Eu já tive um michê


Era uma vez um cara. Era vez uma garota. Era uma vez várias garotas. Ok, essa não é nem de longe uma história de conto de fadas, talvez um conto moderno, se você preferir e gostar (vai saber).
A história também não é nova, aliás, deve até ser bem comum e como me traz lembranças agradáveis resolvi contar.
Ah o tal michê... Típico “garoto pavão” como dizia uma amiga minha. Aquele que chega na balada cheio de si, peito estufado, sorrisos e ares maliciosos. Quem será a da vez?
É bonito.  Alto, ombros largos, pele clara, cabelos escuros (adoro esse contraste) e uma carinha de neném que quem não conhece até compra. O pior é que a fama não deixa, ele já é conhecido da mulherada. 
Conhecido e dividido entre elas. Afinal o garoto tem lá seus “talentos”, tem potencial como costumo brincar com as minhas amigas.  Ele faz o trabalho tão bem feitinho que as meninas nem se importam em revezá-lo. E ainda trocam experiências, debatem táticas e lugares preferidos pelo moçoilo. Já se cogitou até abrir uma comunidade no Orkut para o debate. Poderiam ser criados fóruns de discussão onde não só experiências seriam partilhadas como também dicas para as futuras “candidatas”.
Talvez você esteja surpreso com essas palavras vindas de mim. Não pelo descaramento, porque você já sabe que eu tenho, mas por essa manutenção de estereótipos do tipo homem-objeto, mulheres que se sujeitam a dividir um    “gostosão-bam-bam-bam”. Mas vá lá, me dê um desconto, quem nunca passou por isso ( não sabe o que está perdendo) que atire a primeira pedra. Ah ta bom, talvez você não tenha passado por isso. “Deus me livre uma coisa dessa!”. “ E eu lá sou mulher disso?!”. Ok, se você diz eu até acredito. Mas quero deixar bem claro que nessa história não há vítimas. Todos e principalmente todas estavam muito cientes do funcionamento do sistema e sempre pareceram de comum acordo. Se houve ciúmes tava tudo muito bem disfarçado.
Portanto o meu discurso de mulher independente ( que nem sempre me favorece ou faço questão de usar) cabe no sentido em que havia várias mulheres conscientes da condição e ainda assim resolveram aceitar. Isso se chama escolha. Sem choro nem vela, sem vitimas ou culpados, ninguém estava obrigado nessa situação e muito menos incomodado pelo que eu me lembro.
Bem, mas não vou só encher a bola do nosso pavão porque afinal ele não era tudo isso. É o que popularmente se convencionou chamar de “O tipo certo de cara errado”.  Mas a esperteza desse malandro tem deixado a desejar. Poxa, o cara não inova nas  conquistas. São sempre as mesmas cantadas, as mesmas mentiras, os mesmo lugares. O rapaz esquece que a mulherada se comunica. Pelo menos ele se garante no que sabe fazer de melhor. Aiai...(pausa pra respirar)bons tempos... que talento heim meu filho?! Opa, voltando,cadê a concentração Gabriela?
Então, como eu dizia, o moço tinha/tem (não sei, faz um tempinho que não confiro) uma boa pegada. E daí quando tem isso cabô né minha gente? Até entendermos que focinho de porco não é tomada leva um tempinho, trocando em miúdos, até percebermos que esta relação leviana não vai dar em nada, a gente tem eu ter quebrado muito a cara.
Bem, mas o título do post afirma que fui eu que tive um michê, embora o texto demonstre que fui eu e todo mundo. É que antes eu precisava contextualizar para chegar a minha experiência particular.
Em primeiro lugar o titulo é uma referência fuleira  ao personagem do Marcio Garcia na novela “Celebridades”. Lembra do Marcos? A personagem Claudia Abreu (Laura) adorava chamá-lo assim.  Então aqui se revela parte do meu conhecimento novelístico, meu e da Maiara (minha colega de quarto) a quem devo a nomeação do meu garoto.
Então gente, o fato é que o meu querido michê me fez feliz. Sem qualquer compromisso, envolvimento sentimental, dever de satisfação (no sentido de dar satisfação/explicação a alguém. Não confundir com “satisfazer alguém”), culpa, arrependimento (melhor parte) e cinismo de sobra, a gente se divertia.
Era aquele típico “e aí, eu não to fazendo nada, você também...”.Quando a gente se encontrava e a noite não prometia coisa melhor, lá estava ele. Ou mesmo quando a noite já tinha rendido bastante e ele tava ali de bobeira, por que não? E era fácil assim, sem muitas explicações, lá íamos nós. 
Ciúmes não fazia parte do repertório e muito menos qualquer tipo de obrigação de um com o outro. Mas tinha a tal química, ah essa tinha de sobra... Aquele beijo que encaixa e aquelas mãos que sabem exatamente por onde percorrer, e que mãos! Quantas mãos! Por mais que eu tentasse conter, quando via, já foi!
E que beleza de sorriso! Passou raiva em muita menina que eu sei, mas divertiu muitas mais.  E pelo que eu andei sabendo não mudou nada, continua um talento, mas já não me encanta mais.
 Pois é, uma hora a gente se encontra com a dignidade e resolve dar uma chance a ela.E como num conto de fadas moderno, “acabou-se o que era doce” sem muita explicação cada um seguiu seu caminho .“The end”, mas sem o “felizes para sempre”.


                  


Não é isso que as pessoas chamam de fé?



Quero deixar bem claro que esse post nem de longe é uma tentativa de expor a dor alheia e que pra mim é bem difícil encontrar palavras. E que embora a palavra dor venha a ser mencionada  não é disso que quero falar.Pois hoje venho falar do poder das ligações.
No fim de semana passado uma pessoa por quem eu tinha muito apreço faleceu e a noticia chegou a mim no mesmo dia por meio da minha mãe.
Tratava-se da mãe de uma amiga muito querida, amiga essa com quem pude contar num momento bem difícil da minha vida.  A “tia” como nós chamávamos era mesmo um pouco mãe e muito amiga de todo o nosso grupinho  e a noticia surpreendeu e abalou a todas nós.
Eu mesma não conseguia me convencer. Mas depois que a ficha finalmente caiu, eu cai junto. Fui tomada por um pranto incontrolável e meu pensamento corria sempre para aquela amiga.  Mesmo tão longe, naquele momento eu me senti junto dela. Naquele momento não só meu pensamento, mas principalmente meus sentimentos lhe acompanharam. 
E em meio a esse momento triste ainda é possível se surpreender e se encantar com força da união que os sentimentos podem prover.
A minha amiga mora longe da família em função da faculdade, mas todo ano ela volta pra casa nas férias de julho. Esse ano seria diferente porque ela estava estagiando.  Mas a saudade da mãe falou mais alto e ela não se importou em deixar tudo e voltar pra casa.
Como explicar isso? Como explicar essa vontade súbita de estar com alguém, esse quase pressentimento?  Eu não acredito em destino, portanto a minha amiga não poderia prever algo assim, e obviamente isso nem passava pela cabeça dela. Mas ela chegou a tempo de se “despedir” da mãe. E é essa parte da compreensão que me falta. Eu  não posso entender, eu não posso explicar, mas eu posso acreditar. E eu acredito no poder dessa ligação. No poder desse amor que é tão forte entre mãe e filha que é capaz de conectar pessoas a distancia.
Esse poder que me fez me sentir tão comovida e tão próxima da minha amiga que eu já não via a quase um ano e que mantinha  um contato quase escasso via redes sociais. Porque naquele momento eu me senti ligada a ela, ligada a dor dela, a qual nem de longe eu possa ter a dimensão, mas que também era minha. Minha e de outras amigas em comum que temos e que eu também já não vejo ha algum tempo.
Eu vi a beleza dessa amizade ali mesmo via MSN, onde nós conversávamos e partilhávamos a nossa preocupação e onde pensávamos juntas uma forma de dar força a nossa amiga. Todas nós longe dela, mas conectadas pelo poder dessa amizade que não acabou nem mesmo depois que cada uma seguiu seu caminho.
Via mensagem uma amiga teve o cuidado de avisar aos outros amigos o que tinha acontecido para que eles também pudessem “ser presentes” nesse momento.  Logo eu também recebi o número de telefone dessa minha amiga, mas só hoje pude ligar.
E minha surpresa ao ouvir do outro lado aquela voz que se esforçava para não ficar tremula e aquelas palavras carregadas de tamanha vontade de prosseguir. Sim, eu estava perdida, procurando não dizer nenhuma imprudência e ao mesmo tempo demonstrar que eu estava ali pra ela, tentando conter o choro. Enquanto isso ela sem saber me confortava ao demonstrar tanta fé na vida.
Eu sabia que aquele coraçãozinho estava apertado, pedindo socorro, pedindo alguém que arrancasse aquela tristeza, mas a boca promovia força, a força que eu devia dar a ela.  E essa força também me comove, me surpreende e me comove.  Essa força que vem da dor e da crença em algo superior.
Independente do seja esse algo superior ,a fé é sempre uma coisa que me encanta. E agora ela estava ali, ligada a Deus, o ser superior em que ela acredita.
LIGAÇÃO. Todas as ligações que estabelecemos, seja com outras pessoas ou com uma “força superior” são manifestações de fé na medida em que acreditamos nisso. E eu acredito no poder do amor que liga mãe e filha, no poder da amizade que liga pessoas distantes, no poder da crença que me liga a Deus. Nessa força que dá força. Essa beleza que surpreende e encanta. Essa coisa forte que eu não entendo, não explico, mas que acredito. Isso que as pessoas costumam chamar de FÉ. 


                           Para que você  continue acreditando...

O muito que sinto

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"Eu sou um ser totalmente passional. Sou movida pela emoção, pela paixão... tenho meus desatinos... Detesto coisas mais ou menos... Não sei conviver com pessoas mais ou menos... Não sei amar mais ou menos... Não me entrego de forma mais ou menos... Se você procura alguém coerente, sensata, politicamente correta, racional, cheia de moralismo... esqueça-me!"

É, e eu que sempre tentei fugir disso. Desse comportamento passional que às vezes me cansa e me desgasta. Tentando entender porque e traçando mil estratégias para mudar de conduta como se fosse programável assim.
Até entender que talvez eu nunca entenda nem encontre explicação racional pra minha falta de racionalidade em alguns momentos. Eu tendo a querer controlar e achar uma explicação para tudo. Eu fico pensando em saídas até a cabeça doer. Nem durmo às vezes.
Choro! Grito! (por dentro) Sufoco! Fico me roendo, com se diz. Até ficar triste e recomeçar o ciclo. Daí eu começo a pensar com mais calma e passa. Mas só passa depois de todo o circo armado, depois de todo o desespero, depois do alarme, do alarde.
Calma, não precisa ficar com medo... Ou talvez precise?
Eu também não sou nenhuma desequilibrada, pelo menos não as vistas de todos. Meu sufoco é meu, só sabe quem está mais perto. Mas também não se anime muito. Eu não sufoco meu sufoco. Eu não sei calar, eu preciso gritar ainda que só eu escute.
Eu possuo uma histérica interior que às vezes precisa dar as caras, dar uma voltinha do lado de fora para respirar e não matar o corpo que habita com falta de ar.
Não, eu não sou risco para os outros, talvez só pra mim. E não sou justamente porque me permito esses momentos de desabafo exacerbado, porque tento não acumular sentimentos carregados com tanta energia, sejam bons ou ruins. Eu preciso dissipá-los e assim abrir espaço para novos. Porque eu também não sei viver sem sentir e sem sentir ao extremo.
Quando digo que sou um risco pra mim é porque o desgaste é inevitável correndo de uma ponta a outra permeada por sentimentos tão intensos. Por outro lado é extravasando isso no choro ou na escrita, por exemplo, que trato essa minha “loucura” de forma saudável.
 Eu também não acho que sou uma louca. Só vejo a vida por lado romântico, aquele que sofre, que se doa, que se entrega e até morre por tanto sentir, mas nunca morre de verdade, porque ninguém morre por amor, antes morre o que não ama. E por isso o romântico pode morrer várias vezes e alguém duvida de que ele o faz? Que nos conte Vinicius*, que amou tantas vezes e tantas vezes se deu ao todo, por completo, para cada amor e ao fim de cada encantamento estava refeito e pronto para recomeçar.

“Românticos são loucos
Desvairados
Que querem ser o outro
Que pensam que o outro
É o paraíso...
... Românticos são lindos
Românticos são limpos
E pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha
E sem juízo...
São tipos populares
Que vivem pelos bares
E mesmo certos
Vão pedir perdão
Que passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo
De outra desilusão...”
(Românticos, Vander Lee)

E não pense que somos assim tão levianos e que se nos recuperamos e recomeçamos é porque não amamos de verdade ou porque nos envolvemos pouco. É bem o contrário. É que os movidos pela paixão obviamente estão sempre se apaixonando. É a força motora, é vital. O que também não quer dizer que nos apaixonemos facilmente. A devoção não é para todos.
E ainda que praguejemos e amaldiçoemos o nosso sofrimento e juremos nunca mais nos permitir sentir dor , não sabemos viver sem isso. Porque não podemos e quando envolvidos já não queremos controlar. Porque não acreditamos em não sentir. Eu não acredito. Eu não quero, me recuso.
Então se por acaso um dia eu te amar e depois amar outra pessoa, não duvide do meu amor. Ele foi todo seu em toda sua amplitude. Porque eu não sei estar em nada que eu não ame e se não mais te amar o natural é que eu vá buscar em outro canto.
Não acho que as pessoas sejam descartáveis e por isso sofro quando tenho que abandoná-las, pois também penso no sofrimento delas. Mas também não acho que mereçam tão pouco, porque é pouco uma ligação por mera “consideração” e nem tenho a pretensão de acreditar que sou “insuperável”, por isso sei que essa pessoa sobreviverá sem mim.
Uma vez um amigo me disse que a paixão não podia ser tomada como um copo d’água quando se tem sede porque rapidamente esvaziamos o recipiente e não nos damos por satisfeitos. Continuamos sedentos. Acho que ele tem razão.
Eu sou exatamente assim, vou cheia de sede ao pote, me lambuzo e talvez por isso nunca esteja satisfeita. Estou sempre sedenta.
Me intrigam pessoas que não transparecem nada, que não expressam, que não esboçam quase nunca alguma reação.  Sempre que olho pra alguém assim me pergunto no que pensa, quais são seus sonhos, seus planos pra amanhã, que seja. O que quer agora? O que quer depois? Quer alguma coisa? Espera algo? Eu nunca consigo ler essas pessoas e elas sempre me deixam desconfiada.
Talvez exagere em dizer que sinto até um certo medo. Porque se a gente nunca sabe o que esperar da maioria pessoas, dessas menos ainda. Existe um mar oculto e impenetrável dentro delas. Não há nenhuma pista do que pode vir dalí.Eu não consigo me encantar com esses tipos...

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu acaso, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia. (...) Não gosto de nada que é raso, de água pela canela. Ou mergulho até encontrar o reino submerso de Atlântida, ou fico à margem, espiando de fora. Não consigo gostar mais ou menos das pessoas, e não quero essa condescendência comigo também."
(Martha Medeiros)

Sentir! Eu preciso sentir! Não sei não sentir. E só sei “no muito” que às vezes até parece pouco. Sentir em grandes proporções e gastar tudo isso. Me esvaziar e me encher num movimento constante.


*Vinicius de Moraes: "Casou-se nove vezes em busca de uma paixão eterna. A grande angústia é que ele sabia que não ia encontrar?, disse Toquinho no documentário Vinicius." (http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_288610.shtml)

"Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu...
...Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão..." 

O que dá (o) tempo


Hoje uma amiga foi embora depois de dez meses de convivência e por acaso eu cheguei em casa um pouco antes dela seguir para o aeroporto. Fiquei esperando até ela entrar no táxi  e assisti suas “pequenas despedidas”.
Sua aparente tranqüilidade e conformismo eram denunciadas pelas lágrimas e pela respiração ofegante do choro.
Nos últimos dias ela transpareceu calma e parecia muito consciente do seu retorno a casa. Não manifestou nenhum movimento contrário a isso. Não se desesperou. Não reclamou. Não disse que não queria voltar. Na verdade até adiantou a passagem uma vez que o seu objetivo aqui já tinha se concretizado, os estudos tinham chegado ao fim.
Ok, até aí nada de estranho. É o que se espera que aconteça pra todo mundo ao fim do termino dos estudos. Mas o que tocou na atitude dela foi a maturidade que me fez refletir sobre o que é o tempo pra cada um de nós e como lidamos com ele.
Cada um tem seus motivos pra querer voltar ou ficar mais tempo. As pessoas mais próximas a mim, as que ficaram o mesmo período que eu (inclusive eu) gostariam de ficar mais. E pelo que convivi com essa amiga em particular, imagino que ela também. Mas ainda assim ela tomou a decisão de voltar antes.
As vezes bate aquela sensação de que poderíamos ter feito mais, ter sido mais. Que “não deu tempo”, que “o tempo não deu”.
E o que o tempo me deu?
Nada!A questão é o que eu fiz com o tempo que eu tinha...
Agora que estou a pouco mais de um mês de voltar pra casa fico numa ansiedade só, querendo cada instantezinho . Tento “prender” esse tempo que não para. Quero mais tempo com quem eu quero. Parece tão pouco e tão perto de acabar.
E eu fico chateada com quem não entende isso. Mas eu também sei que pra cada um é de um jeito.
E atitude da minha amiga me fez percebe que o tempo não foi insuficiente e que não daria pra ter feito mais do que fizemos, no tempo que fizemos. Porque a gente vive exatamente da forma que acha que tem viver naquele momento, ao nosso tempo.
Ela conservou praticamente a mesma postura de sempre. Ela tocou a vida com sempre fez. Nada foi mudado na sua rotina. E não porque ela fosse indiferente a mudança ou porque não se importasse com quem deixaria , porque sim, ela deixou alguém a quem queria muito bem.
Mas porque ela entendeu que não havia mais nada a ser feito e que o fato de mudar o comportamento nos últimos dias não mudaria o fato de que ainda assim voltaria pra casa ao fim desses dias.
Não adiantava grudar feito carrapato nas pessoas que provavelmente ela não verá mais e nem sair fazendo tudo que ela não fez no período que esteve aqui (minha provável atitude nessa situação).
Ela só se permitiu chorar e foi embora sem relutar. Nem orgulho (ela não estava se fazendo de dura) nem passividade, apenas compreensão da situação.
Eu teria ficado nostálgica; chorado rios; deixado recados com mensagens melosas pra todos; tirado um milhão de fotos; feito mil despedidas; dito trilhões de palavras; quase não dormiria; comeria o mundo (aliás algumas dessas atitudes eu já venho apresentando o.O) Enfim, teria deixado minha pieguice fluir...
Mas ela não. Ela foi apenas ela, sem alterações. Como eu serei apenas eu com todos os exageros que me são de direito e apego. Mas a afirmação da minha postura não me impede de admirar a maturidade dessa amiga e de dizer que hoje eu aprendi com a atitude dela, ainda que eu decida manter a minha.


Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora


Deixar... Deixo?


“A nossa liberdade é o que nos prende”
(Mais Uma Vez,Jota Quest)

“Mais uma vez” é uma das minhas músicas favoritas do Jota. Já recorri a ela em vários momentos. Tem essa letra que parece contar a história de um monte de casais. E conta mesmo.
Já ouvi várias amigas dizendo que essa música tem tudo a ver com seu relacionamento ou com algum momento dele. Já teve a ver comigo também e acho que vai ter sempre um lugar na minha memória, como agora.
Mas o post não é pra falar da música e nem de um relacionamento em específico. Mas de uma forma de se relacionar e o trecho mencionado acima vem de encontro com o que quero falar e aqui será ressignificado por mim.
Sabe aquele lugar comum do “viva e deixe viver”? Eu adoro! (não tenho nada contra lugares-comuns, aliás, às vezes sou até piegas). Eu acho maduro e fundamental pra um relacionamento saudável.
Saber deixar...Mas não deixar no sentido de autorizar, porque daí perde todo o sentido pra mim. O sentido é totalmente oposto. Ninguém tem esse poder sobre outro. A gente não é dono do outro. Não é direito nosso autorizar ou não ninguém. Se outro se submete a alguma exigência ou restrição é por escolha própria, ainda que não se dê conta. Alguém só tem poder sobre nós se assim permitirmos.
O saber deixar é deixar ir, largar, soltar, deixar livre. Permitir de “permitir ao outro ser o que quiser” que também é “se permitir”. Entender que independente de uma vida juntos, temos vidas independentes. 
Necessitamos de um espaço nosso, experiências próprias e individuais para que possamos “ser”. Ser além do outro... para poder agregar. Para me reconhecer e respeitar como um indivíduo provido de uma vida própria.

“Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio...
Saber amar
Saber deixar alguém te amar”
(Saber amar, Os paralamas do Sucesso)

Os relacionamentos onde mais me senti estimulada foram aqueles em que tive carta-branca. Porque me senti respeitada.
Não que outro tenha que concordar com tudo e não possa se posicionar de forma contrária. Não temos que aceitar o que não nos agrada.  Mas precisamos entender que outro tem o direito de ser o que quiser e que se isso nos incomoda cabe a nós nos adaptarmos, se assim desejarmos ou sair da situação sem tentar mudar ninguém.

Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender”
(Raul Seixas)

E isso nem sempre é fácil. Eu pratico esse exercício, mas não sem alguma dificuldade. Quando estamos com alguém tendemos a fazer do mundo do outro o nosso e vice-versa. O que é natural, queremos partilhar nossas vivências. O problema é quando queremos viver a vida do outro ou viver por ele.
Tenho um comportamento protetor, gosto de cuidar, ter por perto e sinto ciúmes às vezes, mas nunca fiz dessas características limitações. Não tento impor minha presença ou qualquer autoridade (com jeitinho talvez consiga realizar algumas vontades), porque entendo que mais do que limitar a outra pessoa limito a mim mesma.
A partir do momento que tento cercear a liberdade de alguém dou a essa pessoa o direito de fazer o mesmo comigo. Além disso, não quero ninguém ao meu lado forçadamente, ainda que eu entenda que ninguém é forçado a nada. O que quero dizer é que não gostaria de estar com ninguém se não fosse pelo motivo primeiro dessa pessoa querer estar comigo.
Também não gosto de relações de dependência. Me apavoram!

“Viva todo o seu mundo, sinta toda a liberdade”
(Mais uma vez, Jota Quest)

Se essa pessoa sabe que é livre para poder ir onde quiser, quando quiser e ainda assim resolve voltar, é porque de fato ela quer estar a seu lado. E por isso mesmo ela volta, por saber que é livre pra ir e vir. É a nossa liberdade nos prendendo.
É difícil, dá medo. Porque a gente sabe que nessas idas e vindas o outro pode não querer voltar. Pode encontrar novos caminhos sem querer trilhá-los com você.
E é aí mesmo que a gente tem que deixar. Deixar ir. Deixar livre. Deixar ser. Deixar viver. Porque daí a gente também se deixa tudo isso. Aí a gente se permite também. A gente fica livre pra viver outras histórias com quem também quer viver com a gente ou pra viver sozinho mesmo. Mas com a certeza de que a sua vida é sua e que o melhor vínculo para estar unida a alguém é a vontade.

Apesar de só estarem em questão alguns trechos da música, vale a pena conferir na íntegra. A letra linda, é sempre uma delícia ouvi-la.