Interesse tardio


Sabe o famoso, infantil, babaca e irritante “dar valor quando perde”. Um clássico né minha gente. Você, eu e todo mundo já passou por essa situação.
Porque é tão difícil perceber ainda no relacionamento que às vezes é preciso pouco para satisfazer o outro. Ok, talvez não seja pouco, talvez o outro é que ache isso e para você seja um sacrifício fazer o mínimo que seja.
Mas se é assim porque alimentar isso? Para alimentar o próprio ego? Porque você sozinho na frente de um espelho não é capaz de se convencer que é bom o suficiente para conseguir alguém de quem goste de verdade. Porque mais vale a comodidade de ter alguém que te valorize, que se encante pelo seu mundo, que queira fazer parte dele. Alguém por quem você não está interessado em fazer o mesmo.
Sabe aquela pessoa que está “por” você? Ela não está ali “para” você!!!! Ela não está ali a sua disposição. Ok, ela pode até demonstrar isso por um tempo, mas acredite ela vai cansar de estar na relação sozinha. Porque toda relação tem que ser uma via de mão dupla.
Mensagens sem respostas, encontros onde ele/ ela não aparece. E você que acreditava nas desculpas furadas do tipo “estava doente” (porque afinal quando você está doente e não faz mais nada além de ficar em repouso ironicamente fica sem tempo pra mandar uma mensagem), ”esqueci meu celular no natal no carro e de um amigo e só o recuperei agora” (o.O, claro isso é super comum, acontece comigo, com você e com todo mundo a todo momento) “dormi” (essa é o cumulo do descaso. Como você combina de ver alguém e dorme?) “tenho que ir mais cedo porque vou jantar com a minha mãe” (afinal com um bom “filho da mãe” que você é, nada mais justo).
Nossa, quantas vezes você já viu a mesma cena se repetir e pensou. ““Calma dessa vez pode ser diferente, afinal estou num momento diferente, com uma pessoa diferente” ou” cada caso é um caso” ? Todas as reflexões motivacionais que fazem você sempre repetir o erro. Antes você tivesse seguido a intuição ou melhor, fizesse valer a experiência acumulada de outras relações. Mas não, você não quer deixar que as experiências passadas atrapalhem a sua percepção do presente. E aí você tenta, tenta e tenta mais um pouco até não ter mais saco. Até querer mandar o fulano(a) pra pqp!
A gente fica tentando se convencer de que as coisas não são o que parecem até acontecer aquilo que eu chamo de “click” ou “estalo”, aquele momento em que você se da conta de que não precisa mais passar por isso e que nada disso vai te fazer falta, porque o desgosto ta superando a satisfação e não tem mais sentido continuar.
Aí você finalmente se enxerga e se lembra que você não deve se valorizar segundo o valor do outro e lembra mais ainda, você está nessa situação porque quer. Sabe aquele ditado “os incomodados que se retirem?” Pois é, você está incomodado, você se retira.
Súbita e inexplicavelmente a outra pessoa descobre em você um interesse nunca visto antes. Pior, nunca demonstrado antes. Antes quando você estava lá à espera de qualquer retorno, quando ela foi incapaz de perceber que você queria mais dedicação. Quando isso para você era o mínimo e para ela era um sacrifício
Daí quando você estiver restabelecido da decepção, autônomo, consciente do ser interessante que você é, que suas qualidades podem atrair outras pessoas e que seus defeitos podem ser relevados por elas, nesse momento, nesse justinho momento aquele indivíduo que nunca achou isso até então vai começar a ver isso mais que todos os outros. E vai te procurar e fazer a cena patética de insistir apesar dos seus decididos “nãos”. Vai te cercar por todos os lados e fazer aquela cara de cão sem dono que antes te comovia e agora te irrita.
Não, eu não acho graça nisso. Eu não sinto prazer em dar o troco (talvez lá no fundinho meu ego até sorria). Na verdade eu acho essa situação um pé no saco. Porra a pessoa testou sua paciência até dizer chega, você ficou magoado até a magoa virar raiva, superou (porque a gente sempre supera), tá numa boa e ainda tem que aturar criancice. Sim, porque esse interesse tardio pra mim nem interesse de verdade é. É só a atitude infantil de alguém que estava acostumado a ter o ego massageado e perdeu isso.
Mas sabe o melhor, raiva e magoa também viram indiferença. Então para que esperar o outro perder o interesse para se interessar?


"Ela disse adeus" Os Paralamas do sucesso. Letra oportuna e clipe divertido:
http://www.youtube.com/watch?v=WnYSgN3ODAY

Outro dia li esse texto da Martha Medeiros que ilustra bem a situação.

Amores Apertados

Sabe aqueles banheiros mínimos, que quando um entra o outro tem que sair? Tem amores que parecem um banheiro apertado: só cabe um. Ela ama o cara. Interessa-se pela sua vida, seu trabalho, seus estudos, seu esporte, seus amigos, sua família, enfim, ela está inteira na dele. Ele, por sua vez, recebe isso de muito bom grado mas não retribui. Não pergunta pelo trabalho dela, pelas angústias dela, por nada que lhe diga respeito. Ela, obviamente, não gosta desta situação, mas vai levando, levando, levando, até que um belo dia sua paciência se esgota e ela tira o time de campo. Aí ele entra. De repente, como num passe de mágica, ele se dá conta de como ela é legal, de como ele tem sido distante, de como vai ser duro ficar sem a sua menina. Então ele a torpedeia com e-mails e telefonemas carinhosos. Mas ela é gata escaldada, não vai entrar nessa de novo. Ele insiste. Quer vê-la, quer que ela entenda que ele é desse jeito tosco mesmo, mas que no fundo ela é a mulher da vida dele. Ela é gata escaldada mas não é de gelo: então tá, vamos tentar de novo. Ela entra com tudo. Com a namorada resgatada, ele se isola novamente em seu próprio mundo, deixando-a conduzir tudo sozinha. É ela quem o procura, é ela que o elogia, é ela que arma os programas, é ela que lembra das datas, é ela, tudo ela, só ela. Quer saber: tô fora! Aí ele entra. Pô, gata, prometo, juro, ó: vou cobrir você de carinho. E não é que ele cumpre? Passa a tratá-la como uma deusa, superatencioso, parece outro homem. Ela aceita a deferência, mas não entra mais nesse jogo. Simplesmente não retribui o afeto dele, quase nunca telefona, sai com as amigas toda hora, e ele ali, no maior esforço. Ela esnobando, ele tentando, ela se fazendo, ele se declarando. Até que ele enche: tô fora. Aí ela entra. E ele esfria, e ela cai fora, e ele volta, e seguem neste entra-e-sai até o desgaste total. Bom mesmo é amor em que cabem os dois juntos.