Queria te contar...

Ai como eu queria te contar que ao te ver pela primeira vez não vi mais nada. Meus olhos se concentraram na camisa branca que desfilava no escuro.  Sim, assim era fácil te achar... E quando achei já não quis perder. Era isso que tinha pra te contar...
Eu queria te contar que sinto falta de esfregar meu rosto na sua barba e de passar a mão no ondulado do seu cabelo...
Queria te contar que adoro o jeito incessante como fala e que quando você afirma que sou calada é só porque perco as palavras do seu lado. Porque nem quero mais falar, só quero ouvir.  Adoro quando me conta o teu mundo com esse sotaque que me confunde, que eu aprendi a gostar e até a sentir falta...
Eu só quero te descobrir, saber sobre você, sobre a forma como vê as coisas, quero saber do teu jeito...
 Ah esse teu jeito...
Desligado,
Despercebido,
Despreocupado,
 Às vezes até “desconsiderado”.
Queria te contar que depois de você mudei minhas impressões e busco todas as referências que me levem para perto de ti...
Também queria te contar que você desperta em mim a raiva que desconhecia.  Grito, xingo, odeio o mundo quando me deixa esperando e quando me deixa sem respostas. Odeio não te ter e me odeio por isso, mas essa parte eu nem deveria te contar.
Imagina se você soubesse tudo isso.  Se soubesse que enquanto você tem medo de se envolver porque eu vou embora, eu morro de medo de não me envolver enquanto estou aqui.
Eu queria muito, muito te contar o que você já sabe: “temos pouco tempo!!!”
Eu queria te contar que se me afasto é porque quero que entenda tudo isso. Quero que sinta a mesma falta que eu, a mesma necessidade que tenho de você, quero que perceba!
Queria te contar que você é muito diferente de mim, mas eu gosto das diferenças
Ai eu queria te contar tanta coisa, eu queria te mostrar mais de mim...
Eu queria te inundar com o meu mundo, com meus pensamentos, muitos voltados pra você.
Mas se eu te contasse, você finalmente saberia e seria demais pra você. 
Então já que apenas queria, mas não posso te contar, conto no meu mais claro “brasileiro” para quem quiser saber.

“Na minha boca agora mora o teu nome
É vista que meus olhos querem ter”
(No recreio, Nando Reis)
"Assim ela já vai achar o cara que lhe queira como você não quis fazer..."

Medo do/de poder

Numa sessão de terapia, a terapeuta incisivamente pergunta a sua paciente: “Você tem medo de ser grande? De ser livre?” e afirma: “Tem medo de já não caber em si, da pessoa que pode se tornar.”
E sim, ela tinha medo desse poder, talvez ainda tenha. Mas ela tem experimentado ousar...
Mas sabe o que ela descobriu? Ela não é a única e como ela, muitos ainda não se deram conta ou talvez não queiram admitir. O problema é que eles fingem não ser e acreditam que os outros não percebem. Aí caímos no “me engana que eu gosto” ou “finge que não sabe que eu finjo que acredito”.
E o que é toda essa conversa fiada? Para que tanta divagação?
Isso é porque recentemente eu tenho assistido a constantes demonstrações de auto-afirmação e isso tem me levado a refletir sobre a necessidade que temos em aparentar. Do medo que temos da visão e julgo alheio e de como lidamos com nossos próprios preconceitos ainda que sejamos nós mesmo os alvos. Um comportamento “auto-flagelante”, digamos assim.
Morando numa residência universitária a proximidade é inevitável. Convivemos com pessoas de todas as partes e isso amplia a gama de pensamentos e comportamentos e torna o ambiente “fértil” para falatórios. Daí temos as seguintes situações:
1. “Estou longe de casa, morando entre universitários, na Europa (ilusão do pensamento aberto), portanto quero descobrir”.
2. “Moro com milhões de outras pessoas que amanhã estarão comentando minhas atitudes”.  
Temos até um trocadilho aqui: “A santa tecla” (O nome da residência é Santa Tecla).
E então é hora de escolher o caminho. Quero viver minhas experiências ou quero manter uma imagem intocada para poder apontar o outro?
Sim, sim, essa é aquela velha discussão sobre “o que as pessoas vão pensar de mim?”. Eu sei, você sabe... Mas eu quis abordar o assunto, não só porque já me vi nesse dilema como porque vi pessoas sendo colocadas contra parede, com abordagens “forçantes”, agressivas, do tipo “gente que não quer sair do armário e fica sendo questionada sobre sua sexualidade” ou “gente que não quer sair do armário e tenta afirmar sua masculinidade”  
Ih!  Tem até gente que resolveu questionar a sexualidade e que está se questionando até agora.
Tem menina beijado um monte de meninos e meninos beijando um monte de meninas.
Tem menino com menino e menina com menina.
Tem gente sozinha.
Tem quem queira seus “120 dias de Sodoma” (ver Marquês de Sade).
Tem quem encha a cara.
Então, tem de tudo em toda a normalidade do dia-a-dia. Mas que aqui está mais visível, mais exposto e, portanto mais vulnerável e propicio ao julgo alheio.
Mas e aí?!
E aí a gente fica com medo de provar, de experimentar, de descobrir, de viver tudo isso que acaba jaja?
E aí a gente fica com medo do outro que tem a grama mais verde que a nossa?
E aí a gente esquece o que é e quais são nossos propósitos e que o fato de mudar as vezes não nos define, só nos caracteriza?
E aí a gente fica com medo e vergonha de todo mundo e não erra e não aprende e não vivencia e não tem do que lembrar e não cresce?!
E aí a gente vai passar a vida com medo do que queremos, com medo de sermos maiores do que somos e de não cabermos em nós.
MEDO DE PODER fazer , MEDO DO nosso PODER.
E aí a gente vai ser pequeno e vai precisar que um terapeuta nos diga tudo isso.


Para quem admira a poesia de Vercilo, como eu, deixo essa declaração de amor destemido...




E para quem está com vontade de mandar aquele "f...!!!"  ela, a Lily  =)