De passagem


“Faço menos planos e cultivo menos recordações.
Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço.
Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve, alcanço
seus limites com as mãos, é nele que me instalo e vivo com
a integridade possível. Canso menos, me divirto mais, e não
perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós”
(O permanente e o provisório, Martha Medeiros) 

Eu achei que essa idéia já tinha ficado clara na minha cabeça, na verdade até ficou, mas por em prática é sempre mais difícil. Ter a capacidade de entender e principalmente aceitar que as coisas têm um tempo, seu tempo de duração.
Eu tinha pavor dessa idéia antes, me parecia que pensar assim era entender as coisas como descartáveis, como se tudo tivesse uma validade. Hoje eu percebo a idéia de forma mais amena
Na verdade muitas vezes é bom que algo dure “apenas um tempo”. É o que nos dá a chance de mudar e portanto vivenciar novas experiências, de nos renovar, recomeçar.
É que praticar o desapego pra mim é um trabalho constante. Aceitar as mudanças com naturalidade é uma tentativa recente pra mim. Eu ainda tendo a fincar raízes por onde eu passo, embora já entenda que sou capaz estar por aí, solta no mundo.
Eu gostei desse sabor, dessa liberdade, desse privilégio, só não sei se quero sempre. E voltamos ao passageiro. Toda essa liberdade me serve agora, mas por quanto tempo?
Bom acho que estou dando voltas e sei que o que falo não é novo. Mas é que ultimamente essa idéia tem me inquietado um pouco. O que é normal na minha atual situação. É que eu já estou com aquele sentimentozinho de volta. A volta pra casa que sinceramente não tem sido lá muito ansiada.


"Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar"

(Encontros e Despedidas, Maria Rita)

Claro que há muitas coisas que ficaram lá que me enchem de saudade. Aliás, saudade nem tanto, porque saudade é muito forte, mas falta. Mais que coisas existem pessoas e dessas eu também precisaria de mais que 1 ano para afirmar saudade.
Não é frieza e muito menos indiferença, é adaptação. E assim como eu me adaptei longe de tudo que eu tenho lá, não há dúvidas que vou me adaptar longe do que tenho aqui. E essa idéia as vezes me traz um gostinho de melancolia abraçada a um conformismo.
É triste pensar que ao fim dessa experiência muito do que foi vivido vai ser apenas uma lembrança gostosa. Claro, o que conseguir ser lembrança porque naturalmente muita coisa vai ser esquecida. E daí a gente vai olhar as fotos tentando resgatar a memória.
Memória de cheiros, gostos, sentimentos partilhados naquele momento, nomes, situações engraçadas ou até mesmo corriqueiras. Uma conversa fiada na cozinha, uma viagem, uma estória pessoal confessada diante da recente/forçada  intimidade criada pela situação.
Ah lembra aquelas amigas da sua amiga que você conheceu pela web can? E a mãe da fulana que veio visitá-la durante a sua breve estadia por aqui? E o irmão do cicrano que você viu colado no mural? Lembra? Aliás qual era mesmo o nome da sua amiga?
É, mais do que momentos talvez a gente tenha que se esforçar pra lembrar de pessoas. Daí você pode dizer: “Ah mas a gente vai lembrar de quem era importante. Se esqueceu é porque não fazia muita diferença”.
Ah fazia sim! Naquele momento muita coisa fazia diferença. Longe de casa, em outro país, todos na mesma situação. “Todo mundo meio que se precisava”. (olha eu escrevendo no passado já) E não é só uma questão de precisar, é de querer. E nem só uma questão de estar todo mundo na mesma situação porque a gente também fez amizade e/ou criou  algum vínculo com os “donos da casa”.
E realmente não vai dar pra lembrar de tudo. E a gente vai ter que se esforçar algumas vezes pra lembrar um nome, um lugar. Mas não vai ser por mal. Vai ser porque as coisas são assim. Mesmo eu querendo arquivar tudo. Ah logo eu que não tenho lá grande memória... Droga de memória!
No final vai sobrar aquele contato no facebook ou em qualquer outra rede social. De vez em quando a gente vai ver umas atualizações, comentar, dar uma olhada nas fotos rapidinho. E pensar: “ah que legal que o fulano tá bem”, “pow o fulano ta fazendo isso”... E vai continuar a vida.
Vamos lembrar umas estórias, esquecer uns pedaços, confundir umas partes, rever as fotos, guardar as fotos, sonhar outros sonhos e seguir nossos caminhos. Quem sabe a gente até se cruze... Mas não vai ser por mal.
                                                       


                                        " E assim, chegar e partir
                                               São só dois lados
                                             Da mesma viagem"


"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba"


Querer parecer

 “Eu quero ser como você
 Eu quero ver o que você vê
(Eu Quero Ser Como Você,Capital Inicial)



Eu já mencionei num outro post a minha meio-crença no Complexo de Édipo. Eu sempre olhei essa teoria com uma certa desconfiança, mas ela sempre pareceu se adequar a mim e outras pessoas a minha volta.
De fato eu fui uma criança encantada com meu pai e por muito tempo parte das minhas decisões foram fortemente influenciadas pela opinião dele. Não faz muito tempo, eu ganhei mais autonomia.
Eu ainda sou uma fã, mas não tão incondicional. Aprendi a enxergá-lo como um homem, portador de muitos defeitos e faço um trabalho diário para aprender “perdoá-lo”. A gente acha que pai e mãe não erram e somos por muitas vezes tão  intransigentes quanto eles.
Pode parecer prepotente da minha parte falar em perdão, mas é um eufemismo hiperbólico. Quero chegar com isso no ponto em que entendo as limitações do meu pai que o tornam mais humano e quando aceito suas falhas, me permito as minhas.
Mas na verdade comecei a falar do meu pai para chegar a outra presença forte na minha vida: minha mãe.
Como eu já mencionei a minha relação de amor passional sempre foi com meu pai e a minha mãe, era só a minha mãe, na minha cabeça de criança. E acredite, isso perdurou a adolescência...
Durante anos da minha vida eu achei que ela gostava mais do meu irmão do que de mim (é, eu sempre fui meio exagerada, possessiva, ciumenta... e pelo visto mais crente no Complexo de Édipo do que eu imaginava o.O).
Mas o fato é que eu saí de casa e minha relação com a minha mãe mudou consideravelmente. É aquele clichê: “A distância aproxima as pessoas”.
Bem, na verdade eu fui percebendo o poder dessa mulher na minha vida um pouco antes, no processo de mudança mesmo, mas eu só assimilei isso quando de fato estava longe.
Foi sempre a minha que segurou as pontas lá e casa. Como é de se supor, por toda a admiração, eu me tornei muito parecida com meu pai, então já imaginam como ele é: um exagerado, dramático, com dificuldade de pensar de forma prática em situações de pressão. Por tanto esse encargo ficou por conta da minha mãe. E ela dá um show.
A minha mãe no geral tem um gosto pelo pessimismo, mas é só no dia-a-dia, quando tudo vai bem. Quando a coisa aperta de verdade, fica preta, ela mostra quem é de verdade. Surge a mulher de fé, de palavras estimulantes( o meu irmão acha meio auto-ajuda, mas eu absorvo tudo). Eu sinto inveja da fé dela. Quando eu tenho um problema é sempre a fé dela que eu recorro, mais forte que a minha. Além disso pedido de mãe é pedido de mãe. O fato é que é infalível.
E que gênio, meu Deus, que gênio! Nisso eu tenho orgulho em parecer com ela. Quando ela diz pau é pedra, é porque é mesmo, rsrs.
E os avisos? Avisa uma, duas, três... (acho que muitas mães fazem isso). A diferença da minha é que na terceira ela já foi, já fez. Ela avisa, mas não insiste, não adula, faz o que prometeu fazer. Ai que medo disso! Eu nunca duvidei nessas situações.
Com o passar do tempo ela foi ficando mais flexível.E ssa é uma capacidade que sempre reconheci, a de saber ponderar.
Ah e ela tem uns ditados populares "Ó-TE-MOS"! Eu sem me dar conta reproduzo a maioria. Acho que já disse que adoro a sabedoria popular da minha mãe, que não se reduz a ditados. Ela também sabe milhões de receitinhas caseiras pra tudo. Ungüentos, garrafadas, chá-disso-e-daquilo, simpatias... e ajuda a perpetuar lendas urbanas, do tipo, “comer ovo e assistir televisão faz mal”. Mas como o que mãe diz a gente não questiona, eu prefiro não ariscar.
Muito do que ela me disse só foi fazer sentido quando eu saí de casa e hoje é só nela que eu penso quando tenho um problema. É minha figura orientadora, é onipresente. É incrível como eu recordo as palavras dela. E olha que eu não tenho lá boa memória. Mas eu sou capaz de ouvir claramente as suas palavras. Eu sempre penso no que ela faria ou me diria e ajo de acordo, sempre funciona.
Quando lembrar não basta, eu recorro ao telefone numa atitude declarada/descarada de filha indefesa e confesso todos meus dissabores, as vezes regados por lágrimas que eu tento evitar mas que parecem encontrar lugar e consolo nesse colo distante.

“É verdade o que dizem de você
Que você não é como eu
Que sempre sabe onde ir
E que nunca se perdeu

Diga uma palavra
Pra me acalmar
Me convença que um dia
Tudo vai melhorar
Abra os seus braços prá me refugiar
Eu quero amplificar
(Eu Quero Ser Como Você, Capital Inicial)


Minha mãe nunca me proibiu de chorar (ela ia ser vencida pelo cansaço se tentasse) porque sabe que o choro é preciso e eu acho isso lindo. Ela nunca tentou reprimir sentimentos. Aliás, ela acredita muito no sentir e essa qualidade eu trago em mim.
Ah o dom da comunicação também é outro. Minha mãe já fez amigos pra mim. Haha. Quando eu mudei pra Palmas, por exemplo, ela conheceu meus vizinhos primeiro e todas as vez que chegava em casa, ela me apresentava alguém novo. Não cometa o erro de iniciar uma conversa, pode te custar boas horas. Brincadeira, ela costuma ser uma figura querida entre meus amigos, que muitas vezes ligam pra falar com ela, por exemplo agora que eu estou fora do país. Ai que fofo isso!
E por esse gosto pela conversa, sempre contou muitas estórias que eu sempre gostei de ouvir e recontar. Causos e causos. Mas a melhor pra mim é a do noivado de dois anos que acabou pouco antes do casamento. O noivo era do tipo, bom-partido, medico/advogado, de boa família, família conhecida e bem vista pelos meus avós. Mas que segundo as considerações da minha mãe não era o suficiente. Ela percebeu que não sentia lá grande coisa por ele e portanto não seria feliz. Fim de noivado.
Pouco depois ela conheceu meu pai. Bom partido também, do tipo, escolaridade: quinta-série, profissão: apontador, de família simples: mãe dedicada e pai boêmio, a qual meus avós maternos desconheciam.
A melhor parte é que o ex-noivo foi procura-la dois anos depois e ela já estava com meu pai. Ele ficou inconformado com a troca e proferiu a célebre frase: “Não acredito que você vai me trocar por um peão!” (muahaha, adoro mesmo essa parte).
Acredite, ela trocou. E passou bons bocados ao lado do meu pai. Não pôde terminar os estudos por circunstâncias da vida e teve de largar o emprego quando eu e meu irmão nascemos.
E sabe por que eu fiz questão de contar isso? Porque nunca, mas nunca mesmo eu ouvir a minha se queixar do rumo que a vida dela tomou. Nunca  deixou escapar qualquer sinal de arrependimento. Até acho que ela pode não ser satisfeita com muitas coisas, mas ela fez escolhas e assumiu todas as conseqüências.
Apesar desse gênio difícil de controlar, ela foi capaz de se doar por quem amava e isso é um mérito inquestionável. É o que eu busco trazer pra minha vida todos os dias.

“Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
(Você É Linda,Caetano Veloso)

Ela não faz o tipo mulher moderna, independente, com o próprio dinheiro, ambições e falta de tempo. Ela tem todo o tempo do mundo pra casa, marido, filhos e novelas. E isso está longe de ter um tom pejorativo. A presença dela em casa sempre foi muito importante para família.
Eu posso não almejar esse padrão de vida pra mim, mas não deixo de admira-lo e respeitá-lo. Não acho que seja inferior a nenhum outro. Reconheço as dificuldades dessa rotina. A minha mãe provavelmente não almejou isso também, mas soube aceita-lo e isso não a torna abnegada. Minha mãe está longe de ser Amélia
Apesar dela insistir em conservar suas rugas, sardas e cabelos brancos e não se importar com o peso....
Ela é muito bem resolvida pra eu dizer que ela não tem vaidade.

“Linda.
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz...”
(Você É Linda,Caetano Veloso)

Ah e essa "mineirice"... que permeou meu imaginário e me encheu de curiosidade a vida toda, graças a seu saudosismo e sua descrição calorosa da terrrinha...
De Corinto, no interior das minhas Gerais. Não fala “uai” e nem “bão”. Mas conservou o gostou pelas modas sertanejas e o sabor das comidas bem temperadas. Pão de queijo, bolo de fubá, feijão tropeiro, torresmo... Disparado a melhor comida. Ô meu Deus, quanta saudade...
Eu tenho a imagem completa na minha cabeça. Dia de faxina e o sertanejão rodando no cassete, enquanto ela encerava com cera em pasta o chão de tacos da minha casa. Porque segundo ela, cera líquida não dava o mesmo brilho. Depois trocava todas os lençóis, colchas e fronhas das camas pelos mais bonitos. Sem falar dos paninhos que ficavam nas estandes, mesinhas, criados-mudos e afins... Coisa de mãe, lembrança linda...
Linda, forte, simples, rica, admirável. A senhora está além do que eu possa escrever/ descrever e quiçá além do que eu possa enxergar. Mas o pouco que eu vejo já é muito para que eu reconheça sua imensidão e queira ainda que de longe ser como “você"

P.S: Mãe, “você” é questão de licença poética e não desrespeito. Tente entender o contexto, rsrs. Te amo!

 Paula Fernandes: mineira, linda e talentosa, cantando vossa terra. A melhor forma que encontrei de homenagear a senhora que no meu imaginário é tão rica quanto sua conterrânea