A porta da tua casa
  Te der um beijo e partir
  Fui eu que mandei o beijo
  Que é pra matar meu desejo
  Faz tempo que eu não te vejo
  Ai que saudade de ocê
 


Te chamo Saudade


Saudade* é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música* popular, "saudade", só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor."
*Saudade: Você
*Música: Você

Te chamo saudade porque assim “se apresenta”, porque assim significa. Se apresenta em forma de saudade e significa saudade quando se vai. Quando vai longe. Longe de mim.
É saudade quando penso em você. É saudade quando escuto uma música.É saudades nos beijos. Beijos com gosto de saudade. Tua fala fala saudade porque eu escuto saudade. Olho pra você e vejo saudade. Meus olhos de saudade. Eu ou você? Já nem sei quem é saudade...
Você saudade. Eu saudosa. Minha saudade...

Saudade antes como a música do Caetano:

“Antes de você chegar 
era tudo saudade “
(Sou Você,Caetano Veloso)

Saudade agora enquanto escrevo esse texto.

E depois? É só o que vai ser, é só o que vai ficar.

Saudade, saudade, saudade...repetidas vezes saudade.
Um mar de saudade como eu costumo brincar. Mar para expressar a dimensão porque na verdade é um oceano.Um oceano de distância.

“Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão”

O caminho agora é inverso. É o sentimento de uma brasileira em sua terra, longe da terra do outro, longe da sua saudade. A saudade de depois.
É saudade assim grande, exagerada, precipitada como a autora que vos escreve. Não se assuste. É só meu tamanho pedindo pra sair.  Sou só eu como você conhece querendo falar. Querendo tirar de dentro tudo que não foi expresso. Não espero mais que saudade.
 “Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A gênese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana*.”

*Marítima lusitana: mar de saudade do luso

Viu? Você + saudade em tudo. Tudo que leio. Tudo que escrevo.
Mas a saudade não é necessariamente de quem espera. Quem parte leva um peito cheio desse sentimento tão fácil de sentir e tão difícil de explicar. E eu ainda nem parti* e já antecipo essa “falta”, essa “perda”, essa “solidão” e todas as palavras associadas a você, minha saudade.

* O texto começou a ser redigido antes do meu retorno ao Brasil.

E eu não imaginaria esse encontro comigo mesma em terras tão distantes. Porque assim como te escrevi no cartão, com você eu me aproximei dos meus gostos, gostos esses que pude partilhar contigo.
E quanta saudade você me causa...
Tua herança?Deixaste em mim essa tua vontade de conhecer, essa tua inquietude por descobrir e essa tua disposição por viver, perseguir o novo.  Em contrapartida essa calmaria que me tranqulizava e irritava ao mesmo tempo.
Contigo pratiquei o exercício diário da paciência que pra mim parecia mais um teste de resistência. Contigo optei por aceitar (algo muito difícil pra mim) o teu tempo. Porque para ti nada era precipitação, nada além da tua vontade, nada que não quisesse, quando não quisesse. O que sempre me deixava em dúvida porque eu não sabia se isso era excesso de individualismo ou respeito para consigo mesmo. Acho que era um pouco dos dois.
Se por um lado eu admirava essa capacidade de dizer não para as coisas que não lhe agradavam fazer (porque eu tenho muito disso) por outro me chateava o que pra mim era a tua incapacidade em ceder, a tua incapacidade de troca, a tua incapacidade de perceber essas minhas vontades gritantes. Mas ainda assim eu quis ficar. Apesar de toda a raiva, de toda a ansiedade, de todo o inconformismo e auto crítica que você despertava em mim mesma.
Por muitas vezes eu raciocinei em agir de modo contrário, do modo que eu acreditava ser acertado ou menos angustiante. Mas a verdade é que sobre assuntos “do coração” eu dou a voz ao coração. E assim eu ficava e assim eu quis ficar contigo a cada dia, todos os dias. Eu quis que a gente melhorasse junto.
Eu tentei te fazer perceber o que eu queria. Eu te disse. E quase nunca você percebeu. E às vezes você fez quando eu pedi. Eu tentei respeitar teu jeito sem me desrespeitar porque eu sei que tendo a ser ansiosa.
Ai meu tuga, que saudade...
E de ti eu morri de ciúmes e não tive vontade de esconder. E tantas vezes devo ter alimentado o teu ego...
E eu quis te encher com meu carinho, com meus beijos incessantes (uma beijoqueira compulsiva) com os meus abraços, com meu grude. Você assim pouco habituado a esses excessos. E mesmo quando dormia intacto, quase paralisado ou virava de costas, tinha meus beijos, meus abraços, meu grude.
Mesmo quando teu sono profundo e teu corpo imóvel não te permitiam corresponder e me irritavam. Mesmo assim tinham meu carinho porque eu não queria deixar de te dar isso, eu não queria ficar com raiva de você. No fim eu aceitava a tua “pouca retribuição”.
A tua mão sobre a minha durante o sono... Aquele era o sinal que eu esperava para voltar a te abraçar e adormecer colada a você.


E eu me conformava com esse pouco? Não eu nunca me conformo com o pouco. Eu sempre reclamava por mais. Mas dessa parte eu não gostava. Eu não gostava de reclamar tua atenção. E eu te culpava por isso.
A Maiara dizia que você não fazia por mal, que você provavelmente nem se dava conta das tantas coisas que eu queria. Eu dava alguma razão a ela, mas nunca quis acreditar nisso de verdade. 


Você me enchia de alegria com esse bom humor, com esse sorriso quase constante, com a tua música. E me causava admiração.
E como eu te acho bonito e como eu te desejava. E meus olhos denunciavam isso e minha vontade de te beijar também. Que corpo, que sorriso. Ah e a barba... a barba é um clássico, haha.
Eu ainda sinto muito a tua falta, diariamente. E ainda lembro de tudo com muita precisão e faço um trabalho diário de convencimento sobre a nossa condição.
Entender que eu tenho que aceitar a distância não nos possibilitar esperar nada além do que tivemos me causa tristeza. Entender que o sentimento tem que se transformar, tem que ficar ameno pra que eu ainda possa falar com você sem angustia e sem  vontade de chorar, porque claro e não podia ser diferente, como uma sentimental declarada que eu sou, eu choro.
E te conto, te conto com detalhes como eu sempre fiz, sobre tudo que sinto e senti para que você não tenha dúvidas.
Sabe meu Xuxu, mesmo sabendo que nós tínhamos esse tempinho contado eu não me negaria ter vivido tudo isso com você. Mesmo sabendo que eu sentiria tanta saudade, porque essa sim era a certeza que eu tinha.  As pessoas comentam: “voltar apaixonada é tão ruim né?” É, é horrível não poder viver isso, mas mais triste seria não ter me permitido isso.  E eu fico muito feliz porque quisemos isso.
Porque você vai ser essa lembrança, essa saudade, essa vontade reprimida do que não foi. E eu fiquei aqui querendo mais e agora busco argumentos pra me convencer de que é assim, é o que é e eu tenho que aceitar.
Foi esse meu crescimento. Eu sempre tive dificuldade em aceitar o que não é da minha vontade. Pois é, você também foi crescimento pra mim. Você foi escolha. O que não foi da minha escolha foi você ser o que há de mais presente agora: saudade... minha saudade...

Sempre lembro de você quando ouço essa música:

"Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho"
 E para não esquecer :

"Coisa mais bonita é você,
Assim,
Justinho você
Eu juro,eu não sei porque você"
( Coisa mais linda, Caetano Veloso)